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A travessia da velha senhora

Mãos de idosa e jovem com rosa
Catarina estava com sono e sem paciência naquela manhã em tudo invertida. Saíra apressada de casa para uma reunião daquelas do trabalho, onde todos falavam muito e decidiam pouco. Foi com um sonoro palavrão que brindou o sinal fechado na faixa de pedestres. Já ia colocar o pé apressado no pedal quando viu.

José estava feliz. Tinha sido recém promovido. Comprara o carro novo, tão sonhado, e o anel de noivado para Joana. Ela não sabia, mas ia ser pedida em casamento naquela noite. José tinha temperamento romântico e gostava de adivinhar os desejos de sua amada. Estava conjeturando se tinha acertado nos inúmeros detalhes que tornassem a data inesquecível que só se deu conta, quando distraído, olhou em frente.

Julieta tinha saído de casa, como todas as manhãs fazia. Ia comprar o pão no super mercado para tomar um café gostoso, com requintes de cuidados que fizera por mais de oitenta décadas. Seus cabelos brancos em um coque arrumado. Seus dedos, antes ágeis, meio entorpecidos pela artrose. Sua amiga mais próxima, a bengala que auxiliava seus passos trôpegos. 

Ao acordar seguira a rotina de setenta anos. Colocava a mão ao lado para sentir seu amado Antonio. Vazio. 

Sempre se assustava com o vazio. Antonio não mais, repetia em voz baixa, como que para se convencer.

Não mais suas mãos delicadas a ajudando a sair da cama. Não mais sua voz grossa lhe elogiando, mesmo ao acordar. Não mais seus dedos, a enrodilhar paixões e descobertas, mesmo no entardecer da vida.

Não mais o amor. Não mais a vida.

Apenas ela e sua solidão. Sua velhice que teimava em se fazer presente. Suas pernas que sempre lhe recordavam a vida que se esvaia. Sem remorsos, sem ternura. Apenas uma velha sozinha.

Os filhos lá longe. Mentira. Longe em presença. Sempre apressados, correndo para fazer sua vida. Correndo para curtir as férias, para voar para longe, para descobrir novos horizontes. Os criara para isso. Mesmo que tivesse custado aos dois tantos momentos de também voar sem pensar.

Mas os rituais, esses fazia questão de continuar. O pão quentinho e novo comido com manteiga derretida, dessas que molinhas se aquietam na boca e descem como carinho na alma da gente. Comida é amor, sempre dissera para Antonio. E ele ria, concordando, bom gringo que era.

Estava com pressa e, sem pensar, começou a travessia. A faixa de pedestres. Os carros da manhã. O sinal. Suas pernas que não obedeciam a pressa da jornada. Sentiu que o verde se instalou antes que alcançasse a margem. O verde dos outros. O vermelho para ela. Suspirou fundo e tentou ir com mais pressa. Sem sucesso.

Catarina olhou a cena da senhora de cabelos brancos, com sua bengala e andar claudicante, começar a andar pela faixa. Olhou o carro ao lado, que continuava parado. E parou. Parou a pressa que a fazia andar sem pensar. Parou a programação de vida que a tocava para frente sem questionar. Parou para deixar a senhora passar.

José emergiu dos pensamentos de amor e olhou em frente. A senhora que andava sozinha com sua bengala. E teve um momento de melancolia, pensando que sua Joana o teria como companheiro e que juntos iam se amparar, mesmo quando bem velhinhos. E tirou o pé do acelerador, pensando se saía do carro para ajudar a senhora.

Catarina, José e todos os motoristas pararam, em um silêncio de compreensão e respeito pela vida que caminhava diante deles. Viram quando Julieta enfim chegou à calçada e teve uma pequena pausa diante da poça de água que teimava em lhe ser obstáculo do destino. Mais um pensou ela, temerária. Estou atrapalhando a passagem de todos, pensou cautelosa. Mas não se deteve. Usou um poste como a mão que ora lhe faltava em presença física, mas que dentro dela, lhe dava forças para ainda continuar.

Foi com um suspiro de emoção e esperança que todos os motoristas enfim seguiram suas vidas. 

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