Adorar palavras difíceis. Aprendeu desde pequena. Tentar passar um raio x na alma alheia: também. Invadir a intimidade alheia exige muita responsabilidade. Há um quê de sutileza necessária para ir desafiando teias e véus e ir abrindo pedacinhos que outra pessoa teima em esconder. Primeiro porque não se sabe o motivo da defesa. Todos nós temos nossas feridas e nossos curativos emocionais. Pode ser uma fachada irônica, uma maneira mais fria e racional de trancar emoções. Pode ser uma falta de generosidade que esconde mágoas passadas e nunca resolvidas. Não importa, desembaraçar meadas de fios enrolados exige muita paciência. E determinação para lidar com as dores que daí advêm. Segundo que se meter em seara alheia sem ter a devida permissão é intrusão. E se não tiver muito, mas muito mesmo, amor envolvido, pode resultar numa grande lambança emocional. Abrir buracos negros pode não ter volta. Inclusive para alguém que está ao lado. ...
Certos dias nem deviam existir Deviam passar batido/moído de liquidificador Não marcar presença Nem querença na vida inteira da pessoa MAS NÃO Tem dias que se instalam posseiros nas profundezas do querer da alma. Ficam ali quietinhos/matreiros esperando a ocasião de fazer presença. Incomoda presença gritando bulindo como visita indesejada. Vai! dizemos Fico! grita mal educado como todo sentir doído Fico porque finquei bandeira delimitei fronteira queimei saídas Fico e alfineto quando me dão voz e vez
Me considero uma pessoa privilegiada. Nasci em uma casa de leitores. Desde pequena, os livros eram nossos companheiros. Primeiro, pelas leituras dos mais velhos. Não cheguei a pegar o saudável hábito da leitura de livro em conjunto, que meu pai fazia nas eras antes da TV. Mas, como a caçula da família, ganhava livros desde cedo. Era aquela guria chatinha que sabia de cor as historinhas e não admitia que fossem resumidas. Nem depois de mil leituras. Nossa casa tinha o que um amigo definiu como “armadilhas do bem”, estantes de livros baixas, bem ao alcance dos olhos e mãos das crianças. Desde cedo, os clássicos estavam na mira dos olhos. Tanto que se criou uma lenda familiar na qual eu aos dez anos já tinha lido Dante Alighieri. Confesso que deixei que pensassem assim, mas não era verdade não. Só tinha lido um resumo em uma enciclopédia dessas bem completas. De verdade mesmo, tinha devorado os Contos de Andersen em uma edição primorosa da então Editora do Globo aqui de Porto Alegre, com ...
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