sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Das agruras de sentir conforme a Lua


As vezes se perguntava o que era ser mulher. Era mais que vestir rosa quando pequena ou sangrar todo mês desde criança ainda. Era mais que os não devias e os devias, limiar muito estreito que ouvia e seguia desde que se entendia por gente.

Era mais que abotoar uma blusa até em cima ou desabotoar de acordo com as circunstâncias. Era sem dúvida bem mais que ser bela em alguma etapa da vida e ser disponível para ajudar em outra.

Lá no fundo do seu ser se sentia mulher. Nem em outra encarnação, se existisse isso, queria voltar sem ser fêmea. Das agruras de sentir conforme a Lua, isso ela entendia. Mesmo que não tivesse parido, mesmo que não tivesse um macho para chamar de seu, ela sabia. 

Que isso de nascer mulher não depende apenas de uma conjunção de combinações de óvulos e espermatozoides. 

Mulher se criava nas sombrias e luminosas veredas dos universo, sob arranjo de deusas e anjas aladas que ruminavam antigas rezas para que de quando em quando, se gerasse na face do planeta terceiro daquele sistema de estrelas um ser que fosse em tudo apenas mulher.

Mas mesmo que se sentisse tão poderosamente mulher, tinha vezes em que era apenas uma garotinha carente. Dessas que caem na lábia de um lobo perverso. Desses lobos maus que a gente sempre acaba por se apaixonar porque em tudo mais interessantes que o caçador amigo.

Era uma vez um conto de faz de conta desses que se conta (e que talvez faça algum sentido se alguém não te interrompa, achando que teu trabalho de juntar letras pode ser retomado em um passe de mágica).

Era uma vez uma mulher que se sabia, que se sentia, que se amava
Vez que outra se desamava, se perdia, 
Perecia
Era uma vez um conto sem ponto
Um esgar de coisas sem muito sentido
Colchas tecidas por mãos alheias
Costuras que a mulher teimava reconhecer
Era um conto de faz de conta
Uma louca desvairada
Um sapato perdido num canto
um mancha de rímel desbotada
Era um olhar cintilante
Era uma risada desbragada
Eram tantas coisas juntas, esmagadas, retorcidas
Era apenas um rascunho
Mas amanhecia
A festa terminava
E a mulher reinava no seu reino de agruras enluaradas. 

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Primeiro surto, depois converso


Acordou com o sol da meia noite. Não, não estava em um país desses de contos de fada nórdicos, seu sol real fazia o movimento normal de ir e vir nos céus com alguma variação dependendo da estação. Era dentro dela que a claridade se fazia em plena escuridão. l

Uma estranheza. Apenas um quê que bateu esquisito na conversa de sempre. O dia tinha sido tão lindo que mal notou. Ou fez de conta que não notou. Ou não quis notar. Na verdade não.Tudo nela renascia e tudo nela não queria notar nada que destoasse do sol imenso que começava a brilhar por dentro.

Mas....o que pipocava dentro dela. Mais que as palavras ouvidas, o tom de voz era cortante. Ou eu coisa dela? Desconfiada desde que nascera, alma fugidia dessas que se entregam com as malas atrás da porta, prontas para seguirem viagem ao primeiro senão. 

Era ela. Surtava. 

Mas surtava calmamente. Com classe. Com elegância. 

Talvez como algumas vezes acontecia ia convergir paranoia e realidade muito tempo depois. As vezes décadas. 

Enfim, acordou com o sol da meia noite e surtou. 

Toda ela era um retorcer de pedacinhos de ilusão que se desfaziam, um a um. Conhecia esse sentimento de despertencer. 

Agora não. Respirou fundo com a certeza dos que já passaram dos cinquenta anos. E dos que fizeram terapia. E dos que acham que já se conhecem. E dos que encheram o saco de surtar dia após dia. Hoje não.

Hoje vou me dar ao luxo de descrer de mim. Vou fazer de conta que as respostas de fora não balançam, que talvez nem existam, que nada pareça não fazer sentido. Hoje vou me recompor.

Ou tentar.

E já nem importa se é amor que me falta, que quantas loucuras se faz por ele, pela falta dele, pela ânsia dele. Só por hoje vou respirar e deixar para lá. Vou desconstruir essa paranoia que me acomete em forma de desconfiança, pedacinho a pedacinho. Vou olhar para cada um deles e vou rir.

Talvez dias depois fosse realmente rir de tudo. Ou se não, o peso do coração talvez fosse menor. Talvez recolhesse de novo cada caquinho de sentimentos, unisse tudo em um mosaico colorido de boas vontades, colados com durex, com cuspe, com paixão e olhasse para cada um dos mosaicos que ia refazendo pela vida e que, pensando bem, formavam já uma linda colcha de retalhos.

Só por hoje. Só mais um dia.    

sábado, 14 de outubro de 2017

De um olhar fez-se o encontro

Era um dia de inverno cheio de brumas. Tantas que o avião marcado às pressas demorou horas para levantar voo. Mal sabia que sua vida ia mudar em poucas horas. Por ora apenas se lamentava daquele tempo que lhe atrasava a vida.

Enquanto descia as escadas da escala nem podia imaginar que um olhar a seguia. Nem quando sentou na espera interminável do destino. Sua mente divagava entre a observação de uma turma de nipônicos que faziam mil mesuras e a urgente necessidade de fazer com que a sua bagagem enfim fosse para o mesmo lugar que ela.

Levantou suas pernas em meias brancas, sua saia e blusa branca. Ela toda branca não fora uma casaco cor de maravilha. Ela toda maravilhas. 

Um balcão. Um olhar que a acompanhava desde a escada se faz homem. Ela desatenta nem presta atenção. Não fora o atendente mais sutil, talvez o momento não se fizesse.

