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Mostrando postagens com o rótulo memórias

Poeira de lembranças

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O calor me mata. Não gosto dos extremos. Meu mundo se encanta com as harmonias. Calo de arquiteta? Talvez tenha sido refinado, mas minhas memórias me lembram que sempre fui uma pessoa observadora e crítica dos excessos. Saber conciliar os saberes internos com as expectativas externas é um dos meus desafios nesta vida. Meu espírito parece um pêndulo oscilando entre emoção e razão. Pobre coração... Tão carente de emoção... Tão escravo da razão Minhocas a parte, estamos no décimo dia do segundo mês do calendário gregoriano. A Terra continua girando nos céus em viagem à uma constelação que nem lembro nome, nem tenho certeza que é uma constelação. Já não tenho certeza de nada. Observo. No meio de um universo em expansão, uma minúscula poeira cósmica, eu e meus neurônios ainda nos vemos como o centro de um mundo que está pouco se lixando para a existência humana. Um dia vou morrer. Nós todos. Somos finitos assim como a poeira cósmica onde vivemos. Tudo é finito dentro da infinitude. Conversa...

O colinho

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  Tem aqueles dias em que a gente se sente como quem partiu ou morreu, a gente estancou de repente, ou foi o mundo inteiro que parou…ouço a música ressoando em mim, nem sabendo se lembro direito a letra ou ela se confunde com um sentimento de melancolia.  Nesses dias de tudo cinza em que nem a mais vibrante mentalidade otimista consegue vislumbrar um traço de energia, é bom se lembrar de coisas que nos fazem bem. Nos dêem amparo, uma sensação de colo. Quando fazia biodança, há muitos anos atrás, se chamava dar continente este afago de afeto que traz o outro e acolhe em seus braços. Sem nem me dar conta, ou talvez dando, eu me fiz continente nestes dias cinzentos que passei faz pouco.  Tinha um pote de feijão congelado no congelador. Feijão congelado dando continente e colo? Sim, porque do feijão, fiz uma sopa, do jeitinho que a mãe fazia quando eu era pequena. Nos dias frios de inverno, na casa lá de cima do morro onde morávamos em Novo Hamburgo, naquela época em que eu e...

Quando os relógios param

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Na estante da casa da minha tia tinha um relógio tão diferente dos normais. Era em vidro, revelando um mecanismo fascinante que mesclava com o barulho dos minutos passando. A casa da minha tia era um mundo a parte. Tinha uma geladeira sempre repleta de guloseimas. Quando falo repleta, é cheia de andares com vários recipientes uns sobre os outros. Tinha um sótão onde dormiam os filhos. Meninos de um lado, meninas do outro. Naquele sótão morava uma casa de bonecas apaixonante. Acho que vem dali a inspiração para tantos dos meus sonhos terem sempre um sótão de tesouros escondidos. Mas era na estante da sala, onde morava o relógio que me fascinava, que ficavam os enfeites que eu nunca tinha visto! Meu tio, seu marido, era navegante. Radio telegrafista do antigo Loide Brasileiro, passava temporadas em terras distantes e quando vinha, além de um novo filho, lhe deixava objetos de mundos então tão desconhecidos. O relógio era um deles. Relógios sempre exerceram em mim uma magia incontrolável....

Das ruas da minha infância

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Tão grandes as ruas da minha infância! Maiores por ser eu tão pequena. Eram seguras, convidativas para um caminhar, um brincar de amarelinha. Novo Hamburgo, uma cidade próxima à Porto Alegre, com ruas tão limpas que parecia não haver habitantes. Nossa casa, branca como as nuvens, ficava em cima de um morro. Nos verões escaldantes, faltava água. Íamos de sacolinhas, a pé, até o Clube Aliança. Piscina e o banho que, fora de casa, tomava ares de aventura. Anos mais tarde, fui passar um carnaval em Laguna/SC, na casa de um pescador. Eu e uma turma de jovens urbanos. Além do piolho, que pegamos na noite em colchões conjuntos, também a água faltava. O jeito era pegar um barquinho, atravessar as águas e ir tentar um banho no camping local, rezando para que nos confundissem com os barraqueiros de lá. Ou comprar um no barzinho simpático, cujo banheiro tinha uma janela enorme que dava para uma mata. Tomara não tivesse ninguém ali. Bons tempos em que o celular não tinha sido inventado, nem as...

Eulália - a bem amante

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Eulália servia doces não eram quaisquer doces eram ambrosias divinas daquelas de conto de fadas servidos em cálices bem pequenos Eu mesmo era pequena loira e calada Eulália, a bem falante era muda em seu cantar não recordo sua voz mas enxergo seu andar se movia docemente com a leveza dos pássaros parece que tinha um ar antigo dessas de histórias mágicas sua casa, perto da minha tinha tesouros que nunca esqueci abria sua caixa de pandora e me dava um por vez por mais que meus olhinhos gulosos pedissem mais um cálice  bem pequeno   puro cristal colorido todo talhado com arte dentro dele o mais divino manjar uma quantidade ínfima de doces de ovos nada mais que aquilo bastava para saciar fomes desejos anseios sonhos Eulália sentava elegante e devia conversar com minha mãe não lembro só pensava em degustar meus primeiros prazeres da gula Eulália, só fui descobrir seu nome de batismo muito tempo depois foi sempre Vó Lalica um nome em t...

Das eleições

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"Não é tu na foto!!!"   Me disse o mesário  em minha primeira eleição. Realmente aquela guria mais gorda e séria da foto, com uma roupa listrada esquisita, em nada parecia com aquela outra, mais magra, mais bronzeada que dentro de uma calça branca justa e camuflada nos cachos de uma permanente, usava aquele título pela primeira vez para votar para governador. Presidente ainda iria demorar mais uns 4 anos.  Tirei meu título de eleitora aos 18 anos. Morava ainda em Brasília. Fui usá-lo 10 anos depois já em Porto Alegre. Ainda era o tempo em que votar me emocionava, me sentia mudando algo. Era mais jovem e idealista. Da minha vida com obrigação de votar, 29 vivi como opositora ao governo. 10 deles em uma ditadura.   Nesse meio tempo vivi porque a vida segue apesar de. Era mais doído nos tempos de mordaça mas nunca abdiquei do direito de criticar e discordar. Mesmo nos governantes em que ajudei a eleger. Criticar é um direito que não abro mão. Fazer a DR da ...

Portais de emoção

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Vi um tempo atrás uma série canadense chamada Mundo de Érica. O enredo era fascinante. Uma moça no limite de suas emoções, quase desistindo da vida, é salva por um psiquiatra. Mas não um terapeuta normal, mas um que abria as portas do passado para que Érica pudesse não apenas reviver, mas mudar pontos chaves de sua vida. Uma mistura de ficção e a teoria dos universos paralelos.  Devo dizer que sou absolutamente fascinada pelo passado. Seja em leituras de história como em literatura que brinque com a possibilidade de voltar ao passado. Quem nunca, não é mesmo?  Depois que perdi meu pai comecei a sentir muito forte um sentimento de viver vários momentos ao mesmo tempo. Calma, não enlouqueci. Apenas sinto alguns locais como se fossem portais de emoção. Principalmente aqueles que vivi momentos muito intensos.  Um desses locais mágicos é o meu sítio. Sinto fisicamente as emoções que vivi ali. E lembro com tal realismo que é como se passados e presente se mesclassem e tudo esti...