quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Ela toda maresia

Tinha gosto de mar. Ela toda maresia.

Era daqueles verões de tempo escaldante, onde a linha do horizonte se confundia entre começo e fim. Como ela que se abria em dores, em rancores, em mal humores.

Nem sempre fora assim. Teve um tempo de descobertas. Passou

Olhou em torno e tudo parecia ter gosto de fermento estragado, desses que não vão fazer crescer o pão por mais que se sove. Dias ruins estes de sentir o peso do mundo.

O corpo doía, a mente sofria. E ela se ria.

Maldito senso de humor! Devia ter nascido mais vitoriana. Menos barroca.

Que fosse, enfim. Urgia engolir aquelas lágrimas que teimavam em rolar. Gosto de sal. Menos mal que curtia salgados. Imagina se chorasse açúcar...

Pensou em abrir a caixinha nova de pilulas que fazem esquecer mazelas. Mas seu lado mais trágico largou o gesto na metade. Que fosse até o fim com tudo o que tinha que sair. Que mergulhasse de vez no oceano que se abria, que afundasse em águas, em sargaços, em conchas e pérolas. Que virasse sereia e voltasse ao útero de onde saem todas as mulheres. Que partisse.


Vestiu sua fantasia de luxo. Nos olhos pura melancolia. Nos lábios um vermelho de corar satanazes. Nos pés a areia que machuca.

Respirou fundo como fazia nos momentos solenes. Deixou que o vento percorresse seu corpo como se fosse aquele amor que demora e traz saudades. Ou como se fosse a vez primeira. Ergueu a cabeça e seus passos a guiaram para o mar. Ela pura maresia.

Que houvesse então um tempo de sangria.

Que expurgasse sal, suor e solidão.

Que irrompesse dela, de dentro dela, cores, cheiros, vontades e desejos. Que fosse.

Ela foi.

O mar gelado que era, acordou sua mente. Sentiu um raio que vibrava e acordava. A areia machucando menos. O abismo acolhendo. Ela desnascendo. 

O mar. Ela. O sol. A maresia.

Os pés machucados da areia corriam mais firmes. As asas cresciam em suas costas como anjos rebeldes que despertam de um sono milenar. Quanto mais ela afundava, mais alto voava.

Viu o escuro das entranhas. Viu o clarão da iluminação. Era duas. Era múltipla. Era toda maresia.

  

     

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Cassandra e as partidas

Nasceu com um dom na vida. Sabia definir com exatidão quem ia morrer em breve.

E isso lá era coisa que se fizesse com uma alma frágil como a dela? Era como se as forças do universo resolvessem fazer uma brincadeira de péssimo humor. Podia ter nascido, sei lá, com a capacidade de prever algo mais ameno, quem vai casar com quem, qual o numero que vai sair na loteria, quem vai ser eleito. Uma coisa mais útil que rendesse pelo menos alguma fama, senão dinheiro. Mas não. Era uma Cassandra das desgraças.


No começo achou estranho. O vizinho, tão distinto, viu num caixão. Olhou pela janela e em vez da figura que andava com dificuldade, já o viu inerte. Tudo bem pensou, era idoso e era meio esperado que batesse as botas logo. Nem chegou a falar para os outros.

Depois se repetiu com algumas figuras públicas e ela achou que era coisa de quem tinha imaginação fértil. Ou agourenta. Mas foi quando viu a jovem adolescente, arrebentando de vida, em um esquife branco, que se assustou. Procurou esquecer a imagem, mas ela teimava em lhe passar diante dos olhos, cada vez que via a guria. Que não demorou um mês, descobriu uma doença galopante e fatal. E se foi. Em um esquife branco.

Teve que contar ao analista. Sim, porque nessa altura dos acontecimentos, foi procurar um. Elaboraram o que foi possível. Dissecaram pai, mãe, avós. Até tios e antepassados. Até o dia em que entrou no consultório e viu o caixão. Todo de madeira. Luxuoso. Talvez o mais caro da funerária. Pudera com o preço que cobrava nas consultas. Pensou mas logo se arrependeu. Relutou em contar, mas na segunda sessão, como a imagem continuava, teve que desabafar. O analista riu. Falou em mil figuras de transferências, o escambau. Não tiveram tempo para uma terceira sessão. Ele partiu no fim de semana. Acidente de avião. Não sobrou ninguém.

Resolveu guardar para si as visões. Ia vendo uma sucessão de caixões, suando frio e indo à enterros. Os de conhecidos ninguém entendia porque ficava tão ansiosa. Os de estranhos, olhavam com curiosidade para aquela jovem tão branca, se perguntando qual relação teria com o defunto.

Apelou para as tarjas pretas. Para as religiões. Para a bebida. Para o sexo. Para qualquer coisa que a trouxesse de volta ao comum dos mortais, esses que caminham pelas ruas alheios ao futuro funesto que vai ao encontro de todos. Mas muito melhor não saber quando.

