Do tempo em que chovia




Seria um dia lindo se não fosse por um detalhe. Chovia. 

Mas chovia como ela nunca tinha visto na vida. Nem mais sabia se aquela cachoeira toda era fora ou dentro dela. 

Um lado seu, talvez o que ainda lhe ligava à vida normal, dizia que o sol brilhava. Se havia nuvens ou não, era de pouca importância. Crescerá com aquela certeza otimista de que o sol sempre há de brilhar. Em algum lugar.

O outro lado. O outro. Aquele não. Aquele dizia que a tempestade apenas começava. Ela por acaso não tinha visto os sinais? 

Primeiro a rotina. A bendita rotina. A maldita rotina.

Os horários que tinham que ser cumpridos rigorosamente. Mesmo quandonao faziam sentido. Almoço ao meio dia. Em ponto. Todo dia a mesma coisa. Toda surpresa escondida em algum lugar perdido na memória. 

Depois a repetição. A mesma pergunta. No mesmo horário. E de novo. E de novo. E de novo. E mais uma vez. Todo dia. 

Só quem nunca viveu isso pode teorizar a respeito. A repetição é massacrante. Ela bem que tentou usar o amor como antídoto. Mas nem esse é tão resiliente assim. 

Com ela uma certeza. Ia piorar. Ia piorar muito.

O dia que acabasse então, aí sim que ia piorar. Ela sabia que ia sentir saudade. Até de ter que responder sempre a mesma resposta. 

O mais difícil era colocar cara de segunda feira em uma terra do nunca. Era a vontade de também voltar para casa. A casa que nem ela sabia onde ficava. Mas desconfiava.

No meio da chuva que caía dentro dela, a casa se fazia presente como um passeio no tempo. Havia de ter um sentido. Algum qualquer. Havia de ter um tempo continuo onde tudo estivesse a acontecer ao mesmo tempo. 

Sua criança que crescia. Suas angústias de jovem, hoje tão banais. Seus ardores, suas esperanças. Tudo devia ainda estar em algum lugar remoto, à espera que ela atravessasse o limbo e se reencontrasse com a luz. Em algum lugar.

Até lá, restava a chuva que lavava. A chuva que matava. A chuva que desmanchava.

Quando olhou em volta, sentiu que se ia escorrendo. Sua forma aos poucos se desformava, ela toda se escoando, indo embora. Quiça se unindo a algo que ainda não descobrira. 

Se contasse ninguém acreditaria. Ou ouviria. Ouvidos moucos que a vida urgia para todos. Cada um com sua sina. Cada um com sua sumida. Cada um com sua ferida. 

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