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Mostrando postagens com o rótulo oficina literária

Perdidos e achados

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Perdi a rota/ o rumo a travessa vermelha fumegante cheirando a solidão perdi o tempo de ousar, rotina regrada do bem-fazer Perdi os dedos ligeiros e a paciência (quando me interrompem o fluxo da vida) perdi o gato assustado  e o cachorro carente tão perdidos quanto eu em busca do osso/ do moço/ do caroço da rima imperfeita perdi o sorriso inocente, palavra dura da certeza pronta perdi nacos de mim na tentativa de seguir em frente Perdi estrelas  e Planetas desconhecidos perdi o medo de tentar Perdi a voz úmida/ sumida de medo de gritar perdi a mala miúda jogada na pista perdi voragens / coragens certezas/ sentidos tento entender o que ganhei perdendo Ganhei uma alma sábia que aprendeu que boca calada Não atrai moscas que menina educada não abre brechas que o amor pode ser perigoso que a confiança mora na raiva reprimida

Receita de mulher a três mãos

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  M ULHER Solteira, chorei. Casada, já nem lágrima tive. Viúva, perdi olhos para tristezas. O destino da mulher é esquecer-se de ser. Mia Couto Solteira, sonhei Casada já nem sei Delirei Viúva, lembrei e Fui em frente O destino da mulher é ser ela mesma Uma mulher tem que ter Qualquer coisa além de beleza Qualquer coisa de triste Qualquer coisa que chora Qualquer coisa que sente saudade Um molejo de amor machucado Uma beleza que vem da tristeza De se saber mulher Feita apenas para amar Para sofrer pelo seu amor E pra ser só perdão Vinicius de Moraes Da mulher e suas agruras, tanto receitam nossas dores tanto moldam nossos amores achando que descobrem nossos segredos Mal sabem, incautos, que mulher tem qualquer coisa muito além dos entendimentos qualquer coisa muito além das luzes qualquer coisa que vai além Porque nasceu para gerar gerar vida, gerar amor, gerar ir A vida da mulher para tristeza e choro de muitos não passa pelo esquecimento de si...

Poetas suicidas - exercício de inspiração em poemas

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Uma tarde entre poetas, sabendo de outras poetas, duas mulheres incríveis que escolheram sair da vida na hora que quiseram.  Suicidas. Tema espinhoso. Sendo a vida tão fantástica e vendo mulheres tão corajosas para viverem suas verdades, enfrentando mundos e sociedade, fica mais complexo pensar que elas abdicassem dessa mesma vida que tanto viveram em intensidade.  Quem há de entender os desvios da alma alheia? Quem há de apontar qual o melhor caminho para outros. Uma vez li uma máxima que dizia: posso ver tua ferida, não posso sentir a tua dor . Por mais empatia que tenhamos, ninguém vive a intensidade do sentir do outro.  Fico pensando nas vidas de Alfonsina Storni   e Florbela Espanca , as poetas explanadas. Talvez o sentir tão diferente do comum , as tenha afastado do caminho socialmente mais aceito. Talvez...as respostas só elas tinham.  Pensar sobre me faz pensar sobre todas as mulheres, sua sina, suas rotas e suas narrativas. Me fa...

Sete notas dissonantes

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Eram sete notas dissonantes Naquele castelo de magias Uma sabia a águas Águas mansas que corriam Também redemoinhos Arrastando grilhões A segunda parecia abraço Vó embalando canção Mãe cuidando ferida Amor depois da paixão A outra lembrava fogo Brincadeira de criança Mansidão de ver chamas Calor de multidão A quarta nota diferente Estranhava pela ausência Uma coisa de urgência Aquele aperto sentido Mais vazio que presença A quinta era nuvem no céu Fumacinha de aniversário Era aquilo que fica Depois que tudo evapora A sexta era concreta Feita de aço e coragem Tinha o dom das decisões Daqueles que tomam peito Era dos práticos a nota A última era impronunciável Não tinha forma nem definição Talvez fosse o que se chama Pura intuição Sete notas dissonantes No castelo de magias Formavam uma corrente Na vida que fulgia

Nós mulheres

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Das vezes que abriu os olhos Janelas, sol, gritos Noites insones Mentiras ganhando vida Trabalho Suava e sentia Chorava escondida Como se fizesse diferença Chorar na frente de alguