segunda-feira, 29 de maio de 2017

Assassinei a minha franja

Acordei com essa fúria que acomete as mulheres (algumas) quando tudo parece meio nebuloso e o rosto do espelho não traz alívio. Coloquei de lado minhas dúvidas, me armei de uma tesoura afiada e cortei sem dó nem piedade....

Não foi a primeira vez.
Além das bonecas que sofriam operações com caneta tinteiro de injeção e cortes radicais em seus cabelos que nunca mais cresciam, também fiz isso com a minha franja. Tinha cinco anos se muito. Minha mãe tentou arrumar como deu, mas a foto colorizada eternizou aquele caminho de ratos ad eternum. E nem internet tinha na época.

Devia estar no DNA. Minha irmã fazia maestrias com bobs e escovas. Mas também algumas experiências inovadoras. Uma tinta meio fora de validade (na verdade não tinha isso de validade naquela época) tingiu seus cabelos de verde. No dia do baile de escolha da Miss RS 1963, aquele que ia consagrar a moreninha Ieda Maria Vargas, que seria coroada como Miss Brasil e Miss Universo logo em seguida. E minha irmã de cabelo verde!

Obvio que ela resolveu, nem sei como. E nem por isso deixou de fazer muitas e muitas experimentações estéticas. Sempre foi de se arremessar na vida.

Eu nem tanto. Sou a mais básica dos irmãos. Compro livros em vez de roupas. Mas tenho uma vaidade. Meus cabelos.

E acabo de assassinar minha franja. Aos 60 anos quando devia ter um pouco mais de bom senso.

Uma nevoa de comiseração quis se abater sobre mim. Mentira. Quis não. Se abateu sim. Foi como se fosse uma versão feminina de Sansão e me tirassem um pouco das forças.

Nesse mesmo instante uma de minhas melhores amigas estava na sala de operação colocando um cateter para aprimorar a quimioterapia de tumores que lhe chegaram quando não deviam. Não ela. Não alguém que sempre foi tão guerreira, tão alegre, tão vitoriosa. Tão cheia de amor que meu irmão, seu marido, a definiu como uma pessoa com uma capacidade infinita de amar. Tão cheia daquela força que me dá a certeza de que ela vai vencer essa batalha.

Eu mal consigo acompanhar sua luta, aqui distante. Devia estar mais perto, ela que tando me auxiliou em momentos tão difíceis. Eu aqui, mesquinha e preocupada com uma franja, alguns fios de uma cabeleira imensa.

Há tanta injustiça na vida, a gente sabe. Por quê ela? Por quê alguém? Por quê a vida é curta? Porquês que a gente nunca tem resposta mas tenta mesmo assim responder. Ou atacar. Ou assassinar dentro (ou fora da gente) para que a Vida pareça mais suportável. 

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