Busca em mim, de mim, em nós

E então a vida deu uma guinada e nunca mais voltou aos trilhos. Tudo evaporou. O irracional transformou tudo. (Philip Roth - O Teatro de Sabbath)
Olhou a notícia naquela rede social que todos reclamam mas continuam usando. Morte de uma conhecida da prima de uma amiga. Um quê de curiosidade nas palavras contidas no comunicado. De quê teria morrido????

Não descansou enquanto não descobriu. Percorreu os comentários, não contente com isso, foi atrás dos amigos, fotos e tudo o que pudesse descobrir da defunta. Tanto que se tornou quase íntima dela. Achou meio mórbido, mas não conseguia se conter.

Ao invés do trabalho, a pesquisa. Se via digitando nomes no Google para saber mais. Para quê, se perguntava? Para saber, respondia.

Desde quando se apossara dessa ansiedade de abarcar todos os conhecimentos? Não apenas aqueles necessários para tocar a vida, mas os supérfluos. #SQN como diziam por aí. Eram esses, aparentemente incoerentes e desnecessários, que compunham a imensa rede que unia individualidades à imensa onda de similaridades que é afinal de contas este mundo que nos cerca. 

Joan Miró
Talvez faltasse nela, dela, as respostas que antes vinham mais fáceis. Agora tudo parecia ter desmoronado e ela olhava atônita os cacos que andavam, faziam coisas, pagavam contas. Mas eram pedaços desconexos de uma pessoa que um dia fora inteira. Ou achava que era. 

Os medos tomaram conta. Não eram reais. Não mais que os medos que assomavam à todos, mas nela pareciam ter se unido em impossibilidades.

Cadê a goma arábica para unir tudo de novo? Cadê o ponto inicial de onde retomar a caminhada. 

Sem o fio da meada não conseguia cardar a lã. Para verem como o processo tinha que inciar lá embaixo.

Pesquisar. Buscar respostas para questões que nada tinham a ver com ela saciava alguma fome interna. Fosse lá qual fosse.

E essa fome danada teimava em se tornar mais forte, queimava estômago, derrotava neurônios 

"A gente é tão emocionante quanto nossos segredos, tão abominável quanto os nossos segredos, tão vazia quanto os nossos segredos, tão desesperada quanto os nossos segredos; nós somos tão humanos quanto..." já dizia o velho safado  do Sabbath. 

Talvez sim. 

Talvez a proximidade da morte e tudo o que ela traz de degradação torne a vida mais preeminente. Ia dizer premente, mas o maldito corretor a corrigiu. Talvez no fundo a vida fosse uma corda de significados que são expressos das mais variadas formas. Vai que o corretor digital seja manejado por querubins mecatrônicos, que Deus seja um ser safado que queira apenas que joguemos em seu maldito video game celeste. E no final nos delete como faz com todos. 

E a nossa busca pelos segredos alheios seja apenas uma forma de tentar expor nossa própria vontade que que alguém descubra os nossos. E nos decifre.     

  

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