Quando morre o poeta a sua poesia permanece

 

Elenara Elegante

Guardo como tesouro esse livreto que ganhei de uma amiga décadas passadas. Thiago de Mello veio em um encontro literário na sua cidade. Ela, sabendo que eu tinha especial admiração pelo poeta amazonense, trouxe então para mim, com a sua assinatura. Disse-me ainda que teve oportunidade de perguntar para ele porque ainda fumava. E ele, na sua sabedoria da vida lutada, confessava-lhe que quem esteve diante da morte e da iniquidade da ditadura, se permitia certos vícios. Poeta poetava até sobre as dores que nos acometem quando a beleza da sensibilidade se choca com a crueza de quem não vê a vida de forma tão generosa de ser.  

As Ensinanças da Dúvida

Tive um chão (mas já faz tempo)
todo feito de certezas
tão duras como lajedos.

Agora (o tempo é que fez)
tenho um caminho de barro
umedecido de dúvidas.

Mas nele (devagar vou)
me cresce funda a certeza
de que vale a pena o amor.

Thiago de Mello

Meu primeiro contato com ele foi através de uma amiga que me apresentou "Faz escuro, mas eu canto". Eu, recém chegada do planalto central, estudante de arquitetura, apaixonada pela vez primeira por um também jovem estudante cheio de ideais, li com avidez cada palavra. Me apaixonei pela poesia.

Meu livro, todo sublinhado, foi dado de presente para uma pessoa amada, prima e irmã do coração. Me dei outro no Natal de 1979. Sei pela dedicatória que eu mesma me fiz: Prá mim mesma com muito amor". Este ainda me acompanha. 

"Vida, casa encantada
onde eu moro e mora em mim,
te quero assim verdadeira"

Sua casa, projeto de Lúcio Costa, mostrei em meu outro blog, o Arquitetando Ideias. Lembro particularmente que escrevei que "em local só acessível por barco, com projeto feito em quatro folhas de papel oficio e detalhes como levantar a cama para que, deitado, Thiago pudesse ver o Rio Amazonas por uma janela que tinha o tamanho exato de sua cama".

Uma janela de onde, deitado, pudesse ver o Rio. Seu rio, sua Amazonia que ele amava com a angústia de quem vê seu mundo e sua população sendo destruídos e desamados. Decifrava com sensibilidade poética os desmandos para os transformar em esperança de nova manhã que um dia iria raiar em um canto de amor público. Enquanto escrevo, ouço sua voz, declamando seus escritos. 

Leitura degustada em anos. Livros vários que marcavam seu tempo, nosso tempo. Poesia tem desses mistérios de precisar de uma cumplicidade cristalina e desmascarada entre quem escreve e quem lê. Não é preciso que se teçam muitas páginas. Poesia é sucinta. É marcante. É altamente perigosa. Farejante de armadilhas que laçam quem lê com a alma.

Ninguém me Habita

Ninguém me habita. A não ser
o milagre da matéria
que me faz capaz de amor,
e o mistério da memória
que urde o tempo em meus neurônios,
para que eu, vivendo agora,
possa me rever no outrora.
Ninguém me habita. Sozinho
resvalo pelos declives
onde me esperam, me chamam
(meu ser me diz se as atendo)
feiúras que me fascinam,
belezas que me endoidecem.

Thiago de Mello

Sozinha resvalo pela saudade da moça que te leu, poeta, pelas primeiras vezes. Saudade dos tempos de grandes esperanças. Saudades de te saber vivendo na mesma vida, no mesmo mundo, figura de vestes brancas, cabelos brancos, com cara de sacerdote de vida e luz. 

Poeta, tu morre. 
Tua poesia permanece.

Botão de Rosa

Nos recôncavos da vida jaz a morte
Germinando no silêncio.
Floresce como um girassol no escuro.
De repente vai se abrir.
No meio da vida, a morte jaz profundamente viva.

Thiago de Mello

 



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