O Brasil não é um país sério, então comam brioches

Sempre gostei de história. Uma das minhas diversões era pesquisar a realidade depois de ver um filme ou ler um livro. Cedo aprendi que tanto a literatura como as artes visuais se valem de recursos dramáticos para contar a História. Os heróis nem sempre eram belos e valentes. Os fatos nem sempre seguiam a ordem cronológica exata. Mais ou menos como esses filmes que passam na cidade da gente e onde as paisagens mais icônicas aparecem como sendo próximas, quando na realidade nem sempre o são. Liberdades do artista.

Sou do tempo em que havia diferença entre estória e história. 
Empregava-se a forma estória quando a intenção era se referir às narrativas populares ou tradicionais não verdadeiras, ou seja, ficcionais. Já a palavra história era utilizada em outro contexto, quando a intenção era se referir à História como ciência, ou seja, a história factual, baseada em acontecimentos reais. (Fonte)
Parece que nem se usa mais esta diferenciação semântica, virou anacronismo. Na verdade li que isso já caiu na década de 40 (!), bem antes do meu nascimento. Então hoje tudo virou história com aga mesmo, não importa que tenha acontecido ou seja ficcção.

Também aprendi que existem versões da verdade. Tem fatos onde a versão do  vencedor prevalece. Aliás quase sempre. Um olhar um pouco mais isento acaba por revelar isso com um pouco de pesquisa séria. Talvez por isso os historiadores sejam uns camaradas chatos. Eles sempre tem um porém nas versões açucaradas. Melhor ficar com o filme onde o mocinho é o cara que está do nosso lado. 

Os mecanismos que contam e recontam os fatos são mais ou menos como as fake news de hoje. Tanto se repete algo que acaba valendo a versão. Nem De Gaulle disse que o Brasil não é um país sério, nem Maria Antonieta sugeriu ao povo que não tinha pão, que comesse brioches. Mas vão ser conhecidos pelas frases que não disseram. A não ser para meia dúzia de chatos que ainda se apegam à veracidade como mote de credibilidade.


Seria cômico se não fosse sério. E absurdamente trágico. Construímos certezas a partir de informações. Se são fidedignas ou não, já não importam. Nossas convicções podem nos tornar sectários. Já teve muita morte por algo que o defunto nunca fez. Mas que a mão que comandou a ordem ou a arma achava que tinha feito. E depois de Inês morta, babaus. Para a Inês, é obvio.

Guerras e genocídios foram cometidas por gente de convicção arraigada. Seja por fé e/ou ideologia. Da boca para fora. O que move as lutas são quase sempre a disputa pelo poder. Por mais palavras belas que se coloque no discurso que leva pessoas que nada tem contra outras a mata-las. Que o digam os soldados traumatizados que voltam dos campos de batalha.

O real mecanismo que gera disputas está bem além de uma simples revelação ficcional. Esta é a engrenagem que aparece. Quem maneja os cordéis está bem mais acima. E uma das regras básicas é dividir para reinar.

Nesse mundo repleto de informação e pouco embasamento e compreensão, resta-nos comer brioches, fazer piadas sem graça e não revelar surpresa se a turba enlouquecida começar a rolar cabeças. Uma delas pode ser a nossa.


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