segunda-feira, 14 de agosto de 2017

da fobia social às distopias

Acordei voragens.

Algo da rudeza do mundo mexeu fundo no estômago, tomou conta do corpo e precisei de um refúgio. Dos melhores que conheço, os livros sempre me recompõem. Embora sejam meus parceiros desde sempre, ando deles alheia. As palavras nem sempre me são amantes inebriantes como eram. Eu, que ando mais neutra. Mais tão sem sal. Tão enclausurada. Em mim. Em minha casa. Em meu mundo pequeno e vasto, conforme a circunstância e conveniência.

Acordei coragens.

Já disse várias vezes que fui fóbica social. Dessas que não parece, tudo a custa de muita terapia e uma certa alma ariana (de signo) que me leva ao encontro do novo, do desafio. E que a coisa interna que me habita teima em pintar de escuridão logo em seguida e me faz recuar.

Acordei inquietudes.

Medo das pessoas. Tem nome para isso? Me dei conta que nunca tinha pesquisado de verdade. Tem nome sim, se chama: Antropofobia (
"A pessoa com o medo extremo entende que seu medo é ilógico. Apesar disso, a fobia de pessoas afeta sua vida diária, educação ou ocupação. Eles organizam estas atividades para que haja o mínimo de interação interpessoal"). Tudo bem, não chego a ter um medo extremo, mas uma necessidade de evitar o contato real, um medo de decepcionar, um receio que nem sei explicar que me faz ser meio bichinho do mato. Quem me conhece de modo virtual nem deve desconfiar porque as palavras escritas são meu porto seguro. Mas devem supor quando recuso convites e não busco formas de aproximação.

Acordei curiosidades.

Porta de entrada das novas ideias. Uma chamada de jornal e eis que mergulho na leitura que me toma inteira como raras vezes tem acontecido nos últimos tempos. O Conto de Aia, um livro já chamado de distopia feminista. (Não pretendo fazer aqui uma resenha do livro, tem algumas no link acima.) Ando meio cansada dos rótulos e dos pretensos enquadramentos de opiniões em caixinhas definidas. O que me chama a atenção e mais que isso, me apunhala de soco, é como esses futuros distópicos parecem tão factíveis.   



Distopia ou antiutopia é o pensamento, a filosofia ou o processo discursivo baseado numa ficção cujo valor representa a antítese da utopia ou promove a vivência em uma "utopia negativa". As distopias são geralmente caracterizadas pelo totalitarismo, autoritarismo, por opressivo controle da sociedade. Distopia – Wikipédia, a enciclopédia livre
Despertei tensões.

Dá uma inquietação quando se mergulha em uma leitura que aponta caminhos que, aparentemente não passariam de ficção, mas que apontam distorções que a gente já reconhece na sociedade onde vive. Este o papel da literatura. Criar tensões. Apontar distorções que não se vê por omissão ou por ignorância. E aí as distopias romanceadas podem se aproximar perigosamente de nossas vidas. Nós, os fóbicos sociais. Nós, os que deixamos de lutar por medos. Nós, que nos escondemos em uma pretensa sobrevivência o mais longe de riscos possíveis.
Um rato em um labirinto é livre para ir onde quiser, desde que permaneça nesse labirinto. O Conto da Aia
Despertei dúvidas.

Como se deixa parir o totalitarismo? Sendo sectário ao extremo (um pouco todos somos, não dá para ser tão isento na vida). O aprisionamento em tribos de pensamento que exclui o questionamento é uma armadilha. Seja político, religioso, de comportamento, não importa. O diálogo e a liberdade de se poder pensar e questionar sempre foram parceiros do crescimento. Quando eles são reprimidos, estamos no extremo oposto a um viver com liberdade. Quando a repressão é clara ainda temos como lutar de peito aberto. É quando ela se infiltra em nós que o perigo se torna mais premente. A serpente em nós. 
Não deixe que esses bastardos te reduzam as cinzas. O Conto da Aia
Respirei fundo.

Assustada porque o futuro não me parece claro e brilhante. Posso me proteger na minha concha de fobias e tentar sobreviver do jeito que dá. É isso que fazem os personagens das distopias ficcionais. É isso que fazem as pessoas que as vivem no mundo real. Posso lutar e tentar ser o mais eu que puder. Posso manter a memória. Posso....

Olhei em frente. E fui. 

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Ser feliz é complicado

"Dá um abraço no velho"

Ouvi essa frase saindo do enterro do pai de um amigo. Muitos anos antes de perder o meu. Só fui dar a devida caída de ficha quando a morte me pegou de roldão e eu entendi toda a imensa saudade contida naquela frase.

Ser feliz é complicado - a voz do Nico Nicolaiewsky grita no meu ouvido enquanto tento arrumar os pensamentos tentando enfim me resgatar no meio dos escombros e ruínas que sobraram do que um dia pude chamar de eu. 

A vida é confusão, teima o Nico em gritar. Algo em mim sobrevive, uma réstia de luz, um urro de vida. Não é preciso se estar doente de corpo. Basta estar de alma. Mas também sou bobona. E quanto.

