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Despintando as imagens do passado



Sinto saudade das coisas das coisas que vivi e das quais deixei passar (..)
Quantas vezes tenho vontade de encontrar não sei o que ... não sei onde ... para resgatar alguma coisa que nem sei o que é e nem onde perdi ...
Clarice Lispector

Hoje retomei memórias. 

De repente uma foto te leva para épocas tão distantes e meio que abrem portas de sentimentos e afeições.
Um concurso das mais belas pernas em umas festa a fantasia entre amigos resgatam as lembranças da menina que recebeu muitos elogios pela beleza na infância e pela inteligência na puberdade. 

Ah, a puberdade, essa idade difícil em que os hormônios começam a aflorar  e as emoções se confundem em mil imagens de rejeição e medos. Não sei bem em que idade me deixei levar pela desconfiança e o medo das pessoas. Lembro que bem pequena já sentia isso. Mas foi na adolescência que o pacote se solidificou. 

Entendam, venho de uma família de longilíneos e magros. E mais ainda: gordofóbicos. Não tinham mais nenhum preconceito, mas a adiposidade a mais, mesmo que pequena, era vista com maus olhos. Todos belos e magros. Eu, baixinha e gorda.

Para piorar, minha mãe me enchia de todas as guloseimas que queria. Eram cachorros quentes transbordando de mostarda, sorvetes e gemadas. Uma orgia gastronômica que se traduzia numa menina em que as roupas se apertavam. Um dia, caminhando sozinha, ouvi alguém dizendo como deixavam que uma criança ficasse daquele tamanho. Era sobre mim. 

Não era obesa, longe disso. Mas era gordinha.

Anos de praias com vergonha, dietas malucas de fome e de novo engorde, anos de aparentar indiferença e não me produzir porque prá que, mesmo? Bullying? Haja administração!

Um dia disse um basta. Fiz uma reeducação alimentar baseada na mentalização do custo benefício. Ou seja, pensava se a caloria valia mais a pena que o estar magra. Exercícios e essa consciência me fizeram perder peso e manter. Um problema resolvido mas a desconfiança extrema continuava presente.

Nas reflexões da pandemia, um momento em que, paradoxalmente, tenho menos tempo para estar comigo, começo a perceber que imagens do passado se juntam e me ajudam a despintar os retratos do passado. A eu de ontem não necessariamente precisa se cristalizar na eu de agora. 

A velha porta pintada em exercícios de percepção de décadas atrás, sempre junto com a sua chave mágica e o caminho do meio, fazem cada vez mais sentido, nesse ciclo elíptico de crescimento pessoal, que volta e meia, reencontra velhos saberes, sempre com um outro olhar.

Continuo meu retrato feito de momentos e continuidades. Avanços e recuos. Volto ao passado para revisitar e resgatar algo que está lá e nem sempre posso perceber. Minhas respostas repousam no universo de minha longa jornada.

O cosmos e átomo. A harmonia do amplo com o particular. Nós, pequenos universos, pairando na imensidão do espaço. A minha primeira ideia de mundo e amplitude, cada vez mais concreta dentro de mim. Gotas em busca do oceano. Já fui marola, hoje sou começo de onda. Um dia vou arrebentar na praia, vira espuma e logo voltar ao mar onde todos nós vivemos e voltamos. 

O fora ainda me importa. Não mais como reflexo da estética da beleza, mas como sinônimo de saúde mental e física. O medo das pessoas ainda continua como válvula de segurança da criança que teve um medo que ainda não compreende, mas que já não importa. Caminhos que ajudaram uma época são apenas caminhos passados. A vida se descortina a cada dia e momento.

Dou de novos os primeiros passos.  

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