segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Vibrando em afinidade - focando no que nos aproxima

Uma vez, muitos anos atrás, li uma frase que me impactou. Dizia mais ou menos assim sobre as manchetes de violência que se liam nos jornais: Triste o dia em que as boas ações sejam manchete. Será sinal de que deixaram de ser normais e passaram a ser exceção.

Pois não é que esses dias chegaram. Hoje as manchetes que nos chamam mais a atenção falam da bondade mais que do cinismo. Mais da generosidade que do egoismo. Parecem tão inusuais!

Teremos chegado àquele ponto em que embrutecemos? Quando foi que as boas ações passaram a ser atos que deixaram o limite da normalidade? Onde deixamos de focar no lado positivo da vida para nos ater ao que nos distancia dos outros seres humanos?

Problemas sempre existiram. Eu, na minha curta vida em termos históricos, embora longa para mim, me lembro de várias crises. Pontos de desesperança na economia, pontos de medo na vida mundial. Cresci na guerra fria(**), eu tinha medo que houvesse uma cisma entre o americano de plantão e o russo de então, que um ou outro, ou os dois acordassem de mau humor e apertassem aqueles botões que em poucos segundos iria destruir tudo o que conhecemos e a civilização terminaria em pó. Radioativo.

Uma das minhas fantasias na época era vagar por uma cidade vazia. Tudo à minha disposição: lojas, bibliotecas, ruas. A única coisa chata era não imaginar as pessoas amadas junto. Isso me lembra uma série que vi, acho que era inglesa, sobre uma guerra assim onde tudo virava de cabeça para baixo. Os valores acabavam, os mais fortes ou mais espertos assumiam o poder. Tudo muito impactante para quem foi criada acreditando em leis e obediência aos ditames da sociedade ocidental. 

Por sorte (minha) tanto meu pai como minha mãe tinham tido lá os seus perrengues com a Igreja Apostólica Católica e não nos criaram com os dogmas de pecado que a cultura judaico-cristã tanto adoram. Não, não eram ateus. Muito pelo contrário. Eram boas pessoas. Praticavam boas ações, nos ensinavam que Deus estava em todo lugar, que pecado era fazer algo contra alguém intencionalmente. Mas não nos obrigavam a seguir rituais que eles mesmos não seguiam. Isso foi tão bom na minha vida. Me poupou anos de análises e neuras que via em muitas amigas.

Sempre acreditei que somos feitos à imagem e semelhança de Deus. E por isso mesmo, maravilhosos. Li a Bíblia muito pequena. Com um viés histórico. De certa maneira, nos passaram suas dúvidas e questionamentos, mostrando que nós podíamos questionar, ter dúvidas e que as certezas podiam ser analisadas, refletidas e questionadas.

Não acho que tenha me tornado uma má pessoa por não ter ido às missas, não ter me ajoelhado e batido no peito. Não me considero uma pecadora por nascimento e a figura do Cristo que admiro tem mais a ver com o contador de parábolas que aquele morto na cruz. 

Enfim, religiões a parte, vejo com receio essa crescente necessidade de manchetes de boas ações. Me recuso a acreditar que são a minoria. Prefiro crer que estamos demasiadamente focando no que nos separa como seres humanos, do que no que nos aproxima, como bem disse uma amiga esses dias. 

Palavras tem poder, diriam livros de auto ajuda e religiões. Palavras podem vibrar com afinidade, diz o Kototama, segundo outra amiga. Talvez as manchetes de bondades queiram exatamente reforçar essa humanidade que anda meio que em baixa. Talvez ela esteja apenas latente, esperando nossa disposição de deixá-la sair em nossas atitudes diárias. E em nossas palavras cheias de alma.  


**  PS: como pura curiosidade para entenderem a paranoia dos anos em que fui adolescente, achei esse conto que escrevi em 1971. Tinha 14 anos. 
  

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Snaps da solidão

Gente sozinha gosta de falar muito. Eu tinha uma conhecida que morava só, já com muitos anos de estrada, que mal me via despejava toda uma torrente de fatos que lhe tinham acontecido. Eu, na pureza dos anos tenros, achava meio cansativo.

Não me levem a mal. Não era má vontade de escutar. Era cansaço no ouvido. Eu tinha que fazer um exercício de meditação. Desligar o áudio, descansar o ouvido e mente para que pudesse restar um pouco de sanidade.

Mas isso foi obviamente antes da era das redes sociais e smartphones. Hoje a inundação de informações, relevantes e nem tanto, abobrinhas e mesquinharias, belezas e sensibilidades são jogadas sobre nós a uma velocidade estonteante. 

Já não nos basta navegar, encontrar amigos, postar nossos sonhos, comidas e atos. Não. Queremos atenção. Queremos curtidas. Queremos ser ouvidos.

No início da era das redes sociais, era tudo tão libertário. Uma nova realidade onde todos poderiam estar conectados. Pelo menos todos os que pudesse pagar por isso. Mas não haviam tantos filtros, não havia tanta segmentação. Havia uma ideia tênue de que a humanidade estaria finalmente em sintonia de comunicação.

Mas aos poucos fomos sendo cerceados. Os jovens fogem das redes conhecidas. Se reúnem em plataformas que lhes garantam estar entre os seus. A humanidade volta a se tribalizar. 

Tá bom, nunca deixou de ser uma reunião de tribos. Mas por segundos pareceu que não. 

