terça-feira, 11 de julho de 2017

Focar - necessidade urgente

FOCO!!!!

Socorro, ando precisando de uma lente dessas que foque em um objetivo e me limite as possibilidades. Pessoa curiosa e muito pesquisadora enlouquece com uma biblioteca ficando sem saber qual livro escolher e já pegando meia dúzia para a mesa de cabeceira, namorando a ideia de ler e reler todos.  Nunca consegui fazer uma coisa por vez. Estudava vendo TV. Via TV jogando. Trabalha ouvindo música e navegando.

Navegar. Daquela simples expressão que significava pegar um barco para a atual, passei ainda naquela de voar nas possibilidades: a tal navegar na maionese. Tudo bem que muita gente usa para se referir a pensar coisas que não vão acontecer de tão fantasiosas. Mas eu me apropriei no sentido de dispersão. 

Dispersiva. Presente.

Paro tudo e vou em busca do que me dá mais prazer no momento. E sou compulsiva muitas vezes. É ótimo para a mente e péssimo para o bolso.

Há que haver um equilíbrio entre motivação e foco. E fazer dos objetivos um hábito que se perpetue. Tipo beber água. Eu não bebia H2O. A água, não o refrigerante. Aliás eu SÓ tomava refris. tinha sede? Lá vinha copão, cheio de gelo e refri. Para mudar esse hábito e trocar por outro, não bastou só a força de vontade. Foi um longo processo entre a decisão que foi bem pensada e embasada (nada! Foi de supetão) e a troca por bebida gasosa, por chimarrão e enfim pela água. Uma boa troca.    


Mas...e sempre tem um na vida da gente, o que tem me perturbado é a minha compulsão por abundância de informações. Tanta que resulta que não foco e me perco exatamente por querer abarcar e saber tudo. Resultado: estou sabendo cada vez menos.

Hora de parar.

Repensar.

Respirar.

Respirar de novo. Profundamente.

FOCAR!!!

E voltem à figura lá de cima. Vejam que focar não exclui o resto do panorama. Apenas ressalta um detalhe por vez. 

Talvez isso me ajude a ver com mais clareza o panorama geral em que estamos vivendo/sobrevivendo/tentando. Talvez não e apenas me dê mais fôlego de ir em frente. De qualquer maneira a mudança do mundo começa por nós. É dentro de cada um que a vida se faz.  
   



segunda-feira, 10 de julho de 2017

Somos instantes


Acordou saudades.

Tirou a camiseta antiga que guardava seu corpo nas noites de insônia. Essa não. Dormira profundamente o tal do sono dos justos que lhe vinha de vez em quando. Cada vez mais quando.

Quando tudo bem. Quando não questionava. Quando se enfurnava. Quando era quase sempre.

Se fosse normal como tantos que conhecia, ia em um médico qualquer que lhe receitaria um para te quieto também conhecido por tarja preta. Mas não ela. 

Acordou saudades depois de uma noite bem dormida. Ou quase. O gato peludo a acordara miante. E ela, solícita, largou o sonho que era importante e foi atrás do felino. Como sabia que era importante? Porque ficara repetindo um nome infinitas vezes naquelas formas malucas que o universo tem para sinalizar algo. 

Acordou saudades e esquecimentos. Não lembrava o aviso do sonho. E logo o dia foi lhe tomando e deixando de lado as magias e mistérios que isso é coisa das madrugadas. Os dias exigem mais ação e coragens.

Somos instantes vira em em algum lugar. Calara na alma que ela sempre fora de frases marcantes. Sempre acreditara (ou fingira acreditar) que mais que felicidades infindas, somos feitos de momentos fugazes. Uns intensamente felizes. Outros tão intensos que dava dor de viver e lembrar. Alguns ainda pungentes de tal sofrimento de alma que grudavam na pele, nos ossos, mudavam o DNA e se tornavam parte dela para sempre.

Acordou saudades, esquecimentos e lembranças.

Algumas queria esquecer. Fingir que tinham sido um sonho mau, desses que a gente acorda assustada e dá Graças aos Céus de não terem acontecido de verdade. Mas tinham. Eram dela. Nela. Iam lhe acompanhar feito sombras até o último instante de vida. 

Outras fazia questão de lembrar. Eram tão danados de bons que pareciam ter saído de um conto de fadas, desses que tem final feliz. Ou daqueles filmes que a gente vê uma vez e nunca esquece. Esses ela sabia que iam acompanhar para sempre também. E quando já estivesse perto da porta de saída, eram eles que iam embalar seus medos da travessia. 

