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Sobreviventes no deserto

Talvez minha rede neural esteja se aproximando do caos para emergir com novas possibilidades

"Apenas tribos unidas por um sentimento de grupo conseguem sobreviver no deserto." Ibn Khaldun 

Cinzentamente o domingo se espalha preguiçoso, antevendo tempos ainda mais gélidos que os que passamos. Sim, vivemos em um deserto.

Embora urbanos e repletos de prédios, cheios de pessoas, inundados de universos, curiosamente estamos cada vez mais sós. Nossas fortalezas, pequenas ou grandes, abrigam nossos pares, mas não o etos público. Li esses dias uma reflexão sobre empatia e no como é necessário pensar além fronteiras individuals e familiares. Estranhei isso não ser pensamento comum, ensinamento que aprendi desde pequena. Meu lugar no mundo e, consequentemente, minha responsabilidade sobre o outro.

Ainda mais curioso que ande na contra maré da conscientização corrente. Preciso ser mais egoísta, mais individualista, mais pensante em mim e menos no outro. Os outros para quem priorizo meu foco de sentimento de existência no mundo. 

Vários testes já me deram semelhança com Madre Tereza de Calcutá. Embora, reconheça, me falte o senso de ação que ela tinha e que fazia acontecer nas suas obras. Fossem beneméritas ou não, que também já li variadas narrativas conflitantes.

De narrativas é feito esse nosso deserto atual. As tribos se agrupam em suas verdades cristalinas, absurdamente sectárias e se unem contra narrativas alheias. Mesmo que sejam embasadas por fatos ainda mais cristalinos. Fatos não contam. A versão sobre eles, sim. 

A história é mesmo narrada pelos vencedores. Atos que, fossem feitos de outro lado seriam crimes odiosos contra a humanidade, do lado de quem detém o poder, merecem nomes de ruas e estátuas. Nos unimos em nome de quê, mesmo?

Deus. O Deus de cada um. O Deus de muitos parece mais poderoso que o Deus ou Deusa de poucos. Até que poucos se tornem muitos.

E a verdade? Balança como ondas a procura do mar.

Não, não pretendo ter a versão mais realista. Tudo em mim navega para observar, tentar entender, conseguir discernir conexões, aprender sobre a rota das caravanas no deserto. Talvez para descobrir um ponto de oásis, uma parada de revigoramento que una buscantes. Que os façam perceber além das verdades cotidianas. 

Talvez isso explique meu silêncio. Minha pouca liberdade com as palavras. Talvez minha rede neural esteja se aproximando do caos para emergir com novas possibilidades.

Até lá, atravesso meu deserto. Olhando as estrelas e ouvindo a música do universo.  

 

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