quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Descascando abacaxis e laranjas

Passada a folia para quem pode foliar, me peguei pensando em qual seria a minha plataforma de governo para sair de um enrosco tipo o que estamos vivendo no país. Longe de mim propor soluções econômicas ou quetais mirabolantes. Acho que minhas soluções passam mais pelo bom senso.

Tipo: temos um país com muito potencial de vida envolvido por uma grossa camada de obstáculos. Como abacaxis e laranjas.
Tá, gente que já vem com um mas ou nãos, é obvio que eu sei que a situação é mais complexa. Também tenho alguns neurônios, embora já não funcionem como dantes e sei fazer contas. Mas também nessas minhas seis décadas de vida percebi que muita teoria bonita junta pode render um bom livro, mas é de ações concretas que o mundo se faz.

E por mais que palavras e poesia abasteçam a cabeça, a fome que ronca no estômago exige algo com mais substância. Então para que fique bem claro: a vida é feita de harmonia entre o sutil e o concreto. Entre o sonhar e o agir. Entre a generosidade e o egoismo. Entre o que eu acho e o que o outro acha. 

Minha plataforma primeira: aprendizado da convivência com o estranho. 
Do latim extranĕus, estranho é algo raro ou singular. O termo, por conseguinte, é usado em contraposição àquilo que é comum, corrente ou ordinário.(fonte)
Mas o que definimos por comum? Para mim o que é comum, pode não ser para o outro. E o outro pode ser a família, o amor, a chefe, a sociedade. Na minha sociedade ideal, o respeito às diferenças é básico e seria ensinado e fomentado desde o berço.

Outro item desejável: entender o conceito de meritocracia. Em principio não sou contra a ideia de que quem se esforça mais, seja mais recompensado. Mas temos que ter regras bem especificas para várias coisas:

  • Todos vão partir do mesmo lugar. Ou seja, todas as mulheres e homens já serão bem nutridos tanto a nível fisico como espiritual para que possam gerar filhos saudáveis.
  • Todo mundo começa zerado. Ou seja, o filho do multimilionário e o guri da periferia vão começar do mesmo ponto. Não herda herança financeira. Ponto. (isto é inegociável). Senão não teremos uma verdadeira meritocracia na sociedade. (Ah, me dirão alguns, para que serve ganhar muito dinheiro se não posso deixar para meus filhos. Ah! Direi eu, para que você seja feliz até que termine a sua vida. Após o dinheiro volta ao bem comum.) Putz, acho que sou meio anarco comunista.

Já temos bom senso, respeito às diferenças e verdadeira meritocracia. Convém definirmos objetivos comuns para que possamos focar conjuntamente nas semelhanças como sociedade. Se não quiser, pode tomar o rumo dos eremitas. Tem lugar para eles na minha sociedade particular também.

O que queremos como grupo social? A quem vamos remunerar bem? Artistas, atletas, empresários, médicos, professores, garis, operários...podemos estabelecer patamares de remuneração mínimos e máximos. E isso pode ser feito de comum acordo, vejam bem que não estou advogando um estado máximo. Sou meio contra castas que mandem, sejam porque detém o poder do estado, sejam porque detém o poder do dinheiro. Nem Mies, nem Marx.


Comum acordo entre as pessoas. Seria possível comunidades onde se pudesse sentar e chegar a um consenso? Cada vez mais tenho pensado a respeito. E conversado com amigos que acreditam ser isto possível. E até acredito que sim. Mas ainda não consigo vislumbrar esse consenso em grupos maiores. Megalópoles, países, são extremamente complexos para que não exista alguma regulamentação de algo. Meus poucos neurônios ainda não acharam uma solução. Mas é obvio que existe.

E para mim as soluções passam pela inclusão. Inclusão social que a fome e a miséria são indignas e nefastas ao crescimento saudável da sociedade. Inclusão das diferenças que toda pessoa tem o direito de livre manifestação e crer no que lhe fizer feliz. Inclusão com responsabilidade. (lembram que falei de regras lá acima?)

Quem define as regras? Xis da questão. Me parece que se forem discutidas e definidas em conjunto e por consenso, sejam mais fáceis de serem assimiladas. Mas sempre com direito à questionamentos que a vida corre célere, os costumes com ela e o que ontem parecia certo, hoje pode não ser mais.

E o que tem a ver laranjas com isso? Descascar frutas pode revelar muito da sua personalidade. Tem os perfeccionistas que não deixam um mínimo de casquinhas para trás. Tem os apressados (como eu) que se machucam com as farpas. Tem os que não estão nem aí e comem tudo escondido só para não dividir com ninguém. Ou comem na frente também e ainda fazem cara de superiores com aquela indagação: quer, corta e come. Tem quem não apenas corte, como ainda arrume em pratos especiais para dividir com os demais. Tem quem só corte e nem come.
Tem os que nem nunca tem fruta.
Tem de tudo na vida.

