Presente inusitado no dia dos namorados


Uma cuia e uma pacote de erva mate. O presente mais inusitado que ganhei em um dia dos namorados.

Essa história tinha começado uns meses antes. Recém formada em arquitetura, fui numa festa dessas de amigos de amigos. Aquelas que a gente só conhece uma ou duas pessoas. De repente um jovem. Moreno, olhos pretos, pilchado. 

Pilchado é como chamamos quem está vestido com as indumentárias gaúchas. Bombachas, bota, sotaque fronteiriço, daqueles de com os "ês" bem pronunciados. Falante, apaixonante. Terminamos a noite com ele me levando para casa, de moto. Sem capacete. Nem lembro se eram obrigatórios no início dos anos 80. Do século passado. 

Me deu dicas de como ser carona em moto. Tipo um baile, segue os movimentos de quem conduz. Perto de um túnel, me disse, com um sorriso matreiro: "Queria agora te dar um beijo, mas aprendi que ao se fazer duas coisas ao mesmo tempo, uma não se faz bem". Obviamente não eram duas coisas que se devia arriscar fazer mal: conduzir uma moto e beijar pela primeira vez.

O próximo encontro foi uma passeata gaudéria. Improvisei uma calça mais larga, uma bota, essa sim comprada em loja de artigos regionais. Eu amava aquela bota. Usava com calças para dentro antes disso virar moda. Minha mãe a chamava de rosilhona (um tipo de bota daqui). Meses mais tarde queria combinar com o moço da moto para, juntos, darem um fim naquela bota que eu não tirava para nada.

O gaúcho de tez morena e falar largo era patrão do CTG de sua empresa. Eu uma gaúcha de cidade, que mal sabia os termos regionais. Ele estudante de engenharia civil. Eu arquiteta recém formada. Nada mais obvio que ganhar uma cuia e erva mate em um dia dos namorados. E de quebra aprender a fazer chimarrão. Sei até hoje.

O rapaz? Se perdeu nas estradas da vida. Antes foi meu sócio. Não foi o amor da minha vida, foi um dos possíveis. Foi um ensinamento de não fazer duas coisas ao mesmo tempo. Não aprendi. Preciso resolver isso, eu que sempre fui multitarefa. Que estudava escutando rádio. Que tem cada vez mais dificuldade de focar. Mas que sabe fazer chimarrão até hoje.

Chimarrão que não tomo mais depois da pandemia. Já tomei só, muitas vezes. Foi na época em que deixei de tomar refrigerante. O ensinamento do rapaz de sorriso tão branco me deixou de herança.

Nossos caminhos se separaram. Um dia li no jornal a notícia de sua morte. Outro estado, foi assassinado. O choque que levei pela transitoriedade da vida. Tantos sonhos tinha. Seu último presente foi me visitar em sonhos e dizer que estava tudo bem. Foi gentil.

Lembro dele agora, nem sei porque. Nem todas as pessoas que passaram pela minha vida, ficaram. Mas com certeza marcaram.

E muitas vezes, presentes inusitados deixam lições de vida e utilidade que nos acompanham pela vida afora.  

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