A vida sempre continua

 

ampulheta pixabay

Acordo mais tarde e já vou caminhar com o dia corrido nesta quarta-feira de cinzas onde a cidade adormecida recomeça a voltar sua vida de todo dia. Faço uma meia volta no parque, ladeando uma avenida cheia de árvores e um corredor de ônibus central. Enquanto olho o movimento no meio das árvores ouço um som que mexe comigo. Uma sirene de ambulância. 

Já estive dentro de uma, correndo pelas ruas escuras da cidade, enquanto meu pai recebia atendimento e eu rezava para que tudo desse certo e chegássemos a tempo no hospital. Se antes eu já sentia aquele barulho como urgente, agora ainda mais. Sempre rezo para que tudo dê certo para quem ali dentro luta pela vida. 

Olhei para o lado e, no corredor de ônibus, vejo três veículos. Um ônibus na mão normal. Uma ambulância com sua sirene tocando na contra mão. E na frente dela, outro ônibus em sua rota. Fico imaginando que um dos ônibus vai se mexer, ou os dois para que a ambulância siga seu caminho, duas quadras que está do pronto-socorro municipal que pode representar a diferença entre a vida e a morte de alguém. Lembro de cenas antigas, de ruas congestionadas onde carros vão para cima das calçadas para que a emergência que toca a todos possa ser sanada. Lembro também de uma cena que me tocou em Veneza, no grande canal, onde os barcos e gôndolas também se afastaram para que um barco ambulância pudesse seguir seu caminho de salvamento. Um som meio universal nessa que é a luta que todos sentem, que nos une como espécie e que nos faz reagir para largar nosso caminho para que outros possam ir em busca de salvar alguém. Para meu espanto, nenhum ônibus se move. A sirene da ambulância continua tocando. A angústia cresce em meu peito. Vejo com mais espanto que não só não se movem, como o motorista de um dos ônibus, desce e vai falar com o outro. Que me parece que também desce e ficam discutindo quem vai ceder. Não consigo compreender essa cena tão surreal onde pequenas circunstâncias podem se sobrepor ao mais urgente no momento que era abrir espaço para a ambulância cuja sirene anunciava a emergência de uma vida. E já nem importa se era urgente ou não. Há códigos na vida em sociedade que devem ser seguidos por uma urgência ética. A sobrevivência é uma delas. Me perco no meu estranhamento cheio de angústia quando vejo que a ambulância passa correndo no corredor para logo silenciar ao entrar no Pronto Socorro. Rezo para que os minutos de impasse não tenham sido fatais para alguém. Fico pensando em quantos momentos da vida não nos perdemos em debates estéreis querendo ter razão quando o mais urgente e necessário é agir para resolver a questão que se impõem.

Teço críticas e faço panfletagens mentais. E caminho. E vejo o sol e gente que aproveita um dia bonito. Há cachorros, há velhos e jovens. A vida sempre continua, independente dos dramas pessoais. Há alguém morrendo em algum lugar, mas a vida continua.

A vida sempre continua.

Quando passo de volta pela avenida, vejo que um dos ônibus continua parado no mesmo lugar. Me dou conta que o motorista desceu, não para marcar uma posição, mas para alertar um colega que ele mesmo não poderia agir, já que seu veículo estava avariado. Também me dou conta que fui crítica sem conhecer toda a situação. Que nem sempre a verdade dos fatos é o que parece em um recorte da realidade. E que tecer julgamentos precipitados quase sempre nos induzem ao erro.

A vida segue. As ambulâncias seguem seu caminho de salvamento. Nós seguimos sendo humanos. Nossos passos revelam escolhas e nos levam adiante no nosso eterno recomeço de fazer momentos significativos. Que eles nos façam mais sábios, que saibamos distinguir o urgente e o necessário, e que não nos falte ação no momento certo.

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