Hoje bomba o snapchat. Se eu fosse definir diria que é o BBB virtual. É um local onde se pode expor nossas vidas já que daqui a segundos (ou 24 horas) aquilo vai virar pó. #SQN

Nada vira pó na internet. Muito menos a nossa necessidade de falar da nossa solidão. Porque na verdade quem vive de verdade, não tem lá muito tempo de ficar postando o que come, onde passeia, o que faz. Fora os que ganham dinheiro com isso - e não são poucos - os outros são mais ou menos como a senhora de quem falei no início: Na falta de quem escute ou conviva, precisa ser uma cachoeira de palavras para o primeiro que a escutar. Eu inclusive.


domingo, 1 de novembro de 2015

Meu primeiro assédio

Impressionantes os relatos que tenho lido de mulheres de todas as idades e posições sociais com a hashtag "meuprimeiroassedio" (ou também #primeiroassedio). O que mais me impactou não foram apenas os relatos, mas a quantidade e "coincidência" de atos. 

Fica escancarada a permissão para que os "machos" se sintam a vontade para cantar, passar a mão, expor seus desejos, gritar suas vontades, como se as mulheres, não importando a idade, estivessem ali apenas para satisfazer os seus instintos.

Mais cruel é ver como homens dito adultos, alguns com fama e talvez com algum tipo de educação formal, se sintam a vontade para expor a sua falta de empatia com as mulheres que foram vítimas e que se armaram de muita coragem para expor isso publicamente.   

Sim, é preciso coragem para expor algo que deveria envergonhar quem praticou, não quem sofreu. Isso mostra o quanto essa cultura que tudo permite aos homens é cruel. Meninas aprendem desde pequenas que devem se esconder, devem se resguardar, devem ser direitas e mudas. E sim, até hoje ainda aprendem isso.

O que vou contar são dois casos que nunca contei para ninguém. E me marcaram de maneira não agradável.

Quando eu tinha uns três anos costumava brincar com amiguinhos. Vizinhos de casa. Éramos como irmãos. Calor, no quintal da casa, todos de calcinhas ou cuecas. Crianças. Numa dessas horas, um deles, não lembro se mais velho, mas não muito, falou ao ouvido do meu amigo do peito algo. Os dois mais que ligeiros se aproximaram e baixaram minha calcinha. E riram muito. Ah, mas foi brincadeira de crianças, dirão alguns. Não. Para mim não. Me senti agredida. Não foi inocente. Não passou disso porque saí muito rápida e magoada. E não contei para ninguém. Alguém educou esses meninos para que assumissem que poderiam fazer isso. Alguém me educou para calar se algo assim acontecesse. 

Quando eu tinha uns dez anos morava já em Porto Alegre, ao lado da Catedral. Um dia subia a rua que era uma ladeira. Ouvi um homem adulto atrás de mim dizendo algumas palavras que não sabia o que eram, mas de alguma maneira intuía que não eram adequadas. Me lembro do susto e do passo apressado. Era dia e por isso acho que não passou disso, ele apenas repetia aquelas palavras que deviam lhe causar alguma espécie de prazer e que a mim assustavam. Corri para casa e para o dicionário para saber o que eram. Não pensei em repetir para mais ninguém. Em algum lugar da minha mente me ensinaram que era muito feio até para repetir.

Porque me armei de coragem para falar isso? Para não me eximir. Para não deixar em branco. Para que cada um pense sobre o que está passando ao seu filho pequeno quando o manda ser garanhão. Para que cada um reflita.     

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Fui comprar tênis e saí de sapatos vermelhos

Dia complicado. 

Fim de mês. Auto estima em processo de reencontro. Mas bem no comecinho, saca? Mais prá menos que prá mais. 

Junta burocracia e um monte de coisas para fazer. Justo aquelas que a gente detesta. 

Resumo dos meus últimos dias. 

Juro que estou tentando. Tentando focar. Tentando me organizar. Tentando não ser paranoica e achar que (quase) tudo está dando errado. 

E o pior!!!! Já passei da menopausa há muitos anos. Então nem sobre ela posso julgar a culpa. Não há chocolate que passe. Ao contrário, só vai aumentar o peso.

Pois foi nesse dia, depois de um chá de banco em um Banco, que fui comprar um par de tênis.  

Não que eu seja lá muito esportiva. Mas amo tênis sem cara de tênis. De velcro. Preto. O meu está caindo aos pedaços e quem disse que desapego. Não. Não mesmo. Pelo menos até achar outro.

Mas não é todo dia que passo (a pé) por aquela loja. Sempre tive vontade de vasculhar o que tinha por ali. Sempre pensando no tênis. Preto. De velcro.

Não tinha. Obvio. Mas tinha um vermelho. Tênis vermelho. Vá lá, era vinho. Bonitinho até. Mas....

No meio tempo meu olhar caiu em um sapato de salto. Croco. Amo croco!!! É o meu lado perua, confesso.

Obvio que não tinha meu número. Para quem não sabe, calço 33 1/2. Vai achar esse número em calçado brasileiro. Não tinha o croco bege que vi. Bege é a minha cara, né. Sempre discreta.


Tinha vermelho. Croco. De salto. E vermelho. 

Saí com ele. 

Fui comprar tênis e saí de sapatos vermelhos. 

Me senti maravilhosa. Meio cigarra. Meio menina que dança com sapatos vermelhos. Meio sem noção. Meio gente que escolhe dar um basta na mesmice do dia e sai dançando na chuva.

Sapatos vermelhos. 

E ainda preciso dos tênis.   

sábado, 24 de outubro de 2015

Cultura do OU - o caminho é agora

Verdades e certezas absolutas. Estou fora. 