Uma poltrona ao lado da outra. Uma conversa como tantas outras. Um observar analítico como tantos outros. Seria nada se não fora uma frase acidental que deixara escapar para aquele homem em tudo interessante que estava ao seu lado por acidente.

Um olhar se fez. Por um instante que durou uma eternidade ele a despiu em público. Não apenas seu corpo, mas sua alma, sua calma, seu bom senso, sua fêmea.

E ela gostou.

E esse gostar era em tudo diferente de tantos olhares que recebera em sua vida. Ali fez-se o encanto.

Não, não pensou ter encontrado sua alma gêmea. Apenas se permitiu viver.

Sua alma partida de um amor dolorido precisava de um porto. Altamente perturbador mas ao mesmo tempo seguro. Alguém que a fazia percorrer abismos com mais certezas que percorrera rotas normais. Alguém perverso mas que tirava dela o seu melhor.

Não pensou e mergulhou. Não de cara. Não de vereda. Mergulhou com calma e foi indo, indo e quando viu estava nadando em um oceano de plenitudes efêmeras e eternas.

Onde ia dar? Não sabia. E nem importava.

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Palavras ao vento

"De amar muito deixas amor em teu redor, e quem passa por perto crê que tens a rosa por dentro..." tradução livre do poema que Omara Portuondo sussurra em meus ouvidos enquanto tento me concentrar para trabalhar nessa sexta feira 13 de um chuvoso outono nesta mui leal e valorosa cidade que um dia foi um Porto Alegre.

Um teste fajuto desses de redes sociais feitos com certeza para saber mais dos meus hábitos que para mim nada rendem, mas para que, unidos aos de muitos, se tornam uma das mais valiosas moedas de valor dos dias de hoje, a tal da Economia da Atenção...o tal teste me disse (na lata devo admitir) que não sou das mais tapadas, mas a procrastinação me impede de voar mais alto.

Sim. E com certeza. Procrastino com consciência. Preciso desse hiato para me religar no processo criativo. Absolutamente não sou das pessoas que agem. Sou das que pensam. E o pensamento está cada dia mais obsoleto....o que me leva a admitir que sim, sou um ser em extinção.

Absorvida em mil atividades nada financeiramente produtivas. Vá lá, deve haver alguma sabedoria oculta no universo. Espero.

Palavras ao vento. Cada dia me sinto mais em universos paralelos que se tocam infinitamente. É como se mergulhasse passado/presente/futuro em um turbilhão louco que gera o caos. E o caos há de ser sempre o prelúdio dos Re nascimentos.

Palavras ao vento para que delas se façam eco em algum recôndito ser, talvez exista um mundo onde as palavras recebam afeto e atenção. Talvez nesse Universo em particular, seja rentável se dedicar a pensar. Talvez nem saibam o significado da palavra dinheiro e das pessoas se espere apenas que façam algum significado. Para algo. Para alguém.

Enquanto sonho, o mundo real gira. Seus problemas urgem. Os boletos chegam. Os projetos me esperam. Mais que sonhos e ideias, precisam de significados e detalhamentos reais. 

Palavras ao vento. Recolho uma a uma. Uno em uma colcha de retalhos que formam mosaicos de uma vida que espera apenas fazer sentido. Um dia. Quiçá.   

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

"Aborrescentes tardios" - tipos sem noção

"Criatura que não fez as bobagens na adolescência e resolve fazê-las na melhor idade..." Ouvi esta frase alguns anos atrás. Na época guardei mais como curiosidade que constatação. Mas com o rolar das páginas da vida (outra pérola que um antigo mestre de obras me brindava para falar das agruras das obras) e quanto mais cabelos brancos escondidos por tintas tenho na cabeça, mais encontro alguns espécimes peculiares de homens que fazem cantadas sem noção. E aqui uma pequena advertência, nada contra e tudo a favor de cantadas inteligentes e focadas na minha pessoa. O que acho risível e digno de pena até são os tipos que classifico abaixo:

METRALHADORA GIRATÓRIA - aquele que saí atirando a esmo. Mal te conhece e já vem mandando bala. E com uma cantada que cheira a receita de bolo. E de longe já sabes que faz o mesmo com qualquer ser de saia que passe perto dele. Imagino que a sua auto estima seja tão baixa que deva espalhar sua artilharia de forma aleatoria na esperança que alguma acerte...

MAIOR CARENTE - uma variante peculiar. Um pouco mais seletivo que o metralhadora, o maior carente apela para o sentimento maternal de toda mulher para destilar algum gatilho emocional que a faça querer salvá-lo. 

INTERESSEIRO POR SEGURANÇA - o cara parece tudo de bom, é querido, charmoso, promete e às vezes cumpre fidelidade é romance. Mas na verdade seu foco não é a pessoa em si, mas o que ela pode proporcionar: uma casa para morar (de graça de preferência), um plano de saúde, um carro...enfim, seu mote é bem material. Há quem só se dê conta depois de passar tudo o que tem para ele. Que corre para a próxima vítima. 

LOBO SOLITÁRIO: Um dos mais perigosos. Quase profissional. É inteligente e charmoso. Tem elevada auto estima e parece ser quase perfeito. Te acompanha na igreja, ajoelha e reza se for preciso. Vai à exposições de arte. Faz o que for preciso para chegar ao seu maior prazer. Que não é você, mas a conquista. Hábito que exercita para se manter em forma.

É lógico que existem os homens normais. Aqueles que não são perfeitos, não tentam se encaixar nas nossas expectativas e se aproximam com um real interesse por nós. Não tentam ser o que não são e sabem avaliar uma troca. E que bom que assim seja! Faz com que os outros, na comparação, assumam o seu mesquinho lugar de aborrescentes tardios.....