sábado, 18 de novembro de 2017

Amor se ama cantando

Era tempo de construção. 
Difícil entender que o parir qualquer coisa demanda tempo. E aquele lento rolar de minutos, horas e dias que antecedem a concretização era algo que a sua alma não entendia. E se entendia, não aceitava.
Mas não havia nem de onde nem por que, tinha que sentar e esperar.
Até lá cantarolava.
A melodia que viesse à cabeça. Às vezes acordava com uma e ela ia e vinha, meio que perene, na sua mente. Só no chuveiro se arriscava a deixar sair algum som. Desafinado. 

Era tempo de construção.
Desses de colocar adubo em cada gesto. Colocar ternura em cada palavra e trazer o olhar mais sincero para expor ao Outro sua delicadeza de alma e sentimentos. 

Em tudo se revelava. E nesse desvelo colocava seu melhor Eu para fora. Sua atenção mais especial, suas qualidades mais bonitas. Era em tudo uma maravilha de pessoa que se deixava descortinar.

E ele também devia fazer o mesmo porque homem mais fantástico nunca tinha conhecido. Adivinhava seus desejos, mesmo os sexuais. Era atencioso nos gestos, nunca o prato sem servir, nunca o vinho por faltar na taça. Nunca o esperar. Nunca o não estar. Tudo era redondo e bem embalado. Ele se vestia de presente. E ela se divertia em se deixar desamarrar em fitas e celofanes.


Amor se ama amando. E o amor cabe se fazer bonito. E a paixão gostosa. O olhar que arrepia. A vontade danada de boa que amolenga, derrete de tanto tesão e se faz entrega.

Ela e Ele eram NÓS. 

Nas risadas. Na cumplicidade. No querer com.

Tudo era construção. E cada pedrinha se encaixava como que por milagre, sem pressa e sem forçar. Mas...

A cada dia que corria ela sentia que faltava fundação. E temia.


Era tempo de consolidação e a música escorria lenta e nostálgica. 

Deixou de cantar os ritmos mais ardentes. Começou a solfejar os lá lá lá, os estribilhos que não pedem atenção. Se deixou levar pelo normal da rotina. Se tornou molenga como elástico que vai e vem, se amoldando aos senões e espinhos que parecem desconcertantes, mas inocentes. Se sofria, se sorria, se morria, nem sentia. Ou fazia de conta que não. 

Escrevia cartas que não mandava. Tomava atitudes que não tinham vazado na realidade. Voava por outros universos onde seus sonhos voltavam a ter miragens e utopias. 

Urgia construir. Gemia vontades. 

Era tempo de estagnação. Foi ficando pequena. Foi ficando sem vontades. Foi se tornando tão aquelas outras de quem ria. Não ela. Não mais ela. Não mais celofanes. Não mais magias. 




Tomava pílulas de felicidade. Tomava drageas para esquecer. Para viver. Para não morrer. Ele cada dia mais outro. Não mais nós. 

Era tempo de distração. Outros olhares, outras vozes. Foi ficando distraída. Deixou de lado pequenas atenções. Cada dia mais carente. Cada dia mais exigente. Cada dia mais distante. As músicas mais bolero. Mais dupla sertaneja. Mais gemidas de separação.

Amor se ama cantando repetia como mantra. Seu quarto cada dia mais bagunçado. Seu coração cada dia mais desocupado. Seus dias mais desolados. 

Era tempo de reconstrução. Se valia botar por terra, puro pó. Se valia reforçar estruturas, reaproveitar. Se valia se amar e se tornar ela mesma toda refulgente. 

Ainda não sabia. Apenas cantarolava. 


   

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Pratos especialmente memoráveis da infância

Retomando o projeto 52 perguntas, 52 respostas que andava adormecido. 

Tenho essa mania de revirar o passado e anotar o que vou descobrindo, além de gostar de ouvir os tios e tias mais velhos. Foi assim que descobri muita coisa de minha família e atualmente estou reunindo essas informações em dois blogs para que mais pessoas possam também usufruir dessas descobertas.

