O luto nosso de cada dia

imagem gerada com inteligência artificial

A vela ia lentamente se apagando. A pequena, encolhida no seu esconderijo de sempre, olhava a tênue luz que piscava cada vez com menos força. Ela sabia o que se aproximava.

Dentro dela se escondia uma força destemida e pesarosa. Era um misto de fragilidade e coragem insana que a marcava desde o começo dos tempos. Já sentia quando navegava nas águas profundas do ventre de sua mãe. Quando os primeiros gritos de sua garganta irromperam no mundo que a acolhia com desespero.

Seus primeiros passos foram seguros por mãos que a amparavam e delineavam caminhos amorosos. Não podia se queixar. Neste aspecto a vida lhe fora generosa. Era dela essa melancolia interna que vibrava em uma sintonia com o cosmos. Era nela que os átomos e partículas sussurravam vozes que só ela ouvia. Poderosas. Solenemente ditas em frequências inaudíveis.

As perdas iam se acumulando. As passadas e as pressentidas. Seu corpo miúdo já não aguentava a pressão da resistência. Se escondia em seu mundo tão particular que só ela conhecia. Só ela tinha a chave.

A primeira vez que o conheceu? Nem lembrava. Tem memórias que a gente esquece ou faz questão de guardar dentro de baús, trancados e esquecidos para não machucar. E de machucados de alma, ela entendia. Desta e de outras vidas. Viera com uma missão de superar. E ajudar.

Até lá, tinha que sobreviver da melhor maneira. Em outros tempos, aprendera a fugir de perigos reais. Guerras, bandidos, chacinas e catástrofes. Agora os perigos também eram reais, mas mais sutis. Não tão escancarados. E talvez por isso mesmo mais perigosos. E danosos.

Um dia sua chama ia se aclarar. Até lá aguardaria com o coração apertado e o sangue correndo em suas veias, lembrando que seiva traz vida. E vida não se acumula.

A vela ia se extinguindo. Ela rezava. Imaginava. Criava. Antevia um parque de sol e flores. Qualquer coisa que a levasse para longe dali. Longe das mãos que a tocavam sem consentimento. Das babas ferozes e melequentas que a devoravam sem prazer. Dos dedos fugidios que a exploravam sem que ela pudesse gritar. Aprendera a calar. Sumia naqueles momentos sem glória como borboleta que voa no infinito. Ali não era ela, era qualquer coisa sem forma nem nome. Ela mesma estava no céu, voando como uma águia que foge. E quando volta, mata seu predador.

A vela apagou. A porta se abriu. Ela sumiu.

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