A carta de Maria

 

Maria era uma mulher independente e bem-sucedida. Formada em ciências sociais, dedicara sua vida à pesquisa e ao ensino, publicando livros e artigos sobre temas variados, desde política até cultura. Casara-se duas vezes. Destas uniões resultaram três filhos, que lhe deram cinco netos. Aos 55 anos, sentia-se realizada e feliz com sua trajetória.

De repente a sua realidade mudou. Foi quando Pedro, um jovem jornalista de 40 anos que trabalhava como correspondente internacional na África, apareceu na sua vida. Eles se encontraram em uma conferência em Lisboa, onde Maria fora convidada a palestrar. Foi amor à primeira vista. Pedro era charmoso, inteligente e aventureiro. Maria se sentiu atraída por sua energia e seu espírito livre. Nunca sentira nada igual. Seus primeiros maridos tinham sido encantadores, bons companheiros, bons amigos. Mas além de um certo período de paixão, aquele arrepio na espinha tinha dado lugar a um bom companheirismo.

Mesmo sendo um romance à distância, com troca de mensagens, telefonemas e vídeos, a relação com Pedro era viva e estimulante. Sentia como se o conhecesse desde sempre. Ele lhe contava suas histórias pelo mundo, suas experiências e seus sonhos. Maria se encantava cada vez mais por ele e por sua visão de vida. Ele a fazia se sentir jovem e apaixonada novamente. Mas mais que isso, ela a fazia se sentir compreendida nas suas ânsias de busca e liberdade.

Um dia, uma ligação e uma proposta surpreendente: ele tinha recebido uma oferta para cobrir uma expedição no Nepal e queria que ela fosse com ele. Disse que era uma oportunidade única de viverem juntos uma aventura incrível, de conhecerem uma cultura diferente e de se conectarem com a natureza. Disse que estava cansado de viver longe dela e que queria construir um futuro ao seu lado.

Maria ficou sem palavras. Ela amava Pedro e queria estar com ele, mas também tinha sua vida no Brasil. Tinha seus filhos, seus netos, seus amigos, seu trabalho. Tinha suas raízes, suas responsabilidades, seus compromissos. Na verdade, tinha medo de largar tudo por um amor incerto e arriscado.

Pediu um tempo para pensar e decidiu escrever uma carta para Pedro. Nessa carta, ela expressou seus sentimentos por ele, mas também suas dúvidas e seus medos. Disse que o amava muito, mas que não sabia se estava pronta para mudar radicalmente sua vida. Disse que precisava pesar os prós e os contras de sua decisão. Disse que queria ser feliz com ele, mas também com ela mesma.

A carta terminava com uma pergunta: "Pedro, você me espera?"

Pensou muito em mandar ou não. Seu dedo tremia em frente ao teclado. Bem melhor seria falar, com ele tinha muito mais liberdade que com seus antigos companheiros. Mas também havia a velha e temida insegurança que havia minado seus antigos relacionamentos. Por mais confiança que tivesse no amor de Pedro, também sabia que ele não era alguém de se prender indefinidamente a algo ou a alguém. Largaria sua segurança por tempos de louca paixão e vida? Sua gangorra interna penderia para qual lado? Se perdoaria por qualquer decisão que tomasse?Quem dentro dela iria tomar a frente? A senhora respeitada, vivida ou a jovem apaixonada como nunca fora e que ainda morava dentro dela.

Foi com a calma das decisões que seguiu seu rumo. E teclou o envio.  

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