Acordou saudades, esquecimentos, lembranças e momentos. 

Despiu a roupa folgada da noite, passou água no rosto cansado e marcado pelas horas e pela vida, sorriu com uma certa melancolia para si mesma. E partiu.

Partiu vida, saudades, esquecimentos e lembranças. Partiu inquietações e certezas.  Mais as primeiras que as últimas. 

Somos instantes murmurou a alma. Somos apenas instantes, respondeu ela.

Acordou...acordou?             

quinta-feira, 29 de junho de 2017

Corrente dispersiva

Acabei de criar um poema belíssimo. No banho.
Esqueci assim que saiu.

Odeio quando isso acontece. Especialmente em uma época de pouca inspiração. Daquelas que sento na frente de uma tela. E nada.

Basta sair, relaxar e surgem as palavras, as rimas, tudo aos borbotões. 

De certa maneira minha vida segue esse ritmo. Produzo lindamente quando isso nada tem a ver com a minha vida prática. Sou daquelas que move mundos pelos outros. E por mim, nada.

Nado na corrente dispersiva de uma vida cinzenta que se perde nos escaninhos de uma realidade fugidia.

Ponto.

E não me venham com auto ajuda. Conheço a receita do bolo. Mas...entre a teoria e a prática reside uma imensa lacuna que só é preenchida com uma sintonia coração e mente. 

Ponto.

Estou naquela época da vida cheia de verdades absolutas. Coisa mais chata. Melhor um colibri voejante de dúvidas que uma senhora sisuda cheia de certezas. Ever.

Enfim. Foi-se o momento. A poesia parida no banho foi para o limbo das memórias inenarradas. E assim faz-se a vida de cada um. De momentos infindos de tal grandiosidade que só a nós pertencem. E que o pó do esquecimento não conseguirá apagar.

Fui e volto. Eis-me então na encruzilhada dos caminhos que se bifurcam (obrigada Borges). E nem sei porque essa imagem me vem à lembrança.

"Depois refleti que todas as coisas nos acontecem precisamente, precisamente agora. Século de século e apenas no presente ocorrem os fatos; inumeráveis homens no ar, na terra e mar, e tudo o que realmente sucede; sucede a mim..." Borges

Caminhos estranhos percorre nossa mente quando quer nos dizer algo. São como rios e ondas que balançam e seguem até chegar ao oceano. E o oceano somos nós. Pequenos universos em uma vivência sofrida e fulgurante.

E talvez afinal tudo faça algum dia sentido. Ou não. Que a vida seja apenas e tão somente, uma corrente dispersiva de desejos, misérias e esperanças.  


terça-feira, 20 de junho de 2017

Tulipa na cabeça

Fazia frio naquele julho gaúcho. Não mais que já tinha feito em outros invernos. Mas este era especialmente doloroso. Era dentro dela que a dor doía.

Em outros anos ela tinha uma companheira quase que constante. Esperança era seu nome. Nos dias mais cinzentos, Esperança voejava ao seu redor, abrindo janelas, espantando temores, dando aquela coragem que só as amigas de verdade sabem dar. 

Um dia Esperança sumiu. E ela começou a ficar doida. 

No começo achou que fosse uma escapada qualquer, dessas que as pessoas dão quando querem repor as energias. Ela mesma tinha feito isso ano passado. Pela primeira vez em dez anos. Fora tão bom. Vai que Esperança tivesse feito o mesmo.
Mas não. Sumiu. Não mandou recado, não deixou celular. Nem e-mail. Procurou nas redes sociais. Tinham várias Esperanças. Mas nenhuma a sua.

Quando se deu conta enfim que ela não ia mais retornar foi que compreendeu. Tinha enlouquecido.

Olhava ao redor e nada mais tinha graça de antes. Nada a comovia e até a sua criatividade foi se acabando. Olhava uma folha em branco e nem mesmo a velha angústia que precedia a boa criação lhe vinha. Uma folha em branco era agora apenas uma folha em branco. Continuaria uma folha em branco. Indefinidamente. 

Foi ficando mesquinha. Uma carência pegajosa se apossou dela como se a atenção, mesmo que por migalhas, de outras pessoas fosse lhe abastecer a alma. Qual o quê. Era a falta da Esperança, sua Esperança, que abria aquele buraco sem fundo.

Todo dia tudo era igual. Ela convivia com o esquecimento dos que amava. Nem sabia mais se amava. Não se amava mais. 

Férias: anotou na agenda. Foge! Gritava o coração, naquele pedacinho que ainda teimava em ser são. 