Mais difícil apenas respirar e recompor os dados que apenas deixaram de fazer sentido. Em algum lugar me deixei morrer. Um processo, com certeza. Todos eles são uma escada para novos renascimentos. Eu tão cheia de certezas de ontem, eu tão sem chão de agora. Eu, promessa de voo amanhã.

Abraça teu velho que a vida é breve e ele apenas espera ser amado. Todos esperamos ser amados. Esperamos fazer sentido para alguém. E não, não apenas para nós. É fácil ser feliz sozinho. Mas qual o sentido de um piano tocando pungente para nada? 

Abraça teu velho que felicidade, mais que da teoria, vem da prática. E esta carece de muita explicação. Prática de vida vai se fazendo no que der, quando vier e como se puder.

Era para ser umas palavras de carinho aos pais. Mas para ser muito sincera, ando cheia de palavras bonitas. Ando carente de música que vibre minha alma, ando ávida de toques e de olho no olho daqueles de vomitar a alma sem pudor. 
"Ser feliz é complicado, a gente é como é todo mundo que sonha no fundo em ser um popstar..."   
Ser apenas importante, ser muito importante para alguém como quando criança quando toda travessura era recebida como arte suprema. Esse olhar puro amor admiração dos pais que talvez nunca mais se repita se não estiver assimilado dentro de nós.

Se abrace, se encaramuje, corra, enlouqueça, deixe-se estar. Esqueça textão, esqueça deverias e teorias. Deixe de lado o curtir, o ter opinião sobre tudo, o ter que parecer o que o mundo julga que se é. 

A música que roja dentro salva. A loucura pessoal salva. A vida não tem roteiro pré escrito. O fracasso para o mundo pode ser a tua vitória pessoal. Não tem receita. A vida flui.

Os que vieram antes apontaram o rumo que eles traçaram e ousaram fazer. A rota deles. A nossa está em construção.

Abraça teu velho. E seja feliz por instantes, nesses momentos em que o palco se ilumina e voltamos a ter olhos de inocência.      
  

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

A evolução da Confiança e Kobayashi Maru

Sou uma pessoa extremamente desconfiada. Começo já alertando que acredito sempre pesquisando e tentando ver se não existe algo que não encaixe bem. E ao mesmo tempo sou extremamente pretensa a acreditar no ser humano e no potencial da interação, generosidade e compartilhamento.


Pois a respeito da evolução da confiança, um amigo mandou um link interessante onde, através de uma simulação com a teoria dos jogos tenta explicar o que considera um enigma :
Por que, mesmo em tempos de paz, amigos se tornam inimigos?E por que, mesmo em tempos de guerra, inimigos se tornam amigos? 
Onde nos levará essa epidemia de desconfiança como o site define e quais alternativas temos para resolver isso. Hummmm, nada mais atual.

Já ouvi falar na tal teoria dos jogos e não me perguntem nada sobre ela, também não sei explicar, mas sei que está sendo muito utilizada em várias pesquisas para explicar um monte de coisas.  


No tal link, começamos com um joguinho onde temos duas alternativas: colaborar e trapacear. Obvio que a gente aperta no colaborar e ora! Vemos a primeira grande descoberta dita como verdade absoluta:

Infelizmente, virar o outro lado da face apenas te faz receber outro tapa! (Sério? Nem sempre cara pálida, e contrariando as regras do jogo não faz sentido trapacear. Que ganhos verdadeiros se tem com isso?)
Pronto, já começou meu lado implicante e rebelde. Por mais que o jogo tentasse me fazer a cabeça que um certo grau de trapaça é salutar e conveniente para a sobrevivência eu fui até o fim apostando na colaboração. Conclusão do jogo: os colaboradores TODOS acabam morrendo ou saindo do jogo e quem tem a capacidade de sobrevivência é o copiador, o que vai se adaptando, trapaceando e/ou colaborando, conforme as conveniências. 

Mas nem tudo é tão triste assim, afinal o site admite que segundo a Teoria dos Jogos podemos ter duas ideias bem fortes de lidar com a confiança  
"Jogo soma zero". Esta é a triste crença comum que para um ganhar, o outro deve perder, e vice versa. 
"Jogo soma-não-zero". Este é quando as pessoas se esforçam para criar uma solução ganha-ganha! (ou pelo menos, evitar um perde-perde) Sem um jogo soma-não-zero, confiança não pode evoluir. 
Bingo!!! E é aqui que entra a Kobayashi Maru.




Quem conhece o universo Trekkie, sabe que havia um teste para os cadetes da Federação chamado Kobayashi Maru. Em suma, segundo as regras do teste, não havia como vencer ou desatar o nó. Até que surgiu um jovem cadete chamado James Tiberius Kirk que atacou no ponto chave. Mudou as regras.

Ué? Não podia? Ninguém disse que não. Há sempre uma premissa básica por trás de toda teoria/teste/vida que é encarada como absoluta ou verdadeira.  Muitas vezes a criatividade está justamente em questionar a base e não apenas os resultados. 