A gente constrói nossas vidas em escolhas e esbarramos em encruzilhadas. Ou isso ou aquilo. E muitas vezes temos que optar. Algumas decisões são difíceis, complicadas. Mas delas é feita nossa vida.

Para nos amparar vamos construindo uma rede de certezas. Algumas nos servem agora. Ou nos serviram no passado. É bom ter convicções. Mas para mim cristalizá-las, mantê-las congeladas como verdades absolutas cheira a sectarismo.

Nunca gostei de gurus. Nunca acreditei que devo seguir cegamente algo porque alguém assim pensou alguma vez. Por mais sagrado, inteligente e respeitado seja o texto. 

Não acredito em dogmas. Não sei porque algo tenha que ser isso OU aquilo sempre. Porque não pode ser isso E aquilo. Ser cristão e marxista. Acreditar em meritocracia e cotas. Também vale para o contrário. Aceitar algo do espiritismo, mas não tudo. Vale para qualquer religião. Estar aberto à outras verdades.

Ser gremista e não anti colorado. Ter amigos que creem (MUITO) diferente e mesmo assim amá-los de verdade. Conhecer quem pense muito parecido e não ter nada a ver.

A vida é feita de possibilidades. Quando a gente delimita os caminhos em isso OU aquilo, sempre fecha horizontes.

E o futuro  é feito de folhas em branco prontas para que se rascunhe, escreva, reescreva e repense nossa história. O caminho é agora.

domingo, 18 de outubro de 2015

O que faz você parar e pensar: “Uau!”

Essa pergunta, tipo indagação daquelas que entra dentro da gente, meio sem modos, feito vizinha fofoqueira, me pegou de cheio. Como assim o que me faz parar e pensar: UAU!

UAU é o aportuguesamento de WOW! Que deve vir de wonderful. Wonder, mal traduzindo, é maravilha, milagre, encanto, espanto, enigma, assombro. Palavras que por si só dariam um poema. Mesmo que de pé quebrado.

Maravilha que nasce alegre
Transforma o agora em milagre
Traz encanto
Puro espanto
Puro enigma n'alma
Assombro que não acalma
O que realmente me deixa nesse estado meio bobão? Tirando os óbvios sentimentos de generosidade, paz no mundo, dia de sol e orgasmo com amor, o que me faz parar e gritar UAU passa por:
  •  Um livro magnifico que me arrebata e não me deixa parar até que eu chegue ao final
  • Uma música que me leve sem que eu espere e vá num crescendo até explodir em um acorde final
  • Uma saudade boa de alguém que já não posso ver
  • Alguém querido saber o que quero dizer sem que eu precise dizer. E justo na hora em que eu mais preciso dizer.
  • Chegar a uma solução de projeto quase perfeita. E que se confirma pela satisfação de quem vai usar aquele espaço.
  • Uma noite bem dormida com um sonho perfeito.
  • Um risoto de primeira acompanhado de um bom tinto.
  • Um brilho no olhar ao cruzar o meu.
  • Uma resposta bem dada.
  • Uma roupa linda que entra como uma luva, naquele manequim que um dia foi meu.
  • Uma mesa de queijos e vinhos.
  • Pessoas arrebatadoramente inteligentes.
  • Descobrir uma carta, um cartão, uma foto, qualquer coisa que me fale de amor por mim de quem eu amo. E que eu não sabia existir.   
  • Uma massagem em um dia exaustivo.
  • Um banho relaxante idem, idem.
  • Um brinquedinho tecnológico novo.
  • Uma pesquisa. Não importa se for para descobrir algo, uma pessoa, uma fato. Qualquer coisa que me instigue a curiosidade.
  • Ser lembrada por quem já foi tão importante na vida. Não todos. Só alguns. Os especiais. Que são muito poucos.
  • Escrever um texto bom. As vezes nem precisa ser bom, basta escrever.
  • Estojos de lápis de cor e livros. 
  • Um ombro amigo que me proteja e me faça sentir acarinhada.
  • Viajar. Não importa a distância, não importa o tempo. A companhia importa e muito.
  • Vencer um desafio. Principalmente os mais cabeludos.
  • Resolver um enigma. 
  • Ajudar alguém. 
Tantas coisas, umas tão banais. Outras tão pessoais. Deve haver mais que agora não lembro ou não quero dividir. Meus UAIs não passam por adrenalina. Ao contrário, esportes radicais e tudo o que me tire os pés do chão me fazem ficar nervosa, com medo. E medo não me dá UAU. Não é wonder absolutamente.

Meus momentos mais preciosos passam por sutilezas que não são instantâneas e nem vem de fora. Não se compra em farmácia. Meus UAUs nascem dentro de mim.  

(Projeto 52 respostas em 52 semanas)
 

sábado, 17 de outubro de 2015

Nós, Nozes, Nós

C
Salvador Dali
Nós a gente desata.
Nozes a gente consome.
Nós é que aperta o calo.

Quando tudo derrete ao sol, feito espuma de sabão, a vida vai se parecendo a um enigma mal resolvido. Um clichê barato que mal encaixa suas peças e logo transparece toda uma inconsistência que beira ao non sense.

Talvez o tempo seja assim mesmo. Uma invenção absurda de quem tenta fazer sentido o que pouco tem. Para quem, por acaso, olhasse a Vida de um outro ponto de vista, tipo um avião, se possível fosse, talvez visse tudo como um imenso mundo que coexiste.

Mas Nós, meros seres rastejantes, condenados à procura de substância, nós procuramos encaixes. Por eles nos consumimos. Por eles atamos nós. Por eles vivemos, sobrevivemos. Apesar deles, apesar da falta deles, na verdade. Apesar de.