Lembrei especialmente deste projeto que achei na internet tempos atrás lendo para minha mãe as recordações que ela e suas irmãs escreveram sobre as suas infâncias. Se não fossem por elas muitas das coisas que sei sobre meus antepassados teriam se perdido no limbo da história. E porque acho importante preservar a memória dos que me antecederam? Uma que é uma forma de homenagem. Outra que me mostra de onde vim e quais são os valores e heranças afetivas e comportamentais que deles herdei.

Algumas das recordações mais importantes de nossas vidas estão relacionadas aos sentidos. As músicas e sons que ouvimos. Os cheiros e os gostos. Particularmente esses dois juntos nos lembram as comidas da infância. Então lá vão dois ou três pratos que sua mãe ou seu pai faziam que eram especialmente memoráveis

Uma coisa básica para me entenderem: Eu e a comida tínhamos uma relação meio complicada... 

Sim, eu era meio chata para comer....Vocês não imaginam o drama na hora das refeições quando eu ainda sentava na cadeirinha alta. Não comia o que não queria. Alminha ariana (de signo) se revelando desde a tenra idade. Arroz, por exemplo, não passava um grão. Separava com a língua, tirava da boca e olhava bem firme. E jogava longe. Juro que queria ter guardado um pouco desse ímpeto de saber bem o que queria e o que não queria. Me faz falta hoje em dia.

Mas não era magrinha não, sinal de que comia. E bem. Aliás, acho que muito dessa birra talvez viesse dessa relação que a criança faz com a ansiedade materna. E digo isso com conhecimento de causa porque minha irmã adolescente enchia o saco, me pegava pela mão e me levava para o quarto. E de lá voltávamos com o prato vazio. (Não sei que tinha arroz ou não no prato...). Até hoje há quem jure que ela me batia. Mas nunca. Apenas sentava e tranquilamente me dava as garfadas. E eu comia com a maior tranquilidade!

Mas tinham algumas comidas que eu comia até com a minha mãe.

Batata frita. Clássico, né. Batata frita de mãe, dessas de antes de se saber que fritura podia ser prejudicial à saúde. Tinha gosto de quero mais. E a mãe fazia uns pratos bonitos, enformava o arroz em porções individuais, colocava uma folha de salsinha por cima. Um bife de carne vermelha passado na manteiga e as batatas fritas do lado....Coisa feita com amor. Super simples mas muito bonito. E antes do pai chegar, ela ainda tomava um banho, colocava uma roupa bem limpa, se perfumava toda e ia recebe-lo na escada. Todos os dias. Eles tinham essas delicadezas de namorados pela vida afora. Inclusive na comida.          

Outro prato que lembro com água na boca eram as sopas de feijão que a mãe fazia. Um adendo: eu também não comia feijão. Fui aprender a comer - e a gostar - muitos anos mais tarde, depois que deixei de comer carnes vermelhas, quando fui em busca de proteínas. Mas a sopa de feijão da mãe....nas noites frias do inverno, ela pegava o feijão do meio dia, passava no liquidificador e quando estava quase quente, jogava devagar um ovo que ia lentamente fazendo desenhos amarelos e brancos enquanto cozinhava no calor. Gente....vocês não imaginam o sabor dessas sopas! Tinham gosto de amor, de aconchego, de colo quentinho. Curavam qualquer gripe que se iniciasse...
Meu pai não cozinhava. Não era coisa da família dele. A irmã também nunca aprendeu. E a vó e a outra tia acho que cozinhavam (e bem) só por obrigação. Não era vocação em absoluto. Mas o pai amava comer. E era bom garfo. Desses que não tinham muitos quereres prediletos, apenas algumas coisas que gostava menos (aipim um delas, mas comia). Nunca exagerava embora dissesse que sempre tinha apetite. E sempre elogiava. Uma característica de meu pai: sempre elogiar porque tinha essa visão privilegiada que o fazia ver sempre um ponto positivo e bonito em tudo. Dele então não lembro de nenhuma comida em especial. Mas os picolés que me levava para comer antes do Papai Noel chegar, no anoitecer do dia 24 de dezembro vão ter sempre um sabor que sorvete nenhum no mundo vai poder superar.