E assim chegamos ao que fiz na simulação que falei acima. No meu jogo ninguém que trapaceia ganha. Ao contrário, perde. E quem coopera ganha. E com essas premissas os cooperadores não apenas não sumiram, como cresceram. Assim como os copiadores que os imitaram. Todos cooperando juntos e todos ganhando juntos. 

E creio que tudo a ver com a conclusão da simulação.
O que o jogo é, define o que os jogadores fazem.
Tudo bem, dirão alguns, meu mundo ideal é utópico e nesse que vivemos há trapaceiros, aproveitadores, o jogo de ganha-ganha nem sempre se reproduz e os que pregam o contrário acabam sendo postos de escanteio. Mas quem sabe, um dia, as coisas mudem. Lembrem da frase acima. Até lá cheguei à seguinte conclusão: 

Sou um ser em extinção e por isso mesmo rara. Sugiro que me preservem. 

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Mulher do Sol, Homem da Lua

Fonte
Ela acorda com o primeiro raio de luz, ele almoça ao fim da tarde.

Mulher do Sol. Luz da energia ancestral que a carrega e impulsiona desde sempre. Homem da Lua. Raios de magnética inspiração que o trazem à vida.
  • Bom dia, Hoje acordei bem cedo e fui caminhar. O dia foi belo e calmo. E me preparo para ver o jornal da noite e cair no sono. 
  • Boa noite! A entrevista do programa da madrugada falou do tempo e dos mistérios da vida. Os cachorros latiram, senti fome e fui dormir com os primeiros raios do sol.
As conversas beiravam ao trivial. Nada se revelava. Apenas se suponha. Falavam de nada como se tudo fosse.

Viviam da possibilidade DE. 

Talvez fosse mais realidade que muitos. Assim iam levando.

Ela, mulher do sol. Ariana convicta. Corajosa como se fosse amazona de longínqua dinastia. Ele, home da lua, Dionísio se sentia.

Rudezas se amenizavam em suas almas. Ausências se tocavam nas suas imperfeitas vivências.

Importa afinal o que se revela ou se esconde? A versão não vale acaso mais que as verdades que apenas se percebem, sem o mínimo comprometimento outro que não seja a poesia de existir.

Poetizar. Se deixar sonhar talvez fosse a forma de não morrer em um mundo cada dia mais distante da compreensão. Se em algum momento Sol e Lua conseguissem o simulacro de um beijo, isso já não importava.

Sonhavam. Cada um em sua vida. Sonhos solares. Sonhos enluarados.

E por breves instantes eles se mesclavam. E os unicórnios argonautas voavam em carruagens de prata e ouro em direção ao infinito.   



terça-feira, 11 de julho de 2017

Focar - necessidade urgente

FOCO!!!!

Socorro, ando precisando de uma lente dessas que foque em um objetivo e me limite as possibilidades. Pessoa curiosa e muito pesquisadora enlouquece com uma biblioteca ficando sem saber qual livro escolher e já pegando meia dúzia para a mesa de cabeceira, namorando a ideia de ler e reler todos.  Nunca consegui fazer uma coisa por vez. Estudava vendo TV. Via TV jogando. Trabalha ouvindo música e navegando.

Navegar. Daquela simples expressão que significava pegar um barco para a atual, passei ainda naquela de voar nas possibilidades: a tal navegar na maionese. Tudo bem que muita gente usa para se referir a pensar coisas que não vão acontecer de tão fantasiosas. Mas eu me apropriei no sentido de dispersão. 

Dispersiva. Presente.

Paro tudo e vou em busca do que me dá mais prazer no momento. E sou compulsiva muitas vezes. É ótimo para a mente e péssimo para o bolso.

Há que haver um equilíbrio entre motivação e foco. E fazer dos objetivos um hábito que se perpetue. Tipo beber água. Eu não bebia H2O. A água, não o refrigerante. Aliás eu SÓ tomava refris. tinha sede? Lá vinha copão, cheio de gelo e refri. Para mudar esse hábito e trocar por outro, não bastou só a força de vontade. Foi um longo processo entre a decisão que foi bem pensada e embasada (nada! Foi de supetão) e a troca por bebida gasosa, por chimarrão e enfim pela água. Uma boa troca.    


Mas...e sempre tem um na vida da gente, o que tem me perturbado é a minha compulsão por abundância de informações. Tanta que resulta que não foco e me perco exatamente por querer abarcar e saber tudo. Resultado: estou sabendo cada vez menos.

Hora de parar.

Repensar.

Respirar.

Respirar de novo. Profundamente.

FOCAR!!!

E voltem à figura lá de cima. Vejam que focar não exclui o resto do panorama. Apenas ressalta um detalhe por vez. 

Talvez isso me ajude a ver com mais clareza o panorama geral em que estamos vivendo/sobrevivendo/tentando. Talvez não e apenas me dê mais fôlego de ir em frente. De qualquer maneira a mudança do mundo começa por nós. É dentro de cada um que a vida se faz.