A herança é feita de escolhas e sobrevivência

A herança. 

Em princípio herança significa o que de patrimônio vamos deixar para quem nos sucede. Acho que esse desejo de nutrir ou salvaguardar os descendentes acaba por explicar muitos dos sacrifícios que se faz em vida. Não todos. Mas muitos. 

Se nos desobrigassem de guardar as moedinhas para as crias, sabe-se lá se não seríamos mais felizes? Talvez outras escolhas, outras formas de gastar a vida.

Outras portas.... 
Escolher

Há você
Um espaço
Para os passos
E uma porta

Não é por que
É uma porta
Que você tem que
Abri-la
Liberdade pode ser
Antes da porta.


Adriane Garcia

Pensando nisso desde nos últimos tempos. Refletindo sobre a vida e a morte. Vou lhes dizer uma coisa, quando se faz seis décadas de vida e se entra na tal da idade onde já te tratam como idosa, também significa que os anos vividos já são maiores que a expectativa dos a viver.

E por mais que a criança que existia em mim relutasse com essa ideia, a morte acaba por ser palatável quando a gente vê gente da idade da gente morrendo, quando seus pais já se foram ou estão perto de ir. Quando seu mundo se transforma. Não, viver para sempre não é de todo agradável.

Seria se a gente pudesse manter sempre a idade jovem e as pessoas queridas também. Se o corpo respondesse com agilidade para os sonhos que a mente ainda tem. Se o mundo fosse uma trilha a conquistar e não apenas uma saudade a recordar.

Entre o mas já viveu bastante que nos enche os ouvidos em velórios de gente mais velha, lembramos o era tão jovem e tinha tanto para viver ainda para quem amamos (e independe da idade).

E lembramos da herança.

Não a de bens. Mas a de exemplos.

Tenho dois em minha família. Meus pais ficaram órfãos muito cedo. Meu avô paterno morreu aos 36 anos, deixando viúva de 26 com quatro filhos. Meu pai tinha 3 anos. Mal se lembrava do pai. Minha mãe aos nove já não tinha pai e mãe.

No entanto, embora tenham passado dificuldades financeiras, a herança da convivência (no caso de minha mãe) e da vida heroica (no caso de meu pai) nos trouxeram aqueles avôs que só conhecemos por palavras. E tantas e tão bonitas, que eles viveram em nós. E vivem ainda.

O médico que foi clinicar onde dele precisavam. E recebia em galinhas, saco de frutas e o que mais os clientes tivessem para lhe retribuir as curas e remédios que fazia. O jovem jornalista que foi atrás de seus ideais políticos, primeiro no jornal que escrevia, depois nas revoluções onde andava e que lhe tiraram a vida.

 A jovem avó que teve que deixar o jovem namorado para casar com o doutor bem mais velho. E carregou nos olhos a melancolia enquanto criava os seus inúmeros filhos. E mais os dele que era viúvo. A vó que conheci já mais velha e que me dava colo com seu jeito querido. E que de mãos calejadas criou seus filhos costurando as roupas que outras pessoas usavam.

Eles, os avôs, puderam fazer as suas escolhas. Elas, as avós, sobreviveram como deu.

Somos suas sementes. Eles renascem em nós que hoje podemos escolher talvez um pouco mais que elas, mas que temos que continuar sobrevivendo como pudermos.

E talvez essa nossa trajetória seja parte da imensa colcha de retalhos que faz a herança de cada família. E de cada pessoa que respira nessa terra, até o dia em que nossa peça se termine e a gente saia. Tomara que sob aplausos, já que bis não vamos ter....    

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Procurando palavras

De um olhar fez-se o encontro

Ausência de um tempo feliz