Se esses pratos marcaram minha vida? Creio que sim. Mas marcaram mais porque eram símbolo de um carinho de todo dia, era um afeto de cuidados e atenções que eles sempre tiveram conosco. Fui e sou extremamente privilegiada de ter dois seres humanos especiais como pai e mãe e sempre serei eternamente grata às suas lições e atos memoráveis pela minha vida.

domingo, 5 de novembro de 2017

Teias de descobertas

Dia Um - a noite que termina


Era de madrugada e logo a luz viria com toda a intensidade.

Não importava. Tinha passado a noite em claro mesmo. Era sempre assim. Um período de intensa alegria e logo em seguida vinha a realidade pra dizer que isso não era pra ela. Essa alegria bem prosaica de compartilhar e gozar era para os outros. Para ela ficava a sensação de coisa nunca terminada. Quando se permitia a entrega e soltava sua ternura mais funda,as coisas se invertiam e fugiam da sua mão. Sempre fora assim. 


Arisca,gata fugida e vadia.

Gata de rua,medrosa,manhosa

Acostumada a apanhar. Já não sabia nem mesmo no que acreditar. Nem nela própria. As melhores horas ainda eram os momentos vividos sem preocupação com o amanhã ,sem preocupação com o futuro. Fazer planos lhe era difícil. Não que não gostasse. Adorava sonhar e planejar como todo mundo. Mas tinha essa ferida nunca cicatrizada no coração que começava a incomodar e doer. Era uma consciência perturbadora da realidade. Era mesmo? As vezes duvidava dela mesmo. Era como se estivesse longe do mundo.

E nessas madrugadas de insônia ficava pensando no quanto era difícil se enquadrar no mundo. Tudo o que queria um canto seu onde ninguém perturbasse,onde pudesse estar em paz. Principalmente para pensar.

Pensar era importante. Pensar era fundamental. Até mais que sentir. Nessas madrugadas a vontade era pegar um espumante,uma taça borbulhante e sair por aí,cabelo ao vento, sem rumo, sem meta. Sem chegada,sem partida. Sair ao leo, feito gata vadia. E como conciliar esse ladinho aventureiro com o outro. O que era calmo, mais domestico, mais caseiro. Esse outro que dava vontade de se enrolar em uma almofada fofa e encostar a cabeça naquele ombro querido e ir achando o seu cantinho. Ficar afofadinha e quentinha,cheia de segurança, sem medos.

Como me é importante a fato de ser amada. De me sentir amada. Tão fundamental essa sensação profunda de pertencer. E como perceber que pertencer também significa conceder. Compartilhar. Não sei compartilhar. Acho que nunca cresci. E na atual circunstância da minha vida nem sei se quero crescer. (pensamentos da madrugada)

E não é que o sol começou a entrar e ela nem se deu conta. Os sons começaram a se modificar também. Não sei se já repararam, mas os sons se modificam com as horas que passam. Nessas meio frenéticas do despertar, eles também vão gradualmente despertando e são mais claros, talvez mais descansados,mais inteiros que no resto do dia. 

Gostava dos sons da manhãzinha,gostava dos sons da noite. Os da madrugada a fascinavam. E assustavam. Eram perturbadores como eram Tudo o que é mais profundo,mais intenso. Muito melhor lidar com o superficial,com o corriqueiro. Mais fácil. Muito mais. Sem divagações soltas. 

Novo dia - a descoberta

Hora da chuveirada matinal e do café corrido. O ônibus apinhado e a redação do jornal. As mesmas noticias, pequenas e mesquinhas do dia a dia. A mesmice das mesmas brincadeiras e do mesmo ar de indiferença e inveja das pessoas em volta. Todas apressadas,cansadas,entediadas, todas cadáveres ambulantes de um palco de marionetes vagabundo que ameaçava desabar. As pessoinhas continuam seu caminhinho de todo dia,seus passinhos controlados,seus paninhos poidos,seu enredo vulgar e repetido. Todas não. Algumas,muito poucas, tem um certo ar de vida,em suas faces mal pintadas.

Uma delas era Miguel,que por trás da sua cara de palhaço risonho e ferino, tinha olhos vivos e arteiros e um ar de criança terna, como o tem todos os meninos arteiros, mesmo os crescidos. Miguel vivia do seu salário pouco do dia a dia, mas mantinha escondida uma curiosidade insaciável e inquieta. Por vezes o observava e franzia a testa. Era uma incógnita. Talvez um dia seus caminhos se cruzassem,pois a vida tem dessas manhas. Os bonecos podem fazer de conta que comandam seus passos, mas as pessoas acordadas,as sem cordas,não.


