O Tri em Brasília e minhas lembranças das copas

Uma praça cheia de gente em uma cidade do interior do Rio Grande do Sul. Um alto falante que gritou uma palavra que a menina de cinco anos entendeu como importante pela repercussão que teve em seu pai: era o Brasil ganhando a Copa de 1962.

Interessante como a gente guarda na mente as coisas que impactaram nossos pais. Lembro exatamente onde estava quando ouvi no rádio a notícia da morte do Kennedy no ano seguinte e corri para contar para a minha mãe que eu sabia ser sua fã. Naqueles tempos era tudo interessante. Minha mãe curtia tanto o Kennedy como o Fidel. Parecia o tempo em que jovens iam conquistar o mundo, não importando a sua ideologia. Acho que era esse impulso de vida que chamava a atenção de minha mãe.

Mas as Copas.... 

Futebol era presente até por aí. Meu pai já torcia pelo Grêmio, mas sem fanatismos. Mas lembro que na Copa seguinte, em 1966, o Brasil campeão foi cheio de pompas e expectativas. Foi a primeira recordação de propaganda maciça na TV que lembro.  Seria o tri campeonato. Na Inglaterra. Não foi. Ao contrário, foi um fiasco não maior que o de 50 ou o 7x1, mas foi quase.

Em 1970 eu morava em Brasília. Recém tinha chegado. Lembro que a gente não esperava muito daquela seleção. Tinha trocado de técnico um pouco antes. Parece que um rusga de gaúchos. O João da seleção não gostou do palpite do Emílio ditador e tascou: 

"Eu não me meto no teu governo, tu não te mete na minha seleção"

Se não foi com essas palavras exatas, esse foi o sentido. Mas o Emílio não só escalava o governo, o que as pessoas deviam ou não pensar e fazer, como sim, se metia na seleção. E o João foi demitido. Passou a ser conhecido como João sem medo, coisa que só vim a saber muito tempo depois. Tempos esquisitos aqueles em que os jornais estampavam receitas de bolo nas capas...

Para a guria gaúcha que falava cantado, que recebeu uma saraivada de risadas na primeira vez em que se levantou para falar em sala de aula no planalto central, aqueles jogos da copa do México foram a oportunidade de conhecer os jovens do prédio onde morava. A gente se reunia nas prumadas, lá no térreo e acho que escutávamos no rádio ou era depois dos jogos. Não me lembro direito. Mas lembro sim que a empolgação foi crescendo à medida que o Brasil vencia os jogos. 

Muito tempo depois fui saber que tinha gente que não torceu por aquela seleção. Teve gente que não queria torcer mas que não aguentou a magia do futebol e gritou gooolll mesmo sabendo que o Emílio e Cia podiam se beneficiar da vitória,como o fazem todos os governos. Até os democráticos.

Naquela época eu acreditava que a FIFA era um poder superior, maior que a ONU, que glorificava o esporte acima da política. Achava também que os jogadores vestiam a camiseta canarinho por amor à pátria e que tudo terminava em festa se a gente ganhava. Era a "pátria de chuteiras"...

Entre a menina de 13 anos e a mulher de 61 passaram 11 copas do mundo. (Eu tinha uma amiga que contava os anos de convivência com o marido pelas copas que tinham passado junto). Já não acredito em muita coisa que acreditava então. Descobri que havia atrocidades no mundo e no Brasil. Aprendi que o que via e sabia ter acontecido, nem sempre saia nos jornais. Ou saia com outra versão. Que o futebol não era diferente da vida, que o negócio movia os interesses. 

Até o símbolo daquela conquista virou pó, ou moeda, já que contaram uma história esquisita que a CBF guardou no cofre a réplica e expôs a Jules Rimet verdadeira, que foi roubada e derretida.

Assim como nossos sonhos que se "derreteram como um picolé no sol"

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