Sempre me resta a dúvida de que o roteiro talvez seja esse mesmo. Um dramalhão, uma opereta. Talvez nada faça muito sentido. E que nos reste apenas descobrir, nem que seja de muito leve, que a Vida paira bem além de nossos calos.

E que no final, feito fim de festa, vamos apenas nos derreter. E ir findando, findando, até que de nós reste apenas uma lembrança na história de alguém.

Nós, a vida nos traz.
Nozes, vira banquete.
Nós, a gente é quem faz.       

domingo, 11 de outubro de 2015

Frágil que dá dó - sou eu

Frágil. Devo ter sido marcada no bico da cegonha como muito frágil. Tipo: cuidado para não quebrar.

Estão rindo com a história da cegonha. Pois saibam que ela era moda no século em que nasci. Meu irmão foi inclusive no zoo falar com a própria para pedir um irmãozinho. Coitada, devia ser meio surda porque em vez do piá para jogar bola e brincar de soldado, acabou trazendo uma guria loirinha e de grandes olhos castanhos. E cheia de fragilidades.

Mas nem eram essas fragilidades que as meninas aprendem a mostrar, nesse joguinho de gêneros. Essas coisas de frufru e cor de rosa nunca me pegaram. Gostava de princesas sim, mas as minhas histórias eu mudava o enredo para uma mocinha menos dependente. 

Não, essa fragilidade que falo vem de uma percepção de mundo cheia de empatia. Uma capacidade de se colocar no lugar de outro (e sim, até dos que pensam diferente). Um defeito de fabricação que me faz meio torta, meio sem noção de comportamento. 

Não, não sou rebelde. Pelo menos não para fora. Sou só diferente. Meio quietona. Meio na minha. Meio sentimento em grau hiper mega blaster. Meio sonhando com utopias e quimeras. Meio assim.

De vez em quando esse sentimento todo transborda. Me sinto um "pote até aqui de lágrimas", choro sozinha. Fujo para que não vejam que meus olhos brilham sim, mas de tristeza. Uma tão profunda que dói. E a vontade é de sumir desse palco vagabundo, encerrar a cortina e dar meu adeus silencioso.

Mas....em algum lugar, lá no fundo, reside também uma coragem e uma idiota de uma esperança que faz tudo passar. Dentro de mim. Coisa mais boba, mudo eu para então o mundo começar a mudar para mim. Quase sempre funciona. Acho que deve ser mágica. Sei lá.

domingo, 4 de outubro de 2015

Até porque SOMOS fodas


Mulheres cansadas
Fodonas! Já disse que não sou. Pelo contrário. Sou até bem bobona. E essa coisa do ONA vem como rótulo quando a gente passa de certa idade. A não ser que sejamos uma Cláudia Raia da vida que passava dos 1,80 com tenra idade. 

No começo somos inha. Bonitinha, gostosinha, queridinha. Depois passamos aos adjetivos simples: bonita, gostosa, querida. É quando a gente vira ONA que a coisa começa a pegar. Igual quando nos chamam de tia pela primeira vez na rua. Tia, me dá um troco? Como assim moleque, e eu lá sou tua parenta? ( e eu já usava parenta antes da presidenta, então nem vem com piadinha infame, ok).

E o ONA....a gente posta uma foto nas redes sociais. E lá vem os cumprimentos de praxe: Tá bonitONA, ein? Pronto! De duas uma, ou estamos além dos quarenta ou estamos quilos acima dos modelos das semanas de moda. Ou o pior: os dois juntos!!!!!

Lá vamos para o espelho olhar se as rugas estão aparecendo demais, se os pneus e culotes estão tão visíveis, se os terríveis cabelos brancos teimam em aparecer altaneiros e espevitados. (sim, cabelo não basta ser branco, tem que se postar ereto como se 40 séculos de história estivessem ali para contemplá-lo).

Ideia imediata: regime de fome e academia. 

Mas ai!!!! Já se passou da idade de fazer sacrifícios para emagrecer. Já se está na idade em que comer se torna um dos maiores prazeres. Algumas vezes o único. Tá, não serei tão dramática. Talvez o apelo mais forte seja o bolso. Mais barato emagrecer que comprar todo um guarda roupa novo...

Academia? Circuitos, beber Whey ou seja lá como se chame. Tudo parece um código que não se domina. Ainda mais quando se detesta repetições, se tem ojeriza de esteiras e pensar em correr já dá calafrios. Melhor esquecer o elevador e subir escadas. Mesmo que se more no nono andar!

Não, opa. Não é bem assim. O tempo, o costume, sabe como é. O dedo vai no automático e a botoeira está ali mesmo. E como tirar a selfie do elevador se não anda nele? Melhor mesmo deixar o carro em casa e andar. Por sorte sempre tem algo que a gente gosta de fazer. Santo Pilates!   

E aí a gente já começa a achar o ONA mais simpático. Bonitona, gostona, queridona. Soa como um elogio com consistência. Melhor que o inha. Inha era do tempo em que a gente não se conhecia tanto. Não tinha domínio de nossas fraquezas. Domínio da força e das qualidades é fácil, baby. Vencer com o corpicho duro, seios eretos e com o talento natural é moleza. Quero ver levar adiante com o colágeno em queda, administrando as fraquezas (a gente não as vence, na maioria dos casos, a gente aprende a fazer delas aliadas). A gente aprende a se conhecer, a lidar com os nãos, com as perdas, com a proximidade do fim. E essa corrida ninguém vence. E aí a gente sabe que não importa a chegada, importa é ter fôlego para levar o circuito com um sorriso nos lábios e com prazer. Seja de tênis, rasteirinha ou salto alto.

