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Janelas de minha alma


Todo dia vejo o mundo através de minha janela.

São os barulhos da manhã de segunda feira em pleno verão, onde um barquinho cruza as águas de um rio que talvez seja lago ou lagoa, não sei bem. Diferença do dia de ontem, onde o silêncio do domingo se fazia opressor. Gosto das segundas por isso. Tem coisa de vida que reinicia, tem cheiro de esperança.

Esperança talvez tenha isso, ser a força que leva adiante, ser o que sinaliza que a vida continua. Apesar da dor. Apesar da ausência. Apesar do medo.

Confesso. Já via a vida através das minhas janelas. Nunca fui das ruas, meu mundo interno é vasto. O contato social, nem tanto. Talvez por isso, o isolamento não tenha sido tão forçado. Sei lidar com o ficar em casa. Sei?

Nem tanto. Outra confissão desses dias em que minhas certezas se esgotaram e só vivo deixando a "vida me levar". Hora de retesar os cordéis, empunhar os corcéis nessa rima pobre.

A casa. Como eu, precisando de desapegos. Acúmulos de lembranças que trazem pó e não resolvem o presente. Passado que atravanca o futuro. 

Olho a janela e vejo movimento.

A vida é feita dele. Ação e reação. Neste ano de 2021, meu pai faria 100 anos. Estou organizando um ebook sobre ele. Será para os familiares. Mas essa visita ao seu mundo, suas palavras, fotos e lembranças me trouxeram muito dele que era sonhador e prático. Talvez a mensagem seja resgatar essa herança dentro de mim.

A janela? Continua minha visão de mundo predileta. Sinto cheiros vindo da rua. O que, nesses tempos covidicos, sempre é um alívio. Ontem mesmo falava com um amigo sobre como populações desorientadas acabam por atrair um predador. Irônicamente, como em a Guerra dos Mundos, a tecnologia acaba vencida por um vírus, algo que não podemos ver mas que abala nossas defesas. 

E a casa? Guardiã de nossa segurança, nosso abrigo básico desde o tempo das cavernas e fogueiras que acendiam imagens de bisontes e lutas. 

Enquanto teço imagens em minha própria alma, a vida lá fora se faz sobrevivência. A gata mia, uma urgência doméstica me chama. O trabalho espera com suas prioridades. Olho a janela e começa a fazer o mundo acontecer. Tenho esse privilégio.

A alma? Essa voa pelas frestas, alcança o céu e coloca um sorriso nos meus olhos.

Continuo. 

 

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