Uma certa empáfia de classe média

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A cena era inusitada. Em frente ao campus central da UFRGS, o motorista de um carro estacionado em cima da faixa de segurança, enfrentava um policial de dedo em riste porque este queria lhe aplicar uma multa. Uma certa parcela da classe média brasileira, e aqui incluo desde os pequenos e médios empresários, profissionais liberais, empregados de empresas provada e estatais e mesmo os que de certa forma ascende socialmente à posse de bens de consumo, tem uma certa empáfia perante à vida e às leis.

E aqui tenho lugar de fala, burguesa que sou. Mas não posso deixar de notar que existe um foda-se armado quanto às consideradas pequenas transgressões. Ao mesmo tempo que esta parcela defende moralidade, ética e se ufanam de serem cidadãos de bem que respeitam as leis, se estas os atrapalham eles tem a convicção de que podem se safar. O sinal de trânsito é colocado de modo a acrescentar uns minutos a mais para o roteiro? Foda-se. O esperto se julga no direito de não apenas desobedecer, mas de xingar algum infeliz pedestre que usa o seu direito de atravessar uma rua e atrapalha a vida do transgressor. Sim, já aconteceu comigo. Eu era a pedestre. O imposto é considerado demasiado? Foda-se. Afinal a criatura escolhida pelos deuses do discernimento tem certeza de que pode aplicar bem melhor o dinheiro que o governo de então. E sempre tem algum fiscal que aceita um por fora, não é mesmo? Alguma outra questão de lei? Basta peitar a autoridade com um “sabe com quem está falando?”, na certeza de intimidar o outro que teme, com razão pelo seu emprego. Esta parcela sempre acredita que vai se safar porque tem um amigo, um parente, alguém que vai dar um jeitinho de contornar uma situação desagradável. Que vai virar motivo não apenas de piada, mas de vaidade nas rodas de amigos, onde todos (imagina ele) vão lhe admirar pela esperteza. Esta parcela de classe média se julga merecedora de todos os louvores porque trabalha duro. E não digo que não o faça. A maioria estudou em colégios bancados pelos pais ou avós. Viajou para dentro e fora do país desde cedo, conseguiu entrar em boas universidades porque muitos nem precisavam trabalhar, montou seus negócios com verba “paitrocinada”. E é obvio que tem méritos. Não conseguem enxergar como aquela “gentinha” vinda da periferia não agradece o emprego que lhe dão, afinal é eles que “colocam comida no prato do empregado”. E tem alguns que ainda reivindicam melhores condições e aumento de salário. Ainda bem que sempre tem alguém que aceita trabalhar por menos. Os escrupulos são apaziguados pelas ações sociais, pelas cestas basicas, pelas roupas usadas que dão em gestos de caridade. Na maior parte das vezes também apregoados como prova de sua boa índole. Esta parcela de classe média, que não tem nem ideia do que é ser rico de verdade, se agarra aos seus privilégios como uma tábua de salvação que os faz sentir que podem se salvar dos titanics, boiando nas águas geladas, enquanto veem os botes dos que verdadeiramente comandam se afastando com a segurança dos que nunca correm riscos.

Vejam bem, não estou generalizando porque toda generalização é burra ao meu ver. Obviamente que nem todos são assim, e não se sinta atingido pela reflexão. Estou falando de certa parcela da população que precisa se sentir como aquele filho que recebe um agrado do pai: uma mesada quando cumpre algo, mas morre de medo de perder o aparente prestígio que acham que estes lhe tem. Imaginam que a policia existe para defende-los. E não estão assim tão errados. Podem andar com pedaços de pau sem serem mortos porque confundido com fuzil. Não são exterminados com gás em viaturas por andar sem capacete. Não morrem de bala perdida e podem até ameaçar e bater em policiais sem serem massacrados. As leis os protegem. Mesmo as não escritas.

Talvez por isso uma grande perplexidade quando eles são taxados de criminosos por atos que ferem as leis. A empáfia ferida é um estopim que deve ser tratado como merece: um caso patológico. 

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