Revelações de uma sabedoria secreta

As coisas acontecem para elas de acordo com o que tem que acontecer. De outra maneira não funciona direito. Deve ser uma daquelas leis arcaicas que nunca foram renovadas. Naquele tempo em que foram feitas, as pessoas ainda estavam acordadas, ainda não era moda ser marionete. Foi depois, aos poucos que as coisas foram mudando e quando se notou não existia mais plateia, apenas atores. E tudo recebeu o nome de vida. Foi quando as pessoas começaram a brincar de ser feliz. Mesmo os que manejavam os cordéis há muito tinham desaparecido. E ninguém mais se dava conta. As pessoinhas tinham um medo quase paranoico de viver sem amarras. Alguém espalhara, muito tempo atrás, que era fatal viver sem elas. Até tratados e livros foram escritos,e isso acabou virando dogma. Mesmo os que se percebiam sem cordas, agiam como se elas existissem, por puro medo de serem exterminados. Por isso eram tão fugidios, por isso eram tão discretos.

Por isso não se davam a conhecer. Era preciso um cruzar de olhares,era preciso que acontecesse. Ela tinha uma curiosidade que acontecesse com Miguel.
Ela queria sentir essa sensação de vitória,gozo,felicidade, nem que fosse por um instante fugitivo e perdido. Quem sabe um dia, quem sabe hoje.

Hoje ela tiraria a máscara e sorriria seu sorriso mais sincero, hoje ela sairia sem disfarces,sem cordas, hoje ela sairia acordada e inteira. Quem sabe sua aura brilhasse tão forte que seria impossível não perceber. Quem sabe seria possível brincar com o destino, até transformá-lo sem perecer. Quem sabe seria possível correr atrás da própria felicidade e ousar ser inteira por longos momentos, por toda a vida.

Por toda a eternidade.



POA-ll/03/88

(De vez em quando acho páginas escritas de décadas atrás, datilografadas e amareladas. As recupero porque parte de minha trajetória. Um dia saíram de mim, são como filhos pródigos que recebo de volta porque algo hão de querer me dizer algo ainda)

sábado, 4 de novembro de 2017

Urgia acontecer

“Eu ainda faço café para dois.”(Zak Nelson)

Acordou com luxos de guria nova. Resplandecia. Desejos inconfessos, desses que cabem como luva quando se tem a carne dura e os peitos altivos, cresciam nela. Por ela. Vontades escusas e tardias e por isso mesmo tão cheias da urgência de quem se descobre atrasada na vida. Suspirou três vezes. Tinha essa mania do três desde pequena. Três toques, três beijinhos na face, três trepadas sem gozar, três amantes fugidios. E agora três motivos para partir. E nenhum para ficar.

Um lugar qualquer perto da Terra do Nunca, um dia de novembro de um ano perdido no tempo.

Querida amiga Manoela,

Acabo de acordar e lembrei de ti. De nós e nossas travessuras de adolescentes que se descobriam. Morri de vergonha de pensar nelas. Tu também? Nem sei a razão de lembrar  disso agora já que só estou escrevendo para mandar meus sentimentos pela tua perda. Antonio era um bom pai, bom marido e bom avô. Tenho a certeza de que Deus em sua infinita bondade o está recebendo de braços abertos agora. Te consolo com o meu carinho e te desejo muita paz junto aos teus.

Tua amiga de sempre  

Releu a carta com olhos de fora e achou justa. Pena os de dentro apontarem várias hipocrisias dessas que se aprende a manejar para levar a vida mais de roldão. Falar em Deus, logo ela que nem religiosa era....sem contar que Antonio era um safado, desses de não poupar nem as amigas da mulher. Se bem que um safado gostoso, já que fora um dos três amantes fugidios de sua vida, com gosto de coisa proibida mas quero sim. E lembrar as travessuras com a amiga fora ato falho. Mas vai assim mesmo que pelo menos posso faze-la rir nessa hora de desconforto e dor. 

