Contadora de histórias

Se desse para arrancar,
este grito ganindo, 
já o teria feito

Se desse para lacerar
esta ânsia de fuga
já teria partido

Se desse para esquecer
fazendo de conta que portas não se abriram
já as teria esquecido

Se desse para não viver
arrancando a angústia à fórceps
Nem teria nascido....

Tinha sido parida em um dia de nada acontecido. 
A luz primeira vinda ao mundo nessa que era em tudo uma buscante.
Não era deste mundo.
Não deste que valorizava as espertezas e as maquinações.
Viera parar aqui por engano. 
Cegonha com endereço errado. 
Átomos soltos no universo que foram capturados em um momento de supremo gozo. 
Destino.
Escolha...

Por certo algum propósito havia já que ela desde sempre fora misto de animista e humanista.
Tocadora de quimeras, com tendências ao místico pragmático, aquele que mistura ciência, pseudo pesquisa e surrealismo.
Agora lera que a vida se fazia dos contadores de histórias.
Contaria a sua.


Das versões que houvesse sobre ela, que a sua prevalecesse. 
A verdade verdadeira é sempre uma metáfora das inúmeras possibilidades existentes. 
Que a escolha fosse inteiramente dela.

Sol nascente 
Dias de glória
sonhadora princesa
crescera 

Adolescera como todas
com dores e lágrimas
aprendendo a ser mulher
entre gozos e renúncias

Das alegrias da vida
levava o aprendizado
de tentar ser ela mesma
a maior parte do tempo

Algumas vezes sim.
Muitas não.
A maior escolha
Amar
Desbragadamente amar
Dolorosamente amar
Plenamente
Esplendorosamente
......
Amar

A maturidade chegou de choque. O aprendizado de encontrar forças que não sabia ter. Ou apenas imaginava. Ou nem isso. 
As renúncias.
As dores.
As mágoas.
A impotência de não poder ajudar os amores. Os amados. O mundo.
Suas histórias ficaram tristes como ela.
Que aprendesse de novo a sorrir.
Que visse quimeras verdejantes onde tudo era cinzento.
Que pegasse suas âncoras, abrisse suas asas e se deixasse voar.
Iria parar de canto em canto.
Abriria seu baú de encantos e deixaria sair cores feito arco iris, levando belezas para quem tanto ou nada mais sentia.
Que fosse pelos grotões onde a gente sofrida sabe do sol que curte mas guarda bem no fundo o sonho de algo mais.
Que fosse a fada da esperança, que contasse histórias engraçadas, dessas de fazer a alma gargalhar, mesmo no meio da lama.
Que fosse luz, ela que dentro, era toda escuridão.

Se desse para ser de novo
nasceria com sol a pleno
só para esplandescer

Se desse para optar
Escolheria ser andejante
dessas que espalham alegrias

Se desse para não morrer
Viveria de brisas
Tentaria ser leve

Era uma vez uma terra de maravilhas, dessas tantas que a gente nem acredita. Corria de suas terras uma nascente mágica onde todos os que se banhassem não saiam nem mais belos, nem mais jovens. 
Mas sim mais verdadeiros.
De suas águas que banhavam aquelas terras, brotava uma flor que boiava. Era amarela e lilás. E a noite refulgia em cores delirantes.
As pessoas que corriam às suas margens sentiam tal felicidade ao simples mirar, que lhes dava vontade de dançar.
E saiam todos a brincar. 
Eram velhos, crianças e jovens. 
Era gente dos palácios e das choupanas. 
Era tudo tão belo e verdadeiro que as gentes de outras terras não entendiam e os taxavam de loucos.
E eles apenas sorriam.
E continuavam a dançar.

E quem quiser que conte outra....  


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