Estava na fase das festas quando conheceu Antenor. Nome de gente de ontem para uma cabeça de amanhã. Aquariano. Cuca fresca. Um bom humor sem igual.

Com ele tudo era leveza.

Mais que amantes, se tornaram cúmplices em tudo. Menos naquela coisa que ela carregava consigo e que achou melhor calar. Já chegava ser arauto de más notícias, que fosse pelo menos feliz na vida.

Tinha um secreto medo de saber a partida do Antenor. Mas nunca. Talvez em algum canto uma energia mais poderosa a poupasse. Viu pai, mãe e irmãos. Amigos. Conhecidos. Famosos e anônimos. Mas nunca Antenor.

Não tiveram filhos. Ela não queria passar pela aflição de saber antes da hora se alguém amado ia partir. Se tornou escritora. Suas mágoas, medos e terrores passaram a ser compartilhados com seus leitores. Ficou famosa. Enfim tinha achado um meio de fazer aquele dom maldito render algo. Que pelo menos lhe pagasse as contas.

Já era bem velhinha, naquele tempo em que as memórias se vão diluindo e passado/presente se confundem enquanto o futuro se torna uma incógnita assustadora que viu o caixão. Primeiro foi em um sonho. Mas quando ia ver o rosto do defunto, um barulho da rua a acordou. Pensou que era bobagem. Coisa de gente idosa e um pouco de culpa por ter antecipado a hora da partida de tantos. Essas coisas não se mexe. Cada um tem seu momento de ir e vir. É coisa individual, não tem porque um estranho se imiscuir nisso. Chegava a ser indecente.

Mas o tal caixão a acompanhou durante a semana. E sempre se dissipando quando ia ver o rosto. Tentou se acalmar. Fez todas as posições de ioga que aprendeu na vida. Repetiu todos os mantras conhecidos. Se aninhou nos braços de Antenor. Sempre Antenor. Que parecia milagrosamente jovem. Deviam ser seus olhos que para quem ama o tempo não passa.

Achou que fosse coisa de memória. Mas um a um os rostos das previsões passaram pela sua mente. Uns velhos. Outros jovens. Parecia que todos a acusavam.

Estava virando um pesadelo. Ela enlouquecia. E o caixão a seguia. Sem rosto.

De real, só Antenor.

Foi no último dia que a imagem se tornou mais clara aos seus olhos. Enquanto desfalecia com a dor gritante no peito, viu sua face serena no caixão enquanto ouvia as asas saltando das costas de Antenor que a carregava em seus braços, sobre as casas, sobre as ruas, sobre o mundo.




sábado, 6 de janeiro de 2018

Os sinais do universo e a auto sabotagem

Definitivamente eu sempre me auto saboto.
Dizem que é uma forma de evitar algo que nos assusta.  (Leia aqui sobre auto sabotagem)
Não é sempre e não é em tudo. Não era.
Definitivamente (e quando a gente está meio que no fundo do poço tudo assume uma forma trágica e perene) estou em uma das piores fases de auto sabotagem.
E reconhecendo esta má fase e não tendo ninguém mais a quem recorrer, rezei e pedi uma inspiração. 
E um dos segredos de receber ajuda das forças energéticas é saber reconhecer as respostas nas entrelinhas. Só hoje já li uns três textos porrada, desses de dar soco falando verdades que não se quer ver.
Restam dois caminhos: o da avestruz e do coitadismo. E o da reação. 
A reação começa pelo auto conhecimento. 
E foi nessa linha que fui tentar responder as perguntas da postagem do link acima que me pareceram interessantes

O que está ganhando ao agir assim?

  • Difícil essa. Quando os "ganhos" são negativos a gente tenta empurrar as respostas para baixo do tapete. O maior ganho é fugir do sucesso. E isso na verdade é um medo do fracasso e de não corresponder às altas expectativas dos outros e principalmente de mim mesma. 

- O que irá perder se parar com isso?

  • Talvez a constatação de que não sou a criatura tão espetacularmente inteligente que me fizeram crer que sou.
- O que acontece se você não tiver mais essa desculpa para não dar certo?

  • Vou talvez fracassar. E encarar o fracasso é terrível.
- É seguro parar com isso?

  • Não. E por isso é assustador. Mais que encarar o fracasso que "ganho" aos não tentar

- Como irá agir sem se sentir vítima?

  • Vou ter que aguentar a barra. O que já venho fazendo há ano. E me arrebentando por dentro. Talvez tenha que deixar o orgulho de lado e pedir ajuda. (ah!!! sim, eu sou orgulhosa, é um dos meus maiores defeitos) 

- Não sendo coitadinho terá atenção, cuidado e carinho?

  • Não sendo coitadinho eu nunca tenho atenção, cuidado e carinho. Todos me julgam mais forte e mais inteligente do que eu me julgo. Talvez pedir ajuda e ser coitadinho me assustem muito. 

- O que recebe agora com o auto boicote?

