O título para votar


Fiz meu primeiro título de eleitor em 1975. Morava em Brasília nesta época. Lembro da foto de cara séria, uma roupa esquisita. Uma cara mais rechonchuda. Tanto que anos depois, já em Porto Alegre, na primeira eleição eleição direta para governador desde a ditadura que se implantou em 1964, o mesário me olhou, alguns quilos mais magra, exuberante em uma calça branca justa e de cabelos encrespados e me disse sério: não é tu! Eu ri e jurei que era. E ele mais que rápido me soltou: mas tu melhorou bastante. Piadas machistas a parte, e nem a considero assim porque realmente estava bem melhor por dentro, o que se refletia por fora, meu titulo de eleitor começou a apresentar a sua utilidade plenamente mais de uma década depois, quando enfim pude (eu e mais milhões de brasileiros) votar enfim para presidente em eleição direta e já com dois turnos.  

Como adoro pesquisar a história familiar, estes tempos deparei com o título de eleitor de meu avô alemão. Tinham todos os dados dele, inclusive altura, cor de olhos e vários dados físicos, além da foto. Devia ser importante porque eram tempos de votos de cabresto. Aqueles em que iam outras pessoas votar no lugar de alguns. Onde se recebia a cédula pronta e o resultado era previsto e não por pesquisas eleitorais, mas pela força de quem detinha os poderes locais. Meu outro avô, o gaúcho maragato, morreu lutando por uma democracia mais plena. E isso antes das mulheres terem direito a votar. Isso só aconteceu no dia do aniversário de onze anos do meu pai, em 24 de fevereiro de 1932. As lutas das feministas e sufragistas já vinha de muito tempo antes porque direitos não caem do céu. É preciso que alguém ou muitos alguéns se dispunham a lutar, alguns até morrer, para que hoje muitas de nós possam exercer seu direito de escolha. Ainda poucas são as escolhidas para cargos públicos. Afinal ainda não faz nem um século que podemos votar aqui nas terras auriverdes.

Quando fiz meu primeiro título ainda não era facultado que se pudesse votar aos dezesseis. E nem faria muito sentido porque o voto era algo raro em tempos ditatoriais. De lá para cá tenho participado de todas as eleições. Eram momentos em que me emocionava muito. Embora soubesse que meu voto individual faria pouca diferença, para mim era um momento simbólico de participação. 

Participávamos de carreatas, comícios. Meus pais e eu debatíamos politica em casa desde sempre. Ás vezes não concordávamos, mas na maioria das vezes a mais progressista era minha mãe que saia de bandeira em punho e ousava em votos mais a esquerda. Sempre foram momentos compartilhados em esperanças e senso cívico. Quando eles foram ficando mais velhos, os levava de carro porque faziam questão de votar. Até que chegou o dia em que tive que ir só. Confesso que me doeu. Democracia nunca foi palavra vazia em minha casa, talvez porque meus antepassados deram a vida por ela. Mas continuo indo, título em punho. Vou votar pelos que não podem mais fazer isso. Minhas escolhas carregam a responsabilidade da esperança de uma nação mais solidária, justa e inclusiva. Se meu avô morreu pela liberdade de escolher, resta-me lutar para que o amor seja a escolha mais harmônica e possível. Que tenhamos juízo e que a Vida prevaleça.     

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