Medo nosso de cada dia

Acordei um pouco mais tarde que a hora habitual das madrugadas insones. 4:30. Em geral meu horário de abrir os olhos, ainda meio grudados de sono, é por volta das 3:30. A sincronicidade dos números me acompanha.

Em vez de pegar um bom livro, um daqueles inúmeros que me olham convidativos e sarcásticos com a minha desculpa de falta de tempo, corri pelas redes sociais. Aquela dos textões familiares, a dos telegramas que lutam pelas hashtags fomentadas por robôs além mares. E mesmo aquela das imagens que agora é sucesso de vendas nesses tempos em que olhar rápido e sem conteúdo se faz cada vez mais necessário.

Perdi exatamente umas duas horas nesse processo inútil que só fomentou a ansiedade que já existia em mim na hora em que fui dormir.

Fechei os olhos novamente quando o sol já se anunciava no horizonte, em cores lindas, que quase me fez levantar para fotografar, como se a beleza não pudesse existir por si só, sem estar registrada para que todos vissem que ela realmente existe.

Fazia frio. Me debati entre aguentar mais um pouco e levantar para me aquecer com o que houvesse por perto. A resposta física e instintiva de proteção varreu a inércia e me senti como quando era criança e minha mãe vinha, feito fada mágica, cobrir minhas necessidades.

Como todo sono esquisito, esse das horas matutinas foi buscar meus medos escondidos e os revelou em forma de pesadelo. Um daqueles que são irreais mas poderiam acontecer. Um daqueles em que se tem que fazer escolhas que não se devem fazer, ou não deveriam acontecer. Um daqueles em que sobressaí a impotência. Na vida real eu sou mais ativa nas horas amargas. No sonho essa potência de agir se viu tolhida pelos medos, os mais recônditos e os mais idiotas. E gritei! Gritei muito pedindo socorro.

Acordei ainda mais ansiosa. Aquela coisa embolada na barriga que prenuncia algo que se teme, não se sabe o que, ou talvez se saiba sem querer admitir. O medo é bicho ruim. Mexe com as entranhas.

Vou precisar de litros de café e muita respiração zen para voltar a ter paz interna. Até lá, talvez um banho funcione porque a vida continua e eu com ela.

Olho a rua com sua luz, seus movimentos e sons e me sinto como se tudo fosse uma ficção, dessas de comercial de margarina que vai ser abruptamente cortado por um desastre inominável. Talvez minha vida seja um enredo mal feito desses que nunca vão ser espetáculo. E alguém olhe com olhar neutro e delete a qualquer momento.

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