E aí sim, chegamos a conclusão que sim, SOMOS todas fodas, como bem disse a amiga e inspiradora do nome do blog, a  Claudia Giane. 

E somos fodas porque sempre podemos mais.
Mulheres emponderadas Monica Crema
Monica Crema

sábado, 3 de outubro de 2015

Hoje só finjo ser boba #SQN


Hoje só finjo ser boba  #SQN

Confesso: sou boba sim. Sou ingênua, olho o mundo com jeito de Poliana. Tenho o incrível defeito de tentar enxergar o lado bom de tudo. Além de um capacidade empática que me faz entender o ponto de alheio. Às vezes ele se choca com o meu. Mas o meu lado bobona me faz meio desprotegida para ser fodona. Sabe aquele tipo que sou mais eu e o resto que se ferre? Pois é. Não sou assim. Para mim esse tipo ainda leva o nome de egoísmo por mais que as novas terapias e jeitos de ver o mundo o glorifiquem.

Perante nós mesmo todos fingimos ser mais ingênuos do que somos: é deste modo que descansamos dos nossos semelhantes. Friedrich Nietzsche
Mas e quando eu me flagro da bobice de ser boba, me desestabilizo. Desmorono.

Talvez, um lado interno grita, seja melhor crescer e ver o mundo de maneira mais pragmática. É uma selva, está aí para que a gente encontre a melhor maneira de sobreviver. A nossa maneira. Não importa o quanto custe ao outro.

Mas não. Minha bobice vai sempre gritar mais alto e me fazer querer ajudar, entender, compartilhar.

Quem sabe um dia eu aprenda a viver melhor. Até lá vou enxugando os espinhos, tomando café e seguindo em frente. 

Porque na ingenuidade tudo é de ordem emocional. Tudo. O que não acontece com as outras espécies de conhecimento onde tudo é de ordem intelectual. Na ordem intelectual é possível reatar um caminho que se rompeu. Na ordem emocional, uma vez roto o caminho, já nunca mais se encontrará sequer aquela ponta por onde se rompeu.

Almada Negreiros, in "Ensaios"

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Buscando no passado


Levei a sério a recomendação de não escrever com pressa. Aliás, ando em ritmo de slow way of life. Triste isso de se acostumar a falar expressões em inglês, mas fazer o que. Não dá para ter tanta xenofobia e sem apelar aos parcos conhecimentos da língua inglesa fico sem poder me comunicar na internet. E olhe que os meus conhecimentos se encolheram nos últimos anos. Tenho que
aprimorá-los urgentemente  !

Mas prosseguindo, além das recomendações da amiga que cronometrava as minhas refeições, fui ler um livro que ela me emprestou chamado : Autocuraterapia: Transformação Homeostática pelo tratamento independente de Tomio Kikuchi. E deu um clique ! Sabe como é quando essas coisas estalam na cabeça da gente, a gente assimila não só com a cabeça, mas com a vontade. E desde daí (deve fazer uma semana) estou comendo super devagar, mastigando bem. Nos primeiros dias acharam que eu estava comendo demais. Agora já se acostumaram. E como toda transformação nunca vem sozinha, também estou tentando um meio mais baiano de ser. Não que eu seja uma pessoa agitada, longe disso. Mas tenho um apressa-te bem saliente dentro de mim. E ainda adquiri um péssimo hábito com a internet de linha discada. Uma leitura dinâmica muita da vagabunda que só passava os olhos por cima e não se aprofundava na leitura... Estou tentando baixar umas leituras para me aprimorar um pouco. E agora pretendo focar um pouco mais. Estudar um tema por semana já seria de bom tamanho. Mas preciso ao mesmo tempo dar um trato no Tico e no Teco para que eles assimilem mais o que leem...

Sabes que essa opção por tratamentos mais naturais aos olhos de terapias orientais e uma visão mais ampla e ecológica das questões da vida nos levam a adotar escolhas que são subversivas aos nossos padrões consumistas. A gente diminui o leque de opções no super e paulatinamente passa a adotar feiras alternativas de produtores que não usem agrotóxicos. Como tende a não adoecer tanto, não toma tantos remédios e não abastece a indústria farmacêutica. E como fica mais leve, acaba por não consumir violência e encontra mais tempo para ler. E consequentemente tende a elaborar uma forma mais independente de  pensamento. Tudo o que o status quo não quer. Este alimenta nas pessoas uma pretensa rebeldia de usos e costumes que cria tribos de comportamento semelhante, ao invés de indivíduos aptos a trocarem especifidades.

Perdi o Capra ! E olhe que comecei a ler o cara em 87. Ponto de Mutação. Na época, ainda era uma grande novidade e fechou com tanta coisa que acreditava. Ou sabia inconscientemente. E me parece um caminho natural se chegar a uma consciência de mundo mais integrada, mais holística se se percorre a trajetória que o Capra percorreu. Um mundo interligado e mutável, dinâmico e vivo. Quer exemplo maior do que a internet, pura. Não que a tenta ser controlada, mas a que possibilita esse contato inimaginável entre bilhões de seres humanos em toda a terra, em tempo real ? Vivemos uma transformação que não podemos dimensionar. Mas podemos vivenciar. E saber que mais pessoas pensam como nós. Ou quase. Que, como diria o Chico: não es lo mismo, pero és (casi) igual. 


