O dedo de Da Vinci


o olhar matreiro fala de vida
o dedo aponta os céus
entre mares enluarados
Salaí reina Deus

Da Vinci aprontava quimeras
tantas que não dava conta
ideias mirabolantes
ainda hoje imaginárias

O dedo que aponta rumos
mostrava caminhos incertos
mundos que Leonardo via
ninguém mais percebia

E dá para perceber caminhos onde ninguém mais vê luz? Dá para abarcar o tanto de informação que a mente curiosa concebe? Difícil imaginar nesses dias de suprema especialização, alguém se debruçar sobre tanta coisa. Nós, mesmo os mais bem dotados de hoje, quando muito conseguimos tentar ter um olhar mais abrangente sobre os nossos afazeres. Mas logo nos sentimos compelidos a focar.

Focar foi sempre uma palavra delimitante. 

Focar também significa estreitar. E refinar o raio da visão sobre um problema ou situação, esquecendo muitas vezes que ela pode ter soluções além da lógica. Da nossa lógica de saberes.

Mas e o dedo de Da Vinci.

Esse me fascina.

Vejo em algumas de suas obras um dedo que busca, que aponta, que ressignifica olhares e posturas.

É um dedo revolucionário como deve ter sido o toscano. É um dedo matreiro, cheio de manhas e lábias o dedo de Leonardo. Aquele que o metia em tudo quanto era assunto.

Das verdades e voragens de Da Vinci, me encanta a tenacidade do aprendizado. Eu que sou tão prolixa, adoraria ter a capacidade de me concentrar tão profundamente em uma assunto a ponto de vencer engulhos como os que ele fazia ao dissecar cadáveres. Também me choca um pouco a sua aparente insensibilidade para o que não fosse seu interesse em aprender mais e mais. Pessoas eram objeto de estudo. A vida devia ser um eterno enigma a ser desvendado.

Os gênios...se é que existem, são seres acima da nossa lógica. Mas deles podemos levar umas pinceladas aqui e ali. E jamais esquecer que foram seres humanos como nós.

Em dia em que visitei a cidade dos mortos, lembro que da vida se leva o que se faz dela. Nosso conhecimento e principalmente nossos prazeres. 

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