Só um pouco para o final

Quanto será que falta para a hora de sair??

Pensava assim, meio que entediada sobre as tarefas tão repetidas que tinha que fazer todo dia. Lembrava aquela música daquele compositor que já fora unanimidade nacional: "todo dia tudo sempre igual, me sacode às seis horas da manhã". Só que não é ela que me sacode, não sou o macho da história. O ela sou eu mesma, eu que encaro o cotidiano, eu que costuro minhas meias, eu que me cobro, eu que me mostro, eu que me reviro, eu que me sustento. Eu que me aguento.

Por mais histórias da carochinha que tivesse lido, e no fundo ansiasse por um príncipe desses encantados de filme açucarado, nunca tinha encontrado um pela vida. Talvez porque o seu macho alfa fosse bem diferente do roteiro pré estabelecido e ela também não era o resumo da princesinha cor de rosa que se conformasse com a mesmice.

Só que não. Cá estava ela na mesmice dos afazeres sem graça. Cadê a imensidão que sua cabeça urgia? Nada que não passasse com uma boa dose de realidade. E as notas contadas no fim do mês que lhe bastavam para comer e dormir. Sonhar e gozar também era pedir demais.

Um quarto para daqui a pouco

Passou só isso? Mas também de que adiantava correr as horas se nada lhe esperava lá fora. Melhor o conforto das horas insanas que o descontrole do vazio a preencher. 
O vazio. O nada. Difícil descrever a sensação de não ver horizonte. De ter perdido a força, a motivação, a razão. De nada mais fazer muito sentido. De estar dentro de uma armadilha fatal sem saber ou querer saber como sair. 

Das tantas respostas que encontrara nas suas certezas findas, nenhuma lhe auxiliava agora. E os minutos teimando em não passar. A bola na garganta aumentando. O cansaço no corpo assomando. E as tarefas sempre iguais à sua frente. Insolúveis. Infindáveis. Completamente desnecessárias.

Seus instintos de bicho salivavam. Sua pele se eriçava da vontade de fuga. Seria tão mais lógico sair correndo. Uma louca em fuga que nem a noiva do filme. Mesmo que não viesse nenhum Gere atrás. E não viria mesmo que isso só acontece nas telas. Seria mais lógico dizer que ia ao banheiro e tomar o rumo da rua, deixar para trás tudo. Bolsa, identidade, segurança. Uma vida construída de concessões e chutar tudo para o alto, como quem chuta em gol um penalti, sem ideia do que vai dar. Pode dar gol e ser um super sucesso. Pode sair para fora e ser vaiada pelo resto da vida. Execrada. Posta de escanteio. E o pior de todos os castigos modernos: IGNORADA. 

Um minuto para o fim

Ficou tanto tempo no desvaneio que nem se deu conta que o relógio andou. Um minuto. Logo a porta se abriria. Ela sairia como todo dia. Não seria preciso uma fuga.

Ia arrumar suas coisas ordenadamente. Ia caminhar com elegância para a saída, cumprimentar com um sorriso polido todos, do ascensorista ao cara do Uber. Ia parar no mercadinho de sempre, dizer as mesmas coisas, ouvir as mesmas piadas. Comprar o mesmo pão preto com requeijão, sem se permitir um croissant mais calórico porque já tinha se habituado a abrir mão. Ia tomar o mesmo remédio que já lera não fazer assim tão bem. Ia engrossar as estatísticas das pessoas de meia idade. Ia teclar com desconhecidos ao invés de ver gente de verdade. Ia brincar de possibilidade enquanto via a vida desandar por água abaixo.

Ia temer. Temer o amanhã. Antever um dia em que nem essa vida medíocre ia poder ter. Ia prever as portas se fechando, uma a uma. As fugas sendo podadas. As sementes calcinadas. As rosas queimadas.

Ia acordar amanhã. Para continuar se perguntando: até quando.

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