Beijos

Elenara (2006 - resgatando antigos emails. É um bom exercício de ver conseguimos manter a coerência)

domingo, 27 de setembro de 2015

E a filosofia, quem diria, começou no fogão

Monica Crema

Já sentiram aqueles momentos em que a energia parece ter chegado ao nível mínimo de sobrevivência? Como o carro que está na última gota? Aquele momento, não patológico, onde tudo o que se precisa é parar em algo, alguém, qualquer coisa que nos recarregue já que nem no tranco pegamos mais.

Estava assim semana passada. No limite do limite. Não é muito comum que eu chegue a tanto. Em geral antes disso eu consigo reagir, me puxo de alguma maneira e levanto.

Esse alguma maneira quase sempre envolve criatividade. Escrever em geral é certeiro. 

E hoje, lendo o jornal, sobre "o que o nosso cérebro faz por nós", achei um dado interessante. Ali diz que uma das teorias que talvez expliquem o nosso maior potencial cognitivo seja a ideia de nossos ancestrais de cozinharem o que comiam.

Como assim? Nossa imensa tecnologia e nossa civilização moderna se devem à comida???? E ao fogão??? E eu achando que a maior invenção tinha sido a roda.

Pois o artigo diz que o tempo que o cérebro levava para administrar a comilança dos crus internamente foi muito diminuído com a ingestão de alimentos cozidos. E esse tempo pode ser melhor aproveitado em outras tarefas mais "nobres". Falar e filosofar, por exemplo.

Achei que tinha lógica. 

Eu mesma (baita redundância, eu seria quem mais????) gasto um tempo e energia imensos minhocando neuras internas. Essa energia vai sendo gasta em intermináveis diálogos e DRs de mim para mim. E também na administração do que sou obrigada a fazer e que não me é natural.

Ah! Se ao invés de fazer isso, eu achasse um "fogão" que cozinhasse as neuras seria mais feliz! (sim, já fiz terapias. Sim, me analiso. Não, não tomo tarjas pretas)

Meu fogão salvador, por enquanto, se chama falar com alguém que escute e receber muitos abraços. Tem ajudado.

E vocês? Cozinham como?  

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Pitacos de elegância

Cada vez mais me convenço que elegância tem a ver com atitude, personalidade e simplicidade.

Tudo o que vemos na mocinha acima. Aliás considerada um dos símbolos da elegância no século XX em nossa cultura ocidental. Audrey era elegante de Givenchy ou Dior. E também era elegante de sapatilhas e roupa preta. Ela era.

Pessoas que são. Gosto. 

Mas como assim? Tem gente over. São elegantes? Para mim são. E aí cabe uma ressalva: o que em mim pode ser elegante, em outra pessoa não. E vice versa. E demais a mais, roupa é acessório. A elegância mora dentro de nós.

A minha, por exemplo. Não passa por muitas compras. De roupas jamais. Mas quando compro gosto de coisas boas. E clássicas. Duas razões: coisas com qualidade são em geral mais duráveis. E as clássicas também. 

As estampas cansam. Acho lindas, mas não dá para repetir toda hora. Senão pelos outros, por mim que detesto muita repetição. Mas uma calça de alfaiataria ou um jeans e uma blusa lisa podem ser repetidos e repetidos, com a inclusão de acessórios diferentes. Resultado: parece que a gente tem muita roupa e sempre está bem vestido. Para mim, melhor o menos. Sempre.

Um cabelo bem cortado e um bom sapato levantam qualquer pretinho básico. Mas não há nada que ilumine mais o rosto de uma mulher que um belo sorriso. Se for seguido de simpatia, gentileza e educação então, a tornam estonteante. Homens também.

Listras e floreados. Dá para misturar? Dá sim. Com bom senso. Apesar da Adriana detestar o bom senso, ele ajuda bastante na vida. Até ela anda com um look mais comportado nos últimos tempos. Bom senso?  

Outra coisa que ajuda muito é estar em harmonia consigo. Pessoas harmônicas se cuidam. Não comem por compulsão. Não descuidam do corpo/mente. Pessoas harmônicas se amam. E pessoas que se amam são generosas consigo e com o mundo.

Generosidade é o supra sumo da elegância. Saber ouvir com atenção. Reter a tentação de dar pitacos a torto e a direito sobre o problema dos outros. Ensinar, abrir espaço, compartilhar. Compreender que ter personalidade NÃO é sinônimo de grossura ou egoísmo. 

Gente elegante chora. Sorri. Se doa. E até puteia. Tudo com verdade e na hora certa. Para a pessoa certa. Não fica ruminando pelas costas. Não trama mesquinharias. 

Nada mais deselegante que gente mesquinha.

Burrice também não rima com elegância. Burro não é quem desconhece algo. Burro é quem não busca conhecer. Quem se aferra às suas verdades como dogmas absolutos. 

Elegante é reconhecer quando se está errado. Elegante é ter bom humor e saber rir de si mesmo. Elegante é saber manter o brilho no olhar. É saber ser responsável pelo que escolhe. E pelo que vive.

Tem receita essa tal de elegância? Não creio. Ou por outra, ela talvez se encontre dentro de cada um de nós. Pronta para ser descoberta.


    

domingo, 20 de setembro de 2015

Aleatoriedades

Aleatoriedade.

Gosto dela. Sempre usei essa coisa de ir à biblioteca, pegar um livro ao acaso e ler uma frase. E imaginar que ela me traz uma mensagem direta. 

Como assim??? O Universo agindo por sinais, uma energia inteligente que age? Ou o acaso sendo canal de meu próprio olhar?

