Encontro inesperado - I


Desde que me entendo por gente, o barco a vela tem sido o meu lar. Naveguei para todos os cantos do mundo em busca de aventuras e conhecimento, mas agora estou cansada. Cansada de andar sem rumo, de não ter um lar para chamar de meu. Quando o barco ancorou naquela baía sob a luz do luar, eu soube que era hora de desembarcar. É hora de começar uma nova vida, deixar para trás o velho eu e buscar uma nova identidade. Posso ver o meu futuro se estendendo diante de mim como um caminho iluminado pela lua, e sinto que finalmente estou pronta para seguir em frente. 

Desci a âncora com cuidados. Meus pés, desacostumados à firmeza de terra firme, erraram o rumo da margem. O ondular das águas ainda fazia parte de minha rotina. Deixar a liquidez para ousar no concreto desconhecido parecia mais aventuroso que encarar uma noite de tempestade na solidão do oceano. Deixei as preocupações para trás e fui.

O lugar era pequeno. Um povoado de pescadores que falavam uma língua parecida com a minha. Havia no ar um mistério de noite quente onde os pirilampos coaxavam e os sapos voejavam. Ou seria o contrário? Talvez em mim as certezas tenham desvanecido com tanto tempo de navegação. Segui. 

Entrei no primeiro prédio de portas abertas e cheio de luz que vi. Era uma casa branca, caiada, com portas de madeira pintadas de azul. Um salão amplo, com mesas e luzes no teto. Quadros de barcos e sereias nas paredes. As vozes altas das conversas descontraídas não emudeceram. Pelo menos pareceu que não. Algum que outro olhar mais curioso acompanhou a figura alta, magra e musculosa que caminhava em passos quase firmes para o balcão. Essa figura era eu.

Pedi uma bebida quente. Precisava de forças. Tinha passado praticamente toda a minha vida no mar. Minha mãe Anna, aos trinta e cinco anos, depois de um divórcio doloroso, tinha decidido abandonar sua vida de privilégios na cidade e começar de novo em um barco a vela. Não sabia que estava grávida. Nasci praticamente no mar e desde então vivemos as duas de costa em costa. Era perigoso diziam alguns, mas nunca nos sentimos ameaçadas. Um dia minha mãe dormiu e não acordou. Eu tinha vinte anos e continuei sua vida. Nunca tinha me perguntado se aquilo era realmente o que eu queria fazer. Até fazer trinta e cinco anos. Na idade que minha mãe largou a terra para viver no mar, eu ia fazer o trajeto oposto.

Viver sem a companhia da gente, mais com as gaivotas e peixes tem seus mistérios e belezas. Mas sentia falta de contato mais humano, além das conversas de rádio e redes sociais. Já tinha namorado sim. Mas coisas breves. Paradas rápidas para reabastecer. Um encontro ou navegada a dois. Nada muito além disso. Bastava um sentir mais profundo e todos os meus sinais de alerta se eriçavam. Lá ia a âncora para dentro do barco e as velas se aligeiravam para novos rumos. Havia um mundo a alcançar e âncorar em corações e vidas alheias não faziam parte de meus planos imediatos. 

Bebi a bebida amarga de um gole só. Ouvi de minha boca o som de palavras em outra língua que não a minha pedindo por uma pousada. Estranhei minha voz, tão pouco habituada estava em falar alto. O homem do balcão, de grossos bigodes e farta barriga, não apenas me indicou como chamou um rapaz que jogava sinuca na mesa cheia de homens para me levar até lá. Se estranhou a falta de bagagens, nada falou. Logo compreendi que ali era lugar de poucas palavras. O silêncio parecia rondar aquele local meio esquecido do mundo. Só se falava o que não era importante. Do mais só os olhares captavam o essencial. 

Longos passos até o sobrado colorido que se destacava entre as casinhas brancas no meio da única rua do lugar. A lua teimava em mostrar o caminho como que para dizer que não havia problemas que não pudessem ser solucionados e que as escolhas quando feitas do coração assinalam rotas iluminadas. Nossos passos faziam barulhos ritmados nas folhas que coalhavam no chão batido. 

O rapaz que me guiava bateu seis vezes na maçaneta da porta vermelha. Ouvimos passos descendo as escadas apressadamente e quando a porta enfim se abriu entendi porque meus caminhos me levaram àquele lugar. Os mais lindos olhos negros que jamais vira me encararam surpresos e sua voz rouca e profunda quase que gritou aos meus ouvidos: 

-Mas como você me encontrou aqui, Stella ???

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

amantes eternos (divagações com a IA)

Dos meus pertences

Das podas necessárias