Só uma coisa não pode: não ter solução. Se não tem faca e se quer comer laranjas, façam como meu pai: descasquem como bergamotas.

Mas para o abacaxi ainda não achei saída. Vamos pensar juntos?

domingo, 11 de fevereiro de 2018

Para que serve o carnaval?

era dia de folia,ela sabia.
Todos saindo e rindo
Fugindo de alguma realidade, mais doída, 
menos feliz, 
quiçá apenas brincando que brincadeira
 é jeito da gente grande dizer que não cresceu de vez. 
que ainda mantém um jogo de cintura 
para dar uma banana para a Vida.
e suas agruras.

Pierrot

Não se perca de mim Não se esqueça de mim Não desapareça Que a chuva tá caindo E quando a chuva começa Eu acabo perdendo a cabeça Não saia do meu lado Segure o meu pierrot molhado E vamos embolar ladeira abaixo Acho que a chuva ajuda a gente a se ver Venha veja deixa beija seja O que Deus quiser A gente se embala se embora se embola Só pára na porta da igreja A gente se olha se beija se molha De chuva suor e cerveja (Caetano Veloso)
Em algum lugar de sua memória repousavam marchinhas. Talvez do tempo em que costumava sambar sozinha se não dava para brincar na rua. Dos clubes nunca gostou muito. Preferia a rua e os corpos suados. Amores de carnaval, desses que duram a eternidade de um instante tivera vários. Uns mais ternos, de ouvir violino em meio à folia. Outros mais ardentes de se afogar na chama que queima em quatro noites. Nunca um como Miguel Antônio.

Esse homem de olhar matreiro que foi-se chegando sorrateiro como falava a canção. Esse que brincava de coisas sérias. Esse que a viu inteira e soube dedilhar seus mistérios.

Esse que se fez fugaz. Meteoro que surge em noite estrelada. Cometa que ilumina e se vai em sua rota tracejada. Miguel Antônio.

Por ele suas rezas. Para ele suas arduras. Com ele suas canduras

Foi uma dezena de anos atrás, foi no carnaval passado, foi em um tempo de mistérios. Foi em outro universo. Sua mente de poucas palavras já nem recordava mais. Nem sabia se tinha sido real, se tinha acontecido com ela, se fora sonha, pesadelo, quimera. Outras vidas.
Carnaval - Portinari

Só sabia que fora.

Se fora.

E a cada carnaval ouvia de novo a marchinha e corria. Se achasse estava no lucro. Se se perdesse também.

Que a vida tem dessas magias. 
Cada vez que um sorriso se mergulha na face, 
um anjo desce do céu.
 Cada gota de água da chuva que liberta,
 traz uma nova esperança no amanhã. 
Cada lágrima que corre,
uma mágoa que escorre.
Cada taça de puro vinho,
Baco acena com seus mistérios.

E para que serve afinal o Carnaval, senão para respirar fundo e se reabastecer. 
Que venham as marchinas, que venham novos Migueis, que venha a Vida.

Carnaval



segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Do tempo em que chovia




Seria um dia lindo se não fosse por um detalhe. Chovia. 

Mas chovia como ela nunca tinha visto na vida. Nem mais sabia se aquela cachoeira toda era fora ou dentro dela. 

Um lado seu, talvez o que ainda lhe ligava à vida normal, dizia que o sol brilhava. Se havia nuvens ou não, era de pouca importância. Crescerá com aquela certeza otimista de que o sol sempre há de brilhar. Em algum lugar.

O outro lado. O outro. Aquele não. Aquele dizia que a tempestade apenas começava. Ela por acaso não tinha visto os sinais? 

Primeiro a rotina. A bendita rotina. A maldita rotina.

Os horários que tinham que ser cumpridos rigorosamente. Mesmo quandonao faziam sentido. Almoço ao meio dia. Em ponto. Todo dia a mesma coisa. Toda surpresa escondida em algum lugar perdido na memória. 

Depois a repetição. A mesma pergunta. No mesmo horário. E de novo. E de novo. E de novo. E mais uma vez. Todo dia. 

Só quem nunca viveu isso pode teorizar a respeito. A repetição é massacrante. Ela bem que tentou usar o amor como antídoto. Mas nem esse é tão resiliente assim. 

Com ela uma certeza. Ia piorar. Ia piorar muito.

O dia que acabasse então, aí sim que ia piorar. Ela sabia que ia sentir saudade. Até de ter que responder sempre a mesma resposta. 

O mais difícil era colocar cara de segunda feira em uma terra do nunca. Era a vontade de também voltar para casa. A casa que nem ela sabia onde ficava. Mas desconfiava.

No meio da chuva que caía dentro dela, a casa se fazia presente como um passeio no tempo. Havia de ter um sentido. Algum qualquer. Havia de ter um tempo continuo onde tudo estivesse a acontecer ao mesmo tempo. 

