Quando os relógios param
Na estante da casa da minha tia tinha um relógio tão diferente dos normais. Era em vidro, revelando um mecanismo fascinante que mesclava com o barulho dos minutos passando. A casa da minha tia era um mundo a parte. Tinha uma geladeira sempre repleta de guloseimas. Quando falo repleta, é cheia de andares com vários recipientes uns sobre os outros. Tinha um sótão onde dormiam os filhos. Meninos de um lado, meninas do outro. Naquele sótão morava uma casa de bonecas apaixonante. Acho que vem dali a inspiração para tantos dos meus sonhos terem sempre um sótão de tesouros escondidos. Mas era na estante da sala, onde morava o relógio que me fascinava, que ficavam os enfeites que eu nunca tinha visto! Meu tio, seu marido, era navegante. Radio telegrafista do antigo Loide Brasileiro, passava temporadas em terras distantes e quando vinha, além de um novo filho, lhe deixava objetos de mundos então tão desconhecidos. O relógio era um deles. Relógios sempre exerceram em mim uma magia incontrolável....