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O coração pensa constantemente - reflexões sobre o luto e a vida

 
O coração pensa constantemente. E irradia impulsos eletromagnéticos com uma potência que nos conecta ao universo. Não por acaso, escolhi uma frase de vida para começar a falar do romance de Rosângela Vieira Rocha que se chama O Coração Pensa Constantemente.

Contando a história de vida e morte de duas irmãs, purga sua dor com o seu próprio luto. Acompanhei pelas redes sociais muito desse seu processo pessoal e a dor pela morte sofrida de sua irmã. 

"cada luto é único e nenhuma perda se parece com a outra. De nada serve ter frequentado essa 'escola', pois não há aprendizagem e muito menos diplomas. Ninguém está preparado para a morte."

Luto. É quando o coração da gente soluça. Nada aproxima mais os seres humanos que a dor de perder alguém amado. Nos dias de pandemia que vivemos, essa dor se multiplica pelos milhões que morrem e pela ausência sofrida que deixam em outros milhões pelo mundo. Foi com esse sentimento, entre o meu particular e o geral e mundial, que a leitura me tocou de maneira sensível e delicada.

A autora resgata a sua história, meio ficção, meio verdade, não importa, quem dirá o que de nossas lembranças realmente aconteceu daquela forma e não de outra. O realmente relevante é como guardamos as memórias das pessoas e acontecimentos que nos marcaram. 

Entre passado e presente, somos apresentados às protagonistas. Uma que narra, outra que é narrada. Ambas vivas e potentes tem suas vontades, fraquezas e anseios. Uma vida que se constrói em uma cidade do interior, de um século que já se foi, com uma vida, cuja normalidade nem imaginaríamos abalada por um vírus tão potente.

Vírus são vários que também nos acometem pela vida. Quando deixamos sonhos de lado. Quando tecemos colchas de ilusões ou de deverias, ao invés de paixões e gostarias. 

Quanto de normalidade tínhamos em uma vida que hoje lembramos com saudades? Mas quanto de conforto nos traz lembrar de tempos não tão distantes onde o estar junto era constante. E não uma impossibilidade.

Em determinado trecho, a autora fala de um fato marcante e da compulsão de compartilhar com a irmã morta, cujo número ainda estava em seu celular. Quem nunca? Quem nunca sentiu a dor doída do nunca mais? Quem nunca falou com o ser amado com o idioma do coração? 

O luto e a vida. Mais que adversários, parceiros. Entramos nesse mundo com data de validade marcada. Podemos alguns prorrogar. Outros, ao contrário, abreviam seja por atos, escolhas ou inércia. Mas todos morreremos.

Pulsar pela perda, purgando dores é normal. Cada um sabe a dimensão da sua dor. Criar vida em cima da morte, é obra para os artistas e os sábios.

E para os resilientes. 

Os que ainda, teimosamente, acreditam na fraternidade e no amor ao próximo como propulsores de vida e humanidade. 

Uma leitura leve, apesar do tema. Uma leitura doce em dias tão assustadores. Uma leitura que parte do particular, da sua aldeia e alcança aquele sentimento que nos faz fraternos. No fundo, somos todos irmãos que perderam alguém. E por isso nossos corações pensam (e irradiam) constantemente.

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