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Mudança de hábito

Foi um desafio que me fez mudar um hábito presente desde muito em minha vida. 

Não bebia água. Em seu lugar, refrigerantes. Tinha sede? Abria a porta da geladeira, enchia um copo daquele líquido borbulhante, colocava muito gelo e engolia cheia de prazer. A gente costumava comprar engradados da bebida aqui em casa. Vacas gordas. Quando pequena, eles só tinham lugar na mesa nos fins de semana e nas festas. 

Um dia, há décadas, quando mal se falava em vida saudável e a gente, que comia verdura, era vista como ETs em terras gaudérias cheias de amor pelas carnes gordas dos churrascos, uma amiga me falou de um desafio para seus alunos. Daqueles com carteirinha e tudo. Chamava "deixei de tomar refri". Me perguntou se eu não topava. Ariana de signo que sou, o argumento do desafio me pegou e topei na hora.

Putz, desafio público não é coisa de se fazer debalde. Nem palavra dada para amiga. Comecei a síndrome de abstinência dos refris. Isso também não era moda naquela época. Deixar de bebê-los.

Não vou mentir. Os primeiros tempos não foram fáceis. Meu corpo sentia falta das bolinhas. A comida ficava meio que trancada na barriga, alvoroçada, de meu humor. Meu primeiro subterfúgio foi apelar para a água mineral. 

Santo gás! Ajudou um período. Dali passei para o chimarrão, hábito gaúcho que nao era usual na minha casa. Aprendi a fazer e a tomar só. Enquanto isso estava firme e forte na palavra dada. 

Fui notando diferenças na digestão e na necessidade dos alimentos. Os antigos hábitos de frituras e comidas pesadas não faziam muito mais sentido sem o alívio posterior dos refrigerantes que iam triturando tudo por dentro.

Da água mineral passei para a água. 

Beber água é uma daqueles hábitos saudáveis que se aprende. Deixei um caneca ao lado da mesa de trabalho e ia bebendo de tempos em tempos. A medida que se toma, o corpo vai pedindo mais. Sem paranoias nem medidas de x copos d'água, deixei que beber água se transformasse em algo tão natural quanto respirar.

Aprendi a discernir o gosto das águas. As mais leves, as mais pesadas, as mais salgadas. As mais gostosas. Assim como as tonalidades de branco para os esquimós podem ser inúmeras, o sabor da água para quem a toma pode ser variado. 

A sede faz o resto. Quando a sinto, é de água que preciso hoje. Nada mais me mata a sede como um copo, nao muito gelado, desse líquido transparente.

Nunca mais tomei refrigerentes?

Sim, tomei. Décadas depois. E o fiz porque me deu vontade e senti prazer. Não aquele prazer entorpecido de antes, mas o de me permitir não ser rígida com decisões tomadas anos antes. Sabendo que posso escolher hoje com muito mais sabedoria o que, quando e onde vou fazer, comer e beber o que me faz feliz e me faz bem.

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