terça-feira, 26 de julho de 2016

Quase nos 60 - a trajetória

De repente, não mais que de repente, os anos passaram. A menina que sonhava quimeras se vê presa em um corpo que sim, reconhece como o seu, afinal foi o que ela construiu, mas que os outros olham como se fosse de uma outra diferente. Uma outra bem mais velha que ela, menina que ainda mora por ali.

A trajetória não foi pequena, afinal são quase 60 anos de vida. Mas falando francamente não me parece assim. Parece ter sido tão rápido. 

O maior trauma com a idade foi aos 30. A sensação interna de que dez anos antes, eu tinha 20 e um mundo de possibilidades pela frente. E dez anos depois teria 40 e um mundo de maiores responsabilidades. E não apenas isso. Um mundo mais focado e por isso mais estreito. 

E por mais que saiba que isso são convenções e que nada me impede de tentar coisas novas em qualquer idade, vou ser bem franca com vocês: a energia de ousar esbarra em alguma falta de vontade, alguma dor do corpo, alguma seletividade que não me acometia aos 20.

Nunca fui um mulher de cuidados pessoais. Por sorte nasci com boa genética e herdei bom cabelo, pele boa e uma boa saúde com pespectiva de longevidade. Sempre brinco que só tive alta de hospital: quando nasci. 

Ajudei com uma vida equilibrada. Nunca fumei (não por não tentar, mas achei horrível na primeira fumaça). Não bebo demasiado (também tentei a cerveja e achei muito amarga, só o vinho me conquistou). Não gosto de vícios, não por moralismos, mas por detestar dependências. Ademais meu problema maior nunca foi entrar em Alfa. Eu vivo nela. Talvez se inventassem algo que me fizesse pousar no chão e enfrentar galhardamente as coisas triviais da vida, eu me viciasse. Um pouco.

Não casei e não tive filhos. Por conseguinte não sou avó hoje, como grande parte de minhas amigas. Talvez isso também tenha contribuido para manter a cabeça de menina interna. Filhos e netos mudam uma mulher. 

Aos cinquenta me propus um desafio ao ver uma mulher ser advertida numa fila de idosos. Achavam que ela não tinha a idade para estar ali. E olhando para ela ninguém diria mesmo que já tinha passado dos 60. Ali, naquele momento, decidi que queria ser assim. E dez anos pareciam ser suficientes para o meu projeto IDOSA GOSTOSA. Tá, eu sabia que devia ter começado antes. Aos 12 talvez. Mas antes tarde do que nunca.

Mas....percalços dos caminhos da vida me pegaram no meio da trajetória. Doenças de meus pais me fizeram percorrer médicos, hospitais e CTIs. Aprendi termos médicos, tive lições de vida nas salas de espera. Passei pelas angústias do não saber o que vai acontecer no momento seguinte e aprendi a agradecer cada momento de vida. Minha pele se revestiu de rugas, meus cabelos se tornaram mais brancos. Meu corpo emagreceu em um primeiro momento. Cheguei a pesar 49 quilos. E engordou em outro, mantendo os 60 kg atuais. A antiga relação custo benefício que tinha descoberto anos atrás e que me fez emagrecer bem e que era a máxima: "ficar magra me dá mais prazer do que comer batatas fritas e refrigerantes" mudou para "comer me dá mais prazer que o resto e a vida é breve".

A VIDA É BREVE  

Talvez a maior constatação do envelhecer. É MUITO breve. E o fim não é bonito. Dói. O velho não é aquele ser bonitinho como o bebê, mas é tão frágil e carente como ele. Devia receber a mesma atenção. Mas não recebe. O velho na nossa sociedade não recebe a mesma atenção que em outras. Valorizamos em demasia o jovem, atribuimos à ele vários significados: beleza, eficiência, agilidade. O velho é lerdo, é feio, a sabedoria da idade deixou de ser atributo de qualidade. Principalmente depois da era Google.

Queremos então ser jovens. Alguns fisicamente. Seja por plásticas ou por atividade física frenética. Outros, mais espertos, mantém a leveza da alma e os olhar brilhante de quem se sabe. E se ajuda com alimentação saudável e um alongamento.
Outros ainda descobrem seu chapéu lilás e vão viver o que lhes dá prazer. Acho que no fundo a vida é isso: trajetória de seguir em frente, apesar de e com coragem. 

Estou registrando meu último ano nos 50 com fotos diárias: o álbum do #projeto2016 e as explicações de cada foto estão na fanpage do Elenara Elegante.   

Deixo com vocês um poema que recebi de minha cunhada por whatsapp hoje. De certa maneira complementou o que queria dizer por aqui.
Por dentro e por fora - Luan Jessan
Por foratenho tantos anos
que você nem acredita.
Por dentro, doze ou menos,
e me acho mais bonita.
Por fora, óculos;
algumas rugas,
gordurinhas,
prata nos tintos cabelos.
Por dentro sou dourada,
Alma imaculada,
corpo de modelo.
Por fora, em aluviões,
batem paixões contra o peito.
Paixões por versos, pinturas,
filosofia e amigos sem despeito.
Por dentro, sei me cuidar,
vivo a brincar, meio sem jeito.
Não me derrota a tristeza;
não me oprime a saudade;
não me demoro padecente.
E é por viver contente
que concluo sem demora:
é a menina
que vive por dentro,
que alegra
a mulher de fora!


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