Já falei sobre isso em Intuição e/ou energia - experiências e Sincronicidade, viagens e aprendizados

 A palavra aleatoriedade é utilizada para exprimir quebra de ordem, propósito, causa, ou imprevisibilidade em uma terminologia não científica. Um processo aleatório é o processo repetitivo cujo resultado não descreve um padrão determinístico, mas segue uma distribuição de probabilidade(fonte)
Um padrão é uma forma cômoda de seguir a vida. Tendemos a fazer os nossos e nos recolhemos à eles como fazemos com chinelos velhos e gostosos. Nos dão segurança. Sabemos que funcionam. 

Funcionam? Até por aí. Funcionaram. Funcionam hoje de alguma maneira....

MAS
Não seria interessante ver de um outro jeito???? Com outro olhar??? E não é que a aleatoriedade nos ajuda (e muito) nessa tarefa.

Fazendo o desafio lá da imagem, pego um livro, abro na página 63 e leio:

O que não fui capaz de escrever terá que ser perdido. Não dá mais para voltar atrás. Só o presente me interessa. O humor presente é tudo para mim. (Anais Nin - Fogo)
Talvez explique a apatia de escrever que tem me acometido. Talvez minhas certezas e verdades que me impeliam a jorrar para fora estejam em novas ebulições. O presente me espera. O que me trará não sei. Talvez a coragem de me abrir ao novo. 

sábado, 19 de setembro de 2015

O que a maturidade me ensinou

maturidade
FONTE
Maturidade. Aquela palavra que define quando chegamos a um equilíbrio entre coração e razão. 

O coração é o pé no chão, é o que brota de dentro quando marcamos território. É meu e foda-se o resto.

Quanto começamos a mensurar o sentido do foda-se e principalmente se estamos preparados para pagar o preço e a partir daí definimos nossas escolhas, conscientes e com responsabilidade, podemos dizer que estamos começando a ficar maduros.  

Mas então cara pálida (e sim, estou branca pra caramba, falta de sol, etc, etc) essa tal da maturidade é um pé no saco. Não. Absolutamente. Apenas te faz uma pessoa e não uma criança birrenta.

Um exemplo pessoal que lembro até hoje. Sou solteira até hoje por ene razões. Agora já desencanaram de me cobrar. Menos minha mãe. Mas enfim, houve épocas piores. Pelos meus vinte e poucos anos, uma senhora que gostava muito e que já se foi, me perguntou se não pensava em me casar. E eu, na arrogância natural da idade, disparei uma frase: "Enquanto não tiver condições financeiras de tirar um moço de família de casa e lhe dar boas condições de vida, não casarei". Ela ficou muda. E eu orgulhosa da minha pretensa esperteza. 

Hoje, olhando e repensando o passado, vejo que fui apenas grossa. Se a resposta fosse para uma jovem como eu, talvez até coubesse. Mas ela não me queria mal. Apenas replicava seu modo de pensar. Hoje responderia diferente. Mais madura creio. 
maturidade
FONTE
Mas isso não tem a ver só com idade. Conheço gente madura aos vinte. E imatura aos quarenta. Admiro os equilibrados. Os que conseguem equilibrar as loucuras que o coração pede com as ponderações de como lidar com elas.

Sim, há loucuras que a gente só faz com maturidade. E se tem uma coisa que aprendi é que quanto mais o tempo passa, mais as pessoas se aproximam do essencial para elas. Pessoas de mais idade que mandam às favas as convenções e só convidam quem querem para suas festas. Mesmo que signifique não chamar irmãos, vizinhos ou chefes. Acho isso uma conquista de vida. 

Compreender as suas necessidades. Se gosta de festa, se gosta de ficar na sua. Enfim, maturidade tem a ver com aceitação de si. E a sutil compreensão que essa aceitação não precisa ser imposta aos outros por atitudes e/ou palavras.

Basta ser. E estar em paz consigo.
maturidade
FONTE

domingo, 30 de agosto de 2015

A verdade é urgente. E nada elegante

Quando uma foto fala por si. Conta história. A sua história.

Não importa se ela é real hoje, se já foi um dia. Ela entra no seu olhar, se instala por dentro do seu corpo. Te magnetiza e parece gritar para que voltes. Voltes a derramar a tua presença em algum tempo em que foste gente.

Ser gente. O que é isso mesmo? 

Tão esquecido em ser alguém outro. Alguém que corre. Alguém que faz. Alguém que noves fora se perdeu de si mesmo.

Perder de si. Tanto tempo a fazer pelos outros, tanto tempo a abdicar de gostos, vontades e desejos para ouvir, atender, dedicar. O resultado: uma certa falta de brilho no olhar. Uma quietude que não é harmonia. Uma mansidão que não é de alegria. Uma sensação de tanto fez como tanto faz. Afinal a vida é breve e meio sem sentido. 

Um dos primeiros sintomas dessa falta de sintonia com a vida é a falta de criatividade. Ou por outra: a criatividade existe, ela borbulha, fala ao ouvido. Falta é o tesão de colocar em prática. Aquelas ideias que invadem a mente, textos magníficos escritos na cabeça enquanto se caminha, se transformam em nada na frente de uma folha, de uma tela. Parece que perdem o sentido. Resultado: nada a dizer. 

Como assim, nada a dizer? Tudo a dizer. Essa lágrima que teima em cair te diz isso toda vez que fica só. Esse cansaço permanente, essa dor no peito. Tudo grita. Só a voz silencia. 