  • Ah!!! O X da questão. O que recebo??? Talvez mais fácil responder o que não recebo: independência. Não estar no palco. Ficar na sombra. Ter desculpas para não tentar. Não errar (este último ganho é uma falácia porque sei que erro e muito para justificar a sabotagem.

Como sair disso então?

Um passo básico é enfrentando uma das principais maneiras me auto sabotar : a procrastinação.

Eu adio sim. E todas as vezes em que faço isso, sei que vou me ferrar. E continuo adiando. Então enfrentar de vez cada assunto parece ser uma boa estratégia.

Outra maneira eficaz creio que seja pedir ajuda quando precisar. E para isso preciso de humildade para reconhecer meus limites. Ou seja, enfrentar o orgulho e partir em frente.

E como enfrentar o medo de falhar? Para isso não tenho respostas fáceis ou prontas. Acho que só enfrentando para saber.

E a última: ajuda profissional. Não descarto. Já fiz psicoterapia por muitos anos e foi maravilhoso. Fiz individual e em grupos. Mas não gostaria de usar tarjas pretas, azuis ou brancas no momento. Ainda tenho meus pudores.      

Termino aqui minha auto terapia de 2018. A inicial. Compartilhei com vocês como um pedido de ajuda. Quando me virem aqui, despida de vergonhas, contando meus medos e defeitos, pensem em mim apenas como uma mulher que está pedindo compreensão e apoio. Do jeito que vier. 

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Mudando a folhinha e recomeçando

Era dia um do ano.

Não deixava de pensar no velho clichê do livro em branco. Ou tela se quiserem ser mais modernos. Tudo a se fazer nessa magia dos simbolismos que nos dão novas chances.

As velhas dores, os erros de ontem ficam guardados nas gavetas do escaninho. Memórias do que não se deve repetir. Rotulados. E esquecidos que estamos cansados de saber que vamos repetir sim. Vamos errar muito. Vamos sofrer de novo. E de novo. E mais uma vez. Como que para provar a nós mesmos que somos seres de carne/osso/lágrimas.

Mas também vamos acertar. Trouxemos na bagagem a lembrança dos momentos delirantes. Dos sorrisos gostosos. Das conquistas. Do tanto que fizemos e nos acrescentou. 

Sempre somos vitoriosos por chegar vivos. É como as maratonas. Tem os que correm para ganhar, uma minoria. Tem os que correm por correr. Todos vencedores por chegar na reta final. Uns mais inteiros. Outros mais "esgualepados".

Talvez mais sábios fiquemos por saber que nada é para sempre. Nem a dor, nem o amor (este é sim! teimamos em tentar. E tentar. E acertar)

Trazemos junto nosso kit de sobrevivência. Uma música que levanta. Poesia para os dias cinzentos. Os amigos para compartir. O beijo na boca mais intenso para, ora, nos reabastecer.

Faremos milagres no novo ano então. Nem que seja mais uma vez sobreviver com ternura e esperança.


sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Procurando palavras

Todo ano gosto de eleger uma palavra para me nortear no ano que começa.

Não é como uma resolução de fim de ano, não me sinto na obrigação de segui-la ao pé da letra. Aliás isto de seguir gurus ou ideias não faz parte de minha vida. Sigo o coração. E olhe lá. Mas a palavra escolhida serve meio de norte, um rumo que parece entrar dentro de mim.

Essas palavras foram aparecendo. Não precisava procurar muito, elas pareciam estar ali na esquina me esperando. Já passei pela desvirtualização, pelo desapego, pelo reciclar-me, pela renovação. Mas e agora, qual palavra escolher?


Tantas necessárias. Tanto rumo a percorrer. Tanto a me encontrar. Só sei que nada sei se torna cada vez mais constante. Parece que os anos me vão derrubando certezas e convicções.  

Me vejo mais expectadora.

Fui brincar de procurar e achei esta palavra em um teste da web. Fascinação. Tudo o que ando precisando sentir. Por algo, pela vida, por mim. 

fas·ci·na·ção 
(francês fascination, do latim fascinatio, -onis, encanto, feitiço)

substantivo feminino

1. .Ato ou efeito de fascinar.

2. Encantamento.

3. .Atração irresistível.

4. Alucinação.

5. Ilusão dos sentidos.

"fascinação", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://www.priberam.pt/dlpo/fascina%C3%A7%C3%A3o [consultado em 29-12-2017].

Feitiço. Ando realmente precisando de um. Talvez um raio de sol que me leva à margem. Talvez um combustível que recarregue a viagem e que não me faça desistir no meio do caminho. Talvez uma desculpa. Uma meta. Um meio de me salvar de mim mesma.
Continue a nadar. Vou eleger como a frase do ano.

Continue a pedalar senão este teatro mambembe vai cair, vai despedaçar, vai terminar.

Queria ser mais positiva, mais otimista, mais amena.

Não consigo.

E continuo procurando.
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