Sua criança que crescia. Suas angústias de jovem, hoje tão banais. Seus ardores, suas esperanças. Tudo devia ainda estar em algum lugar remoto, à espera que ela atravessasse o limbo e se reencontrasse com a luz. Em algum lugar.

Até lá, restava a chuva que lavava. A chuva que matava. A chuva que desmanchava.

Quando olhou em volta, sentiu que se ia escorrendo. Sua forma aos poucos se desformava, ela toda se escoando, indo embora. Quiça se unindo a algo que ainda não descobrira. 

Se contasse ninguém acreditaria. Ou ouviria. Ouvidos moucos que a vida urgia para todos. Cada um com sua sina. Cada um com sua sumida. Cada um com sua ferida. 

Das utopias e minha mania de querê-las

Onde foram parar as utopias?

Em que buraco escuro da vida se esconderam as esperanças? Todo mundo virou pragmático. Todos querem viver um eterno presente hedonista e egoísta.

Perdoem a cara amarrada, perdoem a falta de classe, perdoem

Não, ninguém mais perdoa. Um erro. Um deslize. Uma opinião. Tudo fica marcado, feito ferro em brasa. Há provas nas malhas da web. Se não as há, se criam. Qualquer criança sabe como colocar minha foto em locais e situações onde nunca estive. E ai de mim renegar. Depois de espalhada a fake, fica-se com a mancha marcada no currículo.

Ai, mas que falta de elegância, que pouca leveza para um tempo tão líquido.

Perdoem a densidade. Não sei ser rasa.

Não sei brincar de ser feliz quando estou triste.

Não aprendi a guardar as mágoas como se fossem trofeus para expor na esquina.

Quero o mais que a vida dá. E que não é adrenalina. A emoção turbinada apenas me esconde a falta de consistência.

Quero a profundidade do mergulho.

A utopia de ser.

Minha utopia.

Perdoem.

Não sigo a História. Apenas a observo.

Não tenho gurus. Apenas os leio.

Não tenho certezas. Vivo das minhas dúvidas.

Da vida o que quero: a essência.

E não precisa fazer sentido. Nem deve

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Ela toda maresia

Tinha gosto de mar. Ela toda maresia.

Era daqueles verões de tempo escaldante, onde a linha do horizonte se confundia entre começo e fim. Como ela que se abria em dores, em rancores, em mal humores.

Nem sempre fora assim. Teve um tempo de descobertas. Passou

Olhou em torno e tudo parecia ter gosto de fermento estragado, desses que não vão fazer crescer o pão por mais que se sove. Dias ruins estes de sentir o peso do mundo.

O corpo doía, a mente sofria. E ela se ria.

Maldito senso de humor! Devia ter nascido mais vitoriana. Menos barroca.

Que fosse, enfim. Urgia engolir aquelas lágrimas que teimavam em rolar. Gosto de sal. Menos mal que curtia salgados. Imagina se chorasse açúcar...

Pensou em abrir a caixinha nova de pilulas que fazem esquecer mazelas. Mas seu lado mais trágico largou o gesto na metade. Que fosse até o fim com tudo o que tinha que sair. Que mergulhasse de vez no oceano que se abria, que afundasse em águas, em sargaços, em conchas e pérolas. Que virasse sereia e voltasse ao útero de onde saem todas as mulheres. Que partisse.


Vestiu sua fantasia de luxo. Nos olhos pura melancolia. Nos lábios um vermelho de corar satanazes. Nos pés a areia que machuca.

Respirou fundo como fazia nos momentos solenes. Deixou que o vento percorresse seu corpo como se fosse aquele amor que demora e traz saudades. Ou como se fosse a vez primeira. Ergueu a cabeça e seus passos a guiaram para o mar. Ela pura maresia.

Que houvesse então um tempo de sangria.

Que expurgasse sal, suor e solidão.

Que irrompesse dela, de dentro dela, cores, cheiros, vontades e desejos. Que fosse.

Ela foi.

O mar gelado que era, acordou sua mente. Sentiu um raio que vibrava e acordava. A areia machucando menos. O abismo acolhendo. Ela desnascendo. 

O mar. Ela. O sol. A maresia.

Os pés machucados da areia corriam mais firmes. As asas cresciam em suas costas como anjos rebeldes que despertam de um sono milenar. Quanto mais ela afundava, mais alto voava.

Viu o escuro das entranhas. Viu o clarão da iluminação. Era duas. Era múltipla. Era toda maresia.

  

E quando as amigas veem poesia na tua prosa e a reescrevem com outra roupagem, me emocionando e revelando uma beleza que nem eu tinha percebido. Obrigada pela obra a quatro mãos, mentes, corações e sensibilidades Eliana Ada em seu blog Coisas de Ada. Leiam também a versão em forma de poesia AQUI

     
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