Uma coragem afoita de quando em vez e parecia que ia conseguir. Mas o universo parece conspirar contra quem não está em sintonia consigo mesmo. Nada dava certo. E a força pequeninha ia pelo ralo.

A memória ao redor dela enlouquecia. Sua casa se carcomia. E ela apenas olhava como se fosse expectadora em um palco mambembe. Já vira essa história. Sabia como acabava. E sem a maldita da Esperança o buraco negro ia pega-lá também. Talvez fosse melhor mesmo esquecer tudo. Os nomes, as palavras. Ser louca tinha lá suas vantagens.
Enlouquecer. Por mais que tente permanecer na essência da vida, vou enlouquecer. Conviver diariamente com mentes que se vão, faz a minha embranquecer. Minguar. Sumir. Melhor ficar doida. Colocar uma tulipa na cabeça e sair feito bailarina ao sol, recitando velhas poesias que nunca escrevi (Antônia Bandeira da Luz )


Talvez a morte enfim fosse isso. Se deixar acabar. Ir se consumindo até que nada mais da antiga personalidade restasse e ficasse ela: a Essência. E doidamente as duas se unissem em um antiga dança cósmica do amor e fossem vagar pelas estrelas, pelas ruas, pelas vidas. Sendo. Querendo. Vivendo enfim.


"No caminho dessa descoberta, não tem compromisso
Com trilhar o que já foi trilhado
Deixo tudo ali do lado e parto cego e sempre em frente
Um tanto quanto alucinado
E nado para estar presente
Nada como estar assim ciente
Sem estar cansado
Sem estar à margem
Sem estar doente
Sem faltar coragem"
Feito Um Picolé No Sol)

sábado, 17 de junho de 2017

Esmagado pelo asteroide

O jornal caído no chão tinha uma notícia instigante. E assustadora.

Era ainda nostálgica e gostava da palavra impressa, essa coisa narcótica e anacrônica de ver símbolos sobre o papel. A cama desfeita guardava o calor da noite. E os cheiros também. Já repararam como o cheiro da gente se acentua nas noites, especialmente as mal dormidas? Fica uma inhaca forte no ar que precisa ser dissipada com o ar que renova as manhãs.

Um copo de café semi quente ao lado da taça de vinho de ontem formavam uma moldura e contavam uma história na mesa de cabeceira. Junto com o livro de perguntas, aberto na página do dia 12 (ontem), ainda em branco. O lápis sobre ele era um apelo mudo para uma resposta que não vinha. A pergunta? "Quem desperta teu cinismo?" Não era quem, mas o quê. Mas ela teimava ler quem. E por isso não escrevia. Ela sabia a resposta. 

Era uma pessoa de bom senso. Não demonstrava grandes mudanças de humor. Era serena. E isso era alardeado como uma qualidade. Nunca um defeito. Gostava disso.

Gostava também dos bombons que a chamavam da caixa fechada. Tinha resolvido começar o enésimo regime do mês. E só estava no dia 13. Foda-se, pensou. Abriu a caixa e antes que o senso comum a fizesse desistir, abriu com pressa a embalagem, pegou um ao acaso e comeu. A mesma sensação de prazer que o pastel da noite. Que o pão de queijo da tarde, que o sanduíche da manhã. Não era de espantar que as roupas no armário lhe olhassem com saudades, esquecidas nos cabides, por falta de sintonia entre elas e o corpo que já não lhes apetecia. 

O dia a esperava. Era feriado e isso era bom. Fazia sol o que era melhor ainda. Dia de sair à rua, encontrar os amigos, pegar um cinema. Talvez também o novo amigo que conhecera nas redes sociais. 

Seria um dia normal. Não fora a notinha ao pé da página do jornal caído no chão. 

Em geral lia de forma sintética. As manchetes, alguma opinião. O obituário porque achava falta de respeito não dedicar uns momentos de atenção à quem tinha partido. Mesmo que não os conhecesse.

Mas semanas atrás, por essas forças sincrônicas da vida, seu olhar fora atraído por uma notícia da TV. Lá na longínqua Rússia um cientista, um tal de Damir, alertava que um asteroide podia colidir com as coordenadas geográficas que eram as de sua cidade natal. Como sabia? Era astróloga amadora e já tinha se arriscado a fazer o seu mapa astral. e para isso fora em busca de dados do lugar. Na verdade era menos que amadora. Era curiosa mesmo. Não era para se alarmar não. Não era dessas pedras que circulam no universo e que podem destruir planetas e vidas. Talvez só algumas. Sabe-se, segundo a notícia, que toneladas de pedras caem do espaço na Terra. Todos os dias. Muitas tão pequenas que nem fazem cisco. Outras tão imensas que podem ter matado dinossauros. Outras como essa que ele previa podiam quando muito abater florestas. E ia cair na sua cidade natal.