Olhou de soslaio para o homem que roncava de boca aberta em sua cama. Já fora um amante magnifico desses de rolar no chão da cozinha e foder em praia deserta. Olha agora o que sobrava. Um homem gordo roncando de boca aberta. E ela resplandecia.

Prezado Dr Miguel,

Poderia passar em seu escritório no fim da tarde para tratar de assuntos pertinentes ao inventário de meu amado tio? Se positivo, por favor avise.

Cordialmente

Olhou o email com calma e apertou a tecla enter. Que fosse o que que fosse. Aquele Dr Miguel parecia perfeito para resolver seu problema. Todos eles. Já demonstrara seu potencial nos amassos que trocaram durante o velório do amado tio. Sorriu por dentro ao imaginar que isso era pecado. Mas o tio não só entenderia como daria uma piscadela maliciosa lembrando que a vida passa rápido e deve ser aproveitada ao máximo. Fazia tempo que deixara essa coisa de brincadeiras eróticas de lado. Os três amantes fugidios eram coisa do passado. Depois dos filhos e dos netos, se acostumara à presença daquele homeme que um dia lhe fizera gemer de prazer e hoje ressonava de boca aberta. Passaram pelas etapas do bom humor, do carinho, do sexo morno, do viagra e das fechadas de olho. Agora urgia.

Urgia nela resplandecer. Urgia sentir de novo a carne tremendo, o arrepio e o tesão crescendo, fazendo aquela magia de parar o tempo e o mundo. Urgia fazer acontecer. Nela. Por ela.

Amor,

Deixei pronto o almoço e a janta. A geladeira está abastecida. Não esquece de buscar a Julinha na escola, ela tem aula de bale pelas 3 da tarde. O Pimpom tem veterinário na sexta. (Deixei meu carinho e meu amor adormecido em algum lugar e nunca deixei de te amar. Só que me amo mais)

#Partiu

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Das agruras de sentir conforme a Lua


As vezes se perguntava o que era ser mulher. Era mais que vestir rosa quando pequena ou sangrar todo mês desde criança ainda. Era mais que os não devias e os devias, limiar muito estreito que ouvia e seguia desde que se entendia por gente.

Era mais que abotoar uma blusa até em cima ou desabotoar de acordo com as circunstâncias. Era sem dúvida bem mais que ser bela em alguma etapa da vida e ser disponível para ajudar em outra.

Lá no fundo do seu ser se sentia mulher. Nem em outra encarnação, se existisse isso, queria voltar sem ser fêmea. Das agruras de sentir conforme a Lua, isso ela entendia. Mesmo que não tivesse parido, mesmo que não tivesse um macho para chamar de seu, ela sabia. 

Que isso de nascer mulher não depende apenas de uma conjunção de combinações de óvulos e espermatozoides. 

Mulher se criava nas sombrias e luminosas veredas dos universo, sob arranjo de deusas e anjas aladas que ruminavam antigas rezas para que de quando em quando, se gerasse na face do planeta terceiro daquele sistema de estrelas um ser que fosse em tudo apenas mulher.

Mas mesmo que se sentisse tão poderosamente mulher, tinha vezes em que era apenas uma garotinha carente. Dessas que caem na lábia de um lobo perverso. Desses lobos maus que a gente sempre acaba por se apaixonar porque em tudo mais interessantes que o caçador amigo.

Era uma vez um conto de faz de conta desses que se conta (e que talvez faça algum sentido se alguém não te interrompa, achando que teu trabalho de juntar letras pode ser retomado em um passe de mágica).

Era uma vez uma mulher que se sabia, que se sentia, que se amava
Vez que outra se desamava, se perdia, 
Perecia
Era uma vez um conto sem ponto
Um esgar de coisas sem muito sentido
Colchas tecidas por mãos alheias
Costuras que a mulher teimava reconhecer
Era um conto de faz de conta
Uma louca desvairada
Um sapato perdido num canto
um mancha de rímel desbotada
Era um olhar cintilante
Era uma risada desbragada
Eram tantas coisas juntas, esmagadas, retorcidas
Era apenas um rascunho
Mas amanhecia
A festa terminava
E a mulher reinava no seu reino de agruras enluaradas.