O ontem e o amanhã que beiram a margem da sanidade

O tempo passou.

Era com calma e um pouco de espanto que constatava que as ruínas tinham se instalado enfim na sua vida. 

O que restavam? Lembranças 

Também para ela tinha chegado o tempo em que o antes ficava mais bonito e palatável que o depois. Já não amanhã. Apenas ontem. 

Um ontem interminável. 

Um ontem inenarrável. 

Um ontem de páginas rasgadas. 

Nela as rugas se misturavam com os olhos de menina que teimavam em não deixar de brilhar. Isso não morria. Só quando ela desse aquele que chamam de último suspiro. 

Até lá guardava para ela toda aquela montanha de sensações boas, ruins, mesquinhas, gloriosas, toda uma biografia que não fora escrita. Nem seria. Sua passagem na terra seria efêmera. Alguns diriam com saudades que tinha sido boa. 

Seus sonhos, suas vontades, seus medos e quimeras, seus quiseras, tudo isso morreria com ela. 

Brincou com a ideia de ser descoberta muitos anos depois de virar pó. Alguém acharia uma chave escondida em algum tempo, talvez numa gaveta dessas modernas que se guardam nas nuvens. Do retalho de imagens, palavras e compartilhamentos, um robô pesquisador acharia uma sintonia que demonstraria o quão diferente ela fora. 

A máquina pensante iria dar um EUREKA com a voz humana com que tinham lhe programado e se debruçaria sobre a escrita de mais um best Seller. A vida das criaturas comuns estava na moda. Todos já tinham se cansado de heróis e heroínas. Queriam entender como pensavam os anônimos, os que nada tinham feito de grande valor, os apenas humanos. 

Um bom título, uma capa chamativa e os influenciadores certos fariam dessa pesquisa, um novo e certeiro sucesso. 

Talvez até descobrisse enfim o que ela nunca tinha revelado. As modernas ciências do interior tinham descobertos conexões entre os likes e postagens com os sentimentos e personalidades e com certeza não existiam mais fronteiras para o conhecimento das almas humanas. 

Sorriu. Seu sorriso de Mona Lisa. 

O futuro enfim fez parte dela. Houvesse o que houvesse, podia ficar velhinha e muito parada no ontem, mas enquanto brilhasse a chama da criação e da imaginação dentro dela, aí moraria o amanhã. 

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