A serpente e a água

Olhava a água como quem vê miragens. 

Por dias corria quieta como pastagem silenciosa. Mas nos dias de brumas a água se revolvia como se possuída por força misteriosa e adquiria uma potência ruidosa. Rugia. Fervia. 

Hoje era dia do meio. Daqueles nem para lá, nem para cá. Aquela calmaria que entremeia o furacão. O olho.

Sabia que vinha. Dava para sentir pelo cheiro que tempos danosos se acercavam. Eles nunca vinham sem aviso. 

Mister saber reconhecer os sinais. Um pássaro que voou gritante. Uma folha de mirtilo nascida em carvalho. Um olhar de reconhecimento no meio do nada. 

A água formando redemoinhos em dia sem vento. Miragens todas. Mas o arrepio de cadela uivante não é miragem. O cheiro da serpente também não. 

A inhaca. O sibilo. O rastejar gosmento  de hipocrisias tantas que juntas parecem formar um promontório de santos crucificados.  

E a água. 

A água prometendo respostas. A água chamando para dentro. A água que limpa. Que renova. Que purifica.

A água e suas voragens.

O vento zunindo. As cascas da naja no chão. O bote inteiro se preparando. E ela calma. Faquir. Sem sentir. Sem lutar. Sem ganir.

O medo se vence de dentro. Uma vez vira como se ataca uma serpente em bote. Dois cães. Um de cada lado. Postados a uma distância segura e latindo. Fazendo tanto barulho que a bicha em pé no seu corpo sem patas tentava bicar, mas sem sucesso. E os cachorros ganindo, ganindo, ganindo. A uma distância sempre segura. E a bicha fugindo. 

Olhava a água como quem vê milagres. 

Em cada ciclo da natureza se encerra sua sina. Vencer ou vencer. Morrer jamais.  

Salvador Dalí, Metamorphosis of Narcissus, 1937

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