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Derrubando convicções pessoais



Muito tempo afirmei com total convicção que na minha família todos tínhamos nascido em datas especiais. 

Minha irmã no Carnaval, o que justificaria sua imensa alegria. E também no dia do aniversário de meu pai. 

Meu irmão, no dia das mães, o que seria uma explicação interna para a preferência que minha mãe sempre demonstrou por ele.

E eu, numa sexta feira santa. Não sei no que isso me afetaria, talvez justificasse uma certa vocação para mártir...

Não contente com isso, eu ainda afirmava em alto e bom som que não apenas tinha nascido em uma sexta feira santa, como meu primeiro aniversário tinha caído em um domingo de Pascoa. Tenho fotos com o bolo, um imenso coelhinho, para comprovar. 

Recentemente fui pesquisar datas para um conto que se passava no futuro e tive a  curiosidade de também checar as nossas datas especiais de família. Para minha surpresa, o carnaval não caiu na data de aniversário de meu pai no ano que  minha irmã nasceu e nem eu nasci na tal sexta feira santa, que de especial só teve o fato de ter me visto vir ao mundo. Assim  como milhares de outros bebês. Mas sim, meu irmão nasceu no dia das mães.

Rompida a crença familiar é que fui me dar conta que obviamente a Páscoa não ia cair na mesma data em dois anos seguidos. Bastava raciocinar para ver que os dois fatos juntos não poderiam ter ocorrido.

Mas porquê eu nunca fiz essa correlação? Porque parti de uma premissa falsa e aceita como verdadeira. Quantas e quantas vezes na vida formamos uma convicção firme sobre bases não concretas? 

Imaginem o coitado do Galileu tentando rebater a convicção de que a Terra não era o centro do universo. Mas isso mexia com uma das convicções mais poderosas que se colocam sobre os seres humanos: a crença religiosa. Fé tem disso mesmo, é uma crença mesmo sem provas. Muitas vezes necessária, mesmo sem necessariamente ser só religiosa. Muitas vezes temos que ter fé em nós, em alguém, em algo, independente de fatos. O problema é quando a fé se cristaliza em dogmas. E se tenta forçar a que todos tenham uma fé que deve ser interior. Que bom que você creia em algo, mas enquanto essa força não nascer em mim, me respeite que eu te respeito.

Muitas convicções pessoais nascem de fatos mal interpretados. Ou absolutamente inverídicos, como os que relatei sobre o meu nascimento. Talvez por isso os cientistas e os que se dedicam às pesquisas e aos questionamentos sejam tão perseguidos pelo que aprendemos na História da humanidade. São pessoas que confrontam verdades estabelecidas e mostram outros pontos de vista (e baseados em fatos). Não a toa as fogueiras e linchamentos morais os perseguem. 

Ao longa da minha vida tive o privilégio de aprender a questionar. A ver os vários lados da mesma moeda e a confrontar discursos sem o peso das verdades absolutas. Venho de uma família que lia, pensava, filosofava e democraticamente decidia com argumentos. Jamais com ofensas.

Vou reescrever um capítulo de minha lenda pessoal. E vou com certeza ficar mais atenta aos outros para não me tornar refém de convicções pessoais ou alheias.   

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