A salvação

Se tinha uma coisa que a deixava mal era a completa e absoluta falta de perspectivas.

Ela, nascida solar, otimista desde sempre, quando encontrava todas as portas fechadas se via em papos de aranha. Porta e janelas. E sem nenhum subterfúgio. Nem uma abertura de alma, nem nos sonhos. Talvez na lua.

Papos de aranha...o que será que queriam dizer com isso? 

Ah! Nem tudo falhara. Sobrara algo: a curiosidade. 
Fazia parte da curiosidade encontrar uma forma de se dissolver nas espumas da vida. Morrer era palavra muito forte. Se matar então, era palavrão. Dissolver era poético. 

Era como bailarina que se despede do palco, vai fazendo piruetas, em ponta. Pé por pé saindo de cena, magistral. E dramática.

Drama. Embora gostasse de brincar com a palavra, suas formas de se dissolver não percorriam caminhos majestáticos. Era pragmática em sua imaginação de dar adeus ao plano da matéria. 

Voar pelas janelas parecia fácil e até bonito. Mas tinha medo de altura. Tinha mais medo de altura que de morrer. Imaginar-se subindo na janela e tomando coragem de se jogar no chão lhe dava engulhos. E ficaria um cadáver feio, desses de caixão fechado. Não, não era uma boa ideia.

Um acidente também não era o melhor meio. Podia machucar outras pessoas que nada tinham com isso. Podia se machucar ela mesma. E podia até não morrer e ficar toda arrombada, dependendo dos outros até para as necessidades mais vitais. Mais que altura, tinha medo dos hospitais, das máquinas de prolongar a vida, dos cuidados alheios. E de mobilizar nos outros um desejo que terminasse logo essa luta. Que morresse logo, desejariam. 

Outras formas eram ou muito violentas, ou muito difíceis de praticar. 

Não era nada fácil sair desse teatro vagabundo que chamam de vida. Sem contar os conselhos de auto ajuda e de fé em qualquer coisa mágica que desse coragem.

Quem tem fé e coragem não precisa de conselhos. Quem perdeu a força de dentro só precisa de carinho. E de apoio. E de férias. E de sumir. Precisa dissolver.

Talvez uma peregrinação funcionasse. Não seria tão radical, vai que mudasse de ideia e não quisesse mais morrer. Morrer era muito radical. Até prova em contrário, não tem volta. Embora acabasse de ler que até sexo alguns espíritos mais safados andam fazendo com os vivos quando estes dormem. Não seria dessas. Seria um espírito delicado. De preferência ia se dissolver na luz para sumir de vez. 

Mas....

Para se dissolver na luz não poderia se matar. Porque até nisso tem regras. Tem que se manter uma compostura na morte. Ela vem na hora que deve vir, não na hora que se imagina que deva.

Então mudança de ideias. Poderia enlouquecer. 

Gente louca faz o que bem entende. Não dá satisfação a ninguém. Some se tem vontade. Isso quando é só meio louca porque se é doida de vez, te internam e aí mesmo que não dá para fugir. Vai de camisa de força. Na marra.

Talvez amar fosse uma solução. Amar até se dissolver conjuntamente noutra alma. Mas amar não apenas teoricamente. Amar gemido, amar suor, amar fome. Amar desespero. Amar salvação.

Uma réstia de sol. Uma fuga de luz. Um fio de esperança. Um chavão sobre chavão. 

No fim das contas sempre terminava piegas.




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