Eulália - a bem amante

Eulália servia doces
não eram quaisquer doces
eram ambrosias divinas
daquelas de conto de fadas
servidos em cálices bem pequenos
Eu mesmo era pequena
loira e calada
Eulália, a bem falante
era muda em seu cantar
não recordo sua voz
mas enxergo seu andar
se movia docemente
com a leveza dos pássaros
parece que tinha um ar antigo
dessas de histórias mágicas
sua casa, perto da minha
tinha tesouros que nunca esqueci
abria sua caixa de pandora
e me dava
um por vez
por mais que meus olhinhos gulosos
pedissem mais
um cálice bem pequeno 
puro cristal colorido
todo talhado com arte
dentro dele
o mais divino manjar
uma quantidade ínfima
de doces de ovos
nada mais que aquilo
bastava para saciar
fomes
desejos
anseios
sonhos
Eulália sentava elegante
e devia conversar com minha mãe
não lembro
só pensava em degustar
meus primeiros prazeres da gula
Eulália, só fui descobrir
seu nome de batismo
muito tempo depois
foi sempre Vó Lalica
um nome em tudo
apropriado para ela
Um dia sumiram os doces
ninguém falava alto
fui juntando os cacos e retalhos
Vó Lalica voara para sempre
do alto da sacada 
seu corpo frágil foi tragado
pela vida que ela repelia
A Eulália
que só mais tarde também
soube que nasceu no mesmo dia
que eu.

A bem falante das palavras mudas, 
a bem amante dos carinhos delicados,
a mulher passarinho 
agora alada


(A Vó Lalica era mãe do meu padrinho e foi uma das mulheres que marcaram minha vida. Gostaria de tê-la conhecido mais. Pelo filho que criou, um artista em tudo generoso de alma, imagino que fosse muito sensível e uma mulher muito especial. Obrigada, Eulália, pelas lembranças de vida) 

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