Das eleições


"Não é tu na foto!!!" 
Me disse o mesário em minha primeira eleição. Realmente aquela guria mais gorda e séria da foto, com uma roupa listrada esquisita, em nada parecia com aquela outra, mais magra, mais bronzeada que dentro de uma calça branca justa e camuflada nos cachos de uma permanente, usava aquele título pela primeira vez para votar para governador. Presidente ainda iria demorar mais uns 4 anos. 

Tirei meu título de eleitora aos 18 anos. Morava ainda em Brasília. Fui usá-lo 10 anos depois já em Porto Alegre.

Ainda era o tempo em que votar me emocionava, me sentia mudando algo. Era mais jovem e idealista.

Da minha vida com obrigação de votar, 29 vivi como opositora ao governo. 10 deles em uma ditadura. 

Nesse meio tempo vivi porque a vida segue apesar de. Era mais doído nos tempos de mordaça mas nunca abdiquei do direito de criticar e discordar. Mesmo nos governantes em que ajudei a eleger. Criticar é um direito que não abro mão. Fazer a DR da relação a solidifica. Aí dos governos que a rechaçam. Perdem a vitalidade dos que apontam outros rumos. Governantes sábios são os que sabem agregar. 

Hoje não há mais fotos no título. Eles nem servem para votar se não acompanhados de identidade. Logo nem teremos mais papel. Vai ser aquela tortura da digital que vai sumindo com a idade. Um dia o voto será direito e não obrigação. Um dia quem sabe nossos governantes serão escolhidos por algoritmos por robôs que farão tudo pela gente. Talvez até poesia.

Um dia um mesário talvez me olhe bem velhinha e pense em quantas eleições já não terei vivido. Um dia talvez nem existam mais mesários e nossas escolhas sejam feitas como curtidas em redes sociais. Nos governem os mais populares. Um dia talvez nem existam mais eleições e os jovens achem que isso de escolher alguém seja história da carochinha....

Mas a poesia...essa restará...Mesmo que seja feita por robôs...

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