Fazia anos que tinha saído de lá. Não sentia falta. Não mesmo.

Sempre fora perseguida pelas línguas ferinas do lugar. A chamavam de gorda quando pequena. De puta assim que emagreceu e foi à forra. De vagabunda quando namorou quem quis. Eram maldosos. Todos.

Talvez nem todos. Tinha a tia que trabalhava na farmácia e era bondosa. Olhar distante e coração meigo. E tinha o Joaquim. Seu melhor amigo. Seu amor secreto. Ela queria crer que não fora ele que apontara o dedo de acusação que a fizera decidir fugir. Ele não. Fora tolhido pelas circunstâncias. Fora pego nas redes mesquinhas das línguas ferinas da cidade. (Línguas ferinas era um clichê que lera em um romance barato e adotara porque clichês são bons justamente para isso. Qualquer um, mesmo os mais tapados, entendem).

E se. E se o asteroide realmente caísse? Brincou com essa ideia por dias. Em algumas vezes a bola chegava perto da cidade. Ia aumentando que nem o pânico das pessoas que ela podia ter avisado e não o fizera. Esquentava mais que deserto e antes que caísse, explodia no espaço em mil pedaços que iam destruir os telhados, fazer estragos, mas não matar ninguém. Era o seu lado gentil que se manifestava até nos sonhos mais escondidos.

Em outras ela aparecia em um carro branco (que cavalo não ia saber montar mesmo) e avisava as pessoas que, no início, duvidavam, mas depois a seguiam por uma rota segura. E de cima de uma montanha viam o asteroide se espatifar na cidade. E seus habitantes, salvos, a aplaudiam como a heroína e lhe pediam perdão de joelhos.

E assim ia sua imaginação, da mais irônica e mesquinha à mais piegas e babaca.

Esqueceu da coisa e foi viver. Até hoje. Lá ao pé da página, no meio do jornal, uma nota perdida de uma cidade esquecida: "Queda de asteroide mata habitante de X." Sua cidade! O asteroide que o tal Damir falou. E não é que caiu mesmo? E ela nada fez! Seu coração gelou. Foi em busca do nome do morto. Ou morta. Qual o quê! Devem ensinar nas aulas das faculdades de jornalismo a aumentar a angústia das pessoas ao nunca colocar de cara os nomes dos bois. Dos mortos, quero dizer. Basta ter notícia de tragédia que noticiam: acidente na rota 345 com um óbito. Fodam-se os amigos e parentes dos milhares que estavam por ali no momento. Fodam-se as preocupações e os sentimentos que o que vale é vender mais. E quando mais gente angustiada, mais leitores.

Joaquim?! Só podia! Porque mais o universo ia lhe trazer tal notícia com tanta antecedência? Era para se preparar. Já tinha imaginado a sua morte de mil maneiras (mentira que acreditara em suas boas intenções). Mas nunca assim, esmagado por um asteroide! Melhor que morto por um tiro que arma ela nunca teria coragem. Nem faca. Coisa mais suja. Veneno talvez fosse mais simbólico. Mas asteroide! Um sinal dos céus. Deus enfim a tinha recompensado!

Não teve dúvidas. Correu para a garagem e pegou seu carro. Vermelho. Cor de sangue. Para inveja das pessoinhas do lugar ela tinha vencido na vida. Segundo os valores deles. Tinha se tornado uma expert em sentimentos humanos. Dava palestras que eram muito bem pagas.

Demorou umas duas horas para chegar ao lugar. Continuava o mesmo. Nem sinal do asteroide. Pelo jeito não causara destruição aparente. Uma pena.

A mesma praça pequena. As mesmas lojas de antes. O mesmo calor infernal. Mesmo no frio que fazia, ela podia sentir aquele ar gosmento e fétido. Eles eram os mesmos. Ela, nunca mais.

Chegou a tempo de ver uma procissão saindo da capela municipal. Aparentando ser uma turista, perguntou distraída: quem era o defunto? O seu Joaquim do Boteco. Morreu de cirrose. E o tal do asteroide, quis saber? Era um que passava na cidade, se escondeu embaixo de uma árvore quando viu a bola de fogo. Não é que deu azar e a árvore caiu sobre ele?

Enquanto voltava pela estrada estadual, aumentou o som da música. Que tocou a sua da adolescência. Bosta de vida, pensou consigo. Nem nos céus se pode mais confiar. E apertou o acelerador.