Portal do tempo em memórias afetivas

 

Os lugares onde moramos marcam memórias. Quando os revisitamos, mesmo que em tempos posteriores, é como se um pedacinho de ontem voltasse junto.

Ontem estive em um lugar muito importante em minha memória afetiva. 

Quando viemos morar em Porto Alegre era 1965. Saímos de Novo Hamburgo que, apesar de próxima à capital, tinha ares de cidade pequena no meu ver de criança. Porto Alegre era a cidade de prédios altos, mais imponentes! E onde era nossa nova casa? Justamente no coração do poder da cidade. Um edifício ao lado da Catedral Metropolitana. 

Meu pai tinha se encantado com ele porque era térreo, quase uma casa. Mas como a rua ao lado é uma ladeira íngreme, nosso lar, que era de fundos, se transformava em um seguro segundo andar. Eram tempos em que as sacadas ficavam abertas e os pequenos como eu podiam brincar sós na praça. O edifício se chamava Vista Alegre. E fazia jus ao seu nome! Da sacada se podia ver o Rio Guaíba. E a imponente Catedral com suas torres imensas! Ainda não estava toda concluída, mas lembro que metodicamente seus sinos ecoavam com força de manhã e pela tarde. Imaginem o susto nas primeiras vezes! Mas a gente se acostuma com tudo. Até com sinos tocando dentro dos ouvidos. 

Além de brincar na Praça da Matriz, passar pelo Palácio Piratini (onde trabalha e mora o governador) para ir ao colégio, eu ia estudar na Biblioteca Pública e passear no Museu Júlio de Castilhos, cuja entrada era de graça. Um mundo novo se abria para a menina do interior! 

Logo que chegamos, meus pais me levaram para andar de bonde. Eles iam ser em breve substituídos pelos modernos Trolebus e meus pais queriam que eu tivesse a memória de andar naquele transporte tão nostálgico. Lembro do passeio como se fosse hoje. E do carinho dos meus pais que sempre se preocupavam em mostrar e explicar o mundo para nós. Minha mãe me dava as refeições, explicando todo o processo digestivo para que eu entendesse porque tinha que comer sem falar ao mesmo tempo. Meu pai nos criava dentro de uma democracia prática, ensinando a debater e a ter consciência crítica com tudo. Os dois nos ensinavam o que era uma casal amoroso e como a vida devia ser vivida com ética e muito bom humor. 

Éramos felizes no apartamento da Duque. Ali era ponto de encontro dos irmãos, cunhados e sobrinhos. Nossa casa nunca estava vazia! Os almoços e cafés da tarde eram fartos e cheios de conversas gostosas. Alguns dias da semana, o monsenhor vinha conversar com o pai e juntos tomavam aperitivos. Diga-se de passagem que meu pai tinha brigado com a Igreja Católica aos 12 anos, na sua cidade natal. A história era contada e recontada como ele sempre fazia. Sempre tinha uma parábola, uma piada, algum causo para complementar um assunto. Gostava de falar, o Seu Paulo. Tinha debates ótimos com o Monsenhor que nunca lhe cobrou não ir às missas. Suas filhas iam. Nós. Ali na Catedral fiz minha primeira comunhão. Ali também decidi não continuar na Igreja. Tudo muito respeitado em casa onde não éramos ateus. Aliás conheci poucos cristãos como meus pais. Generosos, honestos e amorosos. Com eles. Conosco. Com a vida!  

Ali naquele apartamento ao lado da Catedral, meu pai dizia que um dia íamos falar ao telefone nos vendo. Dizia que devíamos poupar a natureza, preservar árvores e água. Não para poupar apenas a conta, mas porque eram bens escassos que um dia poderiam faltar. Crescemos com consciência ecológica.

Um dia nos mudamos dali. Nosso destino: Brasília. Era uma aventura! Fomos de carro, lembro bem o dia em que saímos. Passado um tempo o apartamento foi vendido. Um dia voltei à Praça da Matriz. Foi ficando tarde e tive uma sensação de desamparo onde antes tinha segurança. Ali já não era meu lar. 
Um pouco disso tudo voltou ontem quando fui conhecer um café da Catedral que foi inaugurado há pouco. Um espaço entre o Palácio e o Templo. Uma mesas ao céu aberto, mas ao mesmo tempo cercadas pelos poderes, pelo verde, pelas tradições e para mim, pelas memórias de lar.

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