o homem dorme abraçado ao seu cachorro


O parque onde costumo caminhar estava hoje mais vazio do que o costume. Um sol bonito acalmava a cidade depois de um dia muito chuvoso. De certa forma os quase 13 graus da manhã de sábado são um alívio para corpos e mentes cansadas.

Pessoas caminham, a turma dos cachorreiros conversa com seus cães que brincam distraídos. No fim do espelho de água, uma mulher bem agasalhada fotografa. Na sua frente, parecendo um quadro, um homem dorme abraçado ao seu cachorro. Ao seu lado um carrinho, mistura de plásticos, lixos, embalagens vazias de eletrodomésticos e bens de consumo que ele, com certeza, nunca terá. Mas ele tem seu cachorro. E dorme abraçado com ele. A mulher cheia de agasalhos para um dia de verão mais fresco, tira várias fotos com seu smartphone de última geração do homem que dorme no meio do gramado. Não deve ter uma casa. Se tiver, talvez seja longe e não teve tempo, talvez nem energia para caminhar com seu carinho cheio do descarte de outros. Outros como eu e a mulher que tira fotos. Nós que caminhamos por lazer, por esporte e não apenas por sobrevivência. Outros que tem tetos sobre suas cabeças, que tem cobertores, gatos e cães tratados até com especialistas. O homem que dorme no chão parece uma pintura trágica no meio da manhã ensolarada de verão. Não é o único sem teto. Tem muitos mais dormindo na grama de um parque quase vazio na manhã de sábado mais fria. Quando passo mais perto, reparo que dentro do carinho cheio de entulhos, há espaço guarnecido onde mais um cão dorme protegido do sereno. Os seus cães são protegidos como ele talvez nunca tenha sido. Ele, o homem que dorme na grama de um parque público que talvez tenha seus espaços concedidos e onde, talvez não haja mais espaços para ele. Ou para seus cães.

Sigo meu caminho. A mulher de agasalho segue o dela. Somos anônimas participantes dos momentos da cidade onde há espaço até pequenas ternuras nas tragédias que são muitas vidas. Assim segue a roda do mundo. O tempo e suas camadas. Os ciclos e suas sabedorias. As injustiças e suas verdades. E nós com eles, engrenagens que somos.

“Estou só, escuto música, escrevo e faço cócegas no cérebro”. Palavras de minha mãe em um livro que tiro da estante. São recortes de papel que devo ter jogado ali dentro, hábito que tenho deste sempre. A mágica dos livros impressos que, além de suas palavras e conteúdo, guardam memórias de um momento qualquer. E que fazem sentido em outro momento qualquer. E assim a vida vai-se construindo. De recortes de imagens. De olhares furtivos. De conjeturas. De incertezas. E da nossa tentativa de juntar as peças e fazer sentido ao caos.

De concreto, a ternura. Um homem sem quase nada, mas rico de afeto, que dorme abraçado ao seu cão, no meio de uma cidade que se revela ainda humana, desde que saibamos vê-la além do concreto que a constrói.


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