Minha mãe faz 97


Minha faz 97. 
Quando ela nasceu, a futura Rainha da Inglaterra ainda não tinha nascido. Seus pais, meus avós, se mudavam das Três Vendas e pararam em Cruz Alta. Viajavam de trem pelo interior do Rio Grande do Sul com toda a família. Uma árvore, plantada por meu avô, em uma praça local marcou o nascimento da menina loira e de olhar tímido que poucos anos mais tarde foi fotografada no colo de sua mãe, junto às suas irmãs.

Moravam ainda em Porto Alegre. Logo se mudariam para o interior onde teve uma infância mágica com brincadeiras, descobertas, aprendizados de jardinagem e artes infantis. Uma infância feliz até os dez anos quando, já órfã de pai e mãe, perde suas referências e começa um tempo de sofrimentos.  

Adolescente conhece aquele que seria seu companheiro de vida por mais de setenta anos. Meu pai. Namoraram por seis meses antes dela se mudar. Continuaram por cartas e longa distância até ela retornar e se casarem. Eram tempos de guerra mundial. Eram tempos de mocidade e mesmo com lutas pela sobrevivência o jovem casal parte para fazer a sua vida. Sempre juntos, sempre apaixonados, sempre mantendo o brilho no olhar, o dialogo mútuo e uma prática de democracia naquela família que crescia. 
   


Primeiro veio a Ana Lúcia, depois o Fábio. Muito depois eu.
A jovem Helena se fez mãe. Cuidadosa e brincalhona, ensinava cantando e contando histórias. 
Elegante, era a tia que dançava de saltos altos nos bailes da vida. Era a mulher ávida de saber que lia poetas e filósofos, ela que não teve educação formal.
Era a companheira que se tornava amiga dos meus amigos e era a pioneira em votos progressistas.
Sempre foi politizada.
Sempre teve opinião forte.
Convivia com suas carências do jeito que dava, sempre espelhando beleza e generosidade de alma.
  

A menina de olhar firma que veio na Exposição Farroupilha de 1935 se transformou na bela jovem que encantou meu pai, na mulher fascinante que quase não usava maquiagem, na leitora de Neruda, na senhora que começou a fazer ioga aos 50 anos, na avó e bisavó que nunca deixou de brincar.


Um dia o companheiro se foi. Sua vida perdeu o brilho que ele lhe proporcionava com seu amor incondicional. Mas ela sobreviveu. Chegou às nove décadas ainda cheia de vitalidade.


A pandemia já a encontrou mais alheia da vida. Sua mente se indo, mas vez por outra seu olhar ainda brilhante guarda a menina que nasceu no longínquo ano de 1925. Seus cabelos brancos emolduram um ar ainda de majestade da grande mulher que ela sempre foi. Hoje sou eu que a acordo com as mesmas canções que ela entoava para mim.

Minha mãe faz 97 e agradeço cada momento que a tenho ao meu lado, ela que tanto me ensina até hoje.

Obrigada, Mãe! Te amo

Comentários

  1. Amiga, que vida. Que história. Emocionada com essa narrativa que alimenta em nós coragem e paz. Parabéns dona Helena.

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