Talvez a foto que te chama queira dizer que exatamente isso: volta. Vem ser aquele eu que era pura verdade. Vem ser de novo aquela pessoa que sentia, que vibrava. Que ia atrás do queria. Que vivia. 

A gente bem que tenta passar adiante. Posta a foto de bom humor, de mensagem pra frente na rede social. Pura balela. 

Aquela foto que te magnetiza continua a te chamar. A verdade não é simpática nem elegante. Ela te esbarra. Te chama. Se passas em frente, ela volta e dá um encontrão. A verdade é urgente.

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Basta ter ideias

Frase de Neruda - escrever é fácil
Escrever é fácil, já dizia alguém que dominava a arte, um tal de Pablo Neruda.

Basta ter ideias para colocar entre a maiúscula inicial e o ponto final. 

Já para a Clarice Lispector não havia necessidade nem da maiúscula inicial. Bastavam as ideias que podiam começar com uma virgula e terminar com dois pontos e deixar que o leitor divagasse.

De repente me veio a ideia maluca que isso podia ser um contraponto de visões masculina e feminina. Ainda não suficientemente elaborada para que discorra sobre ela. Enfim, não importa como comece nem como termine. O que realmente importa são as ideias. 

Assim como na vida. Com a diferença que a vida é mais surreal e mais surpreendente que a literatura.

Pensem bem, se não fossem as ideias de cada um, todos os livros, enredos e vidas seriam iguais. Um começo e um fim. Pronto. Sem mágoas, sem depressões, sem paixões, sem revoluções. Apenas começo e fim. 

E bem sem graça também. Imaginem que nem haveria espaço para bibliotecas. Quem haveria de querer guardar uma sucessão de começos e fins? Talvez algum burocrata que viesse a fazer tratados de como começar e de como terminar. É, acho que ainda nos restaria alguma esperança de que esses tratados virassem ideias e recheassem os começos e fins.

O que me leva também a ter algumas ideias. Começar e terminar são processos relativamente simples. Ter ideias e fazer delas algo realmente interessante, nem que seja para nós, é outra história. Exige mais conteúdo, exige mais reflexão. Exige um posicionamento que faça de nossas ideias algo que mereça ser preservado.

Muito bonito para a história pessoal de cada um. Nossa vida e memória a preservam. Com sorte, algo que pensamos e fizemos fica também na vida e memória de alguém que a reconta. 

Para a literatura, para a História é um pouco diferente. As ideias tem que impactar mais pessoas. E além desse impacto, elas tem que ter cadência, tem que ter ritmo, tem que envolver e fazer com que sejam lidas. Se forem devoradas tanto melhor. Se forem recontadas, criticadas, faladas e propagandeadas se atingiu o sucesso.

Ideias. O mundo é feito delas. Impossível viver sem. Nem que seja para escrever um blog sem pretensão. Que dirá para viver.

 

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Imaginação

Imaginação.

Sim, mulheres imaginam. E isso faz muita diferença. 

Como imaginar que não vai haver sempre uma DR na vida de uma mulher. Afinal elas imaginam.

Tudo.

Mesmo o que você não fez. Mas queria fazer. Elas sabem.

Me lembro da minha imaginação. Primeira de mulher que nascia. 

Além dos olhares para alguns coleguinhas de escola e paixões platônicas por artistas de série de sci fi na TV, minha experiência com o sexo oposto era nula.

Tinha doze anos. E imaginava.

Mas tinha amigas que não. Elas faziam! Falavam de beijo na boca. Mas não um qualquer: beijo de língua! Era o máximo da ousadia nos idos de 70. Acho eu. Na minha imaginação.

Era época de liberdade sexual, mulheres já tinham queimado o sutiã - e eu queria muito não ter peitos para não ter que usá-los. Nunca mais.  

A pílula tinha chegado, trazendo uma possibilidade nunca antes vivida pelas mulheres. Não sem muitos cuidados e sustos.

E eu ainda não tinha beijado. E nem iria pelos próximos seis ou sete anos. Mas já tinha ouvido a colega falando da sua experiência. Beijo de língua!
Isso acirrou minha imaginação. 

Escrevia histórias de amor. Imaginava situações. Criava. criava. criava....

Muitos anos depois, já passada pelo primeiro beijo (Que foi bom. Tecnicamente bom. Mas não enebriante....) um namorado, sobre meu terceiro ou quarto beijo na vida, me disse que eu beijava muito bem, que devia ter muita experiência. 

Aí aprendi que não, homens não tem imaginação.  
  
Frida colorida
Frida imaginativa

domingo, 19 de julho de 2015

Pica minha alma

Sem explicações

Não para a vida
Não para a morte
Para esse tempo que machuca
Para essa espera angústia

Não para essa porra
Que ensinam como certo
Que enfiam goela abaixo
Manual de ser certo

Não para o medo presente
Não para o futuro brilhante
Não para o passado humilhante
Não para tudo que cansa

Não, mil vezes não.
Chega da boa mocice
Basta da auto ajuda viciada
Da vida queria apenas
Que passasse assim tão ligeira
Sem pergunta
Sem cobrança
Apenas coisa molenga
Das que viram presença
Das que nunca cansam

Elenara Leitao


Farol me guia




Borrasquento 
Lascivo jorro
Choro
Grito
Morro

Acordo luz
Teu farol em mim
Acende rotas
Acena caminhos
Aponta 

Sigo


Acordo molhada
Envergonhada 
Mentira
Apenas cansada


Chove miúda bruma
Cai em mim
Teu pranto brusco
Adormeço
Sonho
Busco quimeras
Acordo realidades

Elenara Leitão