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Crônica sobre o Diálogo Entre Gerações

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Era um sábado qualquer quando a família se reuniu para um festival de música. Tanto podia ser no Rock in Rio como em um outro qualquer que vemos pelo país. O cenário era uma loucura: palcos gigantes, gente eufórica, e um som tão alto que fazia o coração bater no ritmo da música. Ana, uma jovem de 20 anos, estava em seu paraíso pessoal. Fones de ouvido, os dedos voando no celular, compartilhando stories no seu Instagram daily, pensando em possíveis vídeos para o Tik Tok e vibrando com o set de uma DJ eletrônica. Para ela, aquilo era "hype". Já seu pai, Pedro, de 55 anos, de calças e camiseta preta do IRA, olhava em volta e só conseguia pensar: "Esses jovens, hein? Onde foi parar o bom e velho rock'n'roll?" Ao lado deles estava Maria, uma mulher vibrante, roupas indianas e cabelos brancos bem tratados, a avó de 73 anos. Ela balançava a cabeça lentamente, lembrando de quando assistiu a Janis Joplin no Monterey Pop Festival. Era o auge de sua juventude. "Ah...

Quem Fala por Mim?

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Pequena fábula em forma de crônica baseada em fatos ouvidos e narrados por pessoas que viveram. Dona Clara tinha 77 anos. Era daquelas mulheres que mantinha-se firme, lúcida e ativa. Acordava cedo, lia o jornal todo, e adorava um bom debate sobre os rumos da política e da ciência. Se havia algo que nunca lhe faltara, era a clareza de pensamento e a vontade de viver a vida plenamente. Casada com o João, um homem 20 anos mais novo, Clara se divertia com a diferença de idade. Ele, aos 57, vibrante e carismático e ela que, com sua calma e sabedoria, equilibrava a casa. Tinham uma vida feliz, ainda que cheia das piadas maldosas que escutavam sobre a diferença de idade. “Ele é quem cuida de você, não é?”, diziam uns. Clara apenas sorria, paciente, mas lá dentro, revirava os olhos. Certa vez, começou a sentir algumas dores no joelho. Algo pequeno, uma pontada ao caminhar. “Ah, coisa da idade”, pensou, mas mesmo assim resolveu ir ao médico. Chamou João para acompanhá-la, só para não ficar sozi...

Carta entre tempos

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carta de uma velha senhora para a  criança que um dia foi "Minha criança, minha última palavra Antes do mergulho no escuro Quero te dizer o que sei da vida O que vi, senti, pensei, sonhei" Peguei a caneta, me armei de inspiração, me olhei no espelho mal reconhecendo entre as rugas do meu rosto, a imagem daquela menina cheia de ideais que um dia fui. Talvez já não me reste muito tempo de vida, talvez nunca leias ou tenhas pressentido que um dia eu quisesse te responder. Sim, porque tu me indagavas. Desde pequena foste curiosa e continuaste sendo pela vida. Sinto em mim a necessidade de dizer a ti o que aprendi na minha caminhada. A vida é um mistério sem solução Um rio que corre sem parar Não há uma verdade, há muitas visões Não há um destino, há muitas opções Dentre as coisas que aprendi, a de que a vida é um mistério talvez seja a mais importante. A vida é movimento intenso. É ciclo de sensações, vontades, lutas entre o quero e o devo, é momentos de corrida. E muitos de desc...

Quase nos 60 - a trajetória

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De repente, não mais que de repente, os anos passaram. A menina que sonhava quimeras se vê presa em um corpo que sim, reconhece como o seu, afinal foi o que ela construiu, mas que os outros olham como se fosse de uma outra diferente. Uma outra bem mais velha que ela, menina que ainda mora por ali. A trajetória não foi pequena, afinal são quase 60 anos de vida. Mas falando francamente não me parece assim. Parece ter sido tão rápido.  O maior trauma com a idade foi aos 30. A sensação interna de que dez anos antes, eu tinha 20 e um mundo de possibilidades pela frente. E dez anos depois teria 40 e um mundo de maiores responsabilidades. E não apenas isso. Um mundo mais focado e por isso mais estreito.  E por mais que saiba que isso são convenções e que nada me impede de tentar coisas novas em qualquer idade, vou ser bem franca com vocês: a energia de ousar esbarra em alguma falta de vontade, alguma dor do corpo, alguma seletividade que não me acometia aos 20. Nun...

O essencial para crianças e idosos

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À medida que os anos passam a maturidade cobra seu preço. Maturidade significa ser responsável pelas suas escolhas. Mas mais um pouco. Não sei se acontece para todos, mas mulher tem uma alma meio de mãe. Mesmo nunca tendo parido como eu. Hoje li e vi duas coisas que me fizeram pensar. Primeiro uma manchete na internet sobre os idosos e a sua incapacidade de mentir. Tá, não era bem assim, era tipo: "idosos não mentem". O que não é o mesmo, mas é quase igual como diria o Chico. O de Holanda para quem não referenciou.  Sei lá as mudanças são tão rápidas que mesmo o Chico que era unanimidade acaba sendo esquecido.  Voltando, idosos perdem a capacidade de mentir. Sabe que faz sentido. E me veio a mente que crianças e idosos se parecem tanto. Tanto um quanto o outro enxergam o essencial da vida. Adultos mais maduros vestem capa de responsabilidade, deixam que o essencial lhes escape da ponta dos dedos. Dizem nãos quando morrem de vontade de dizer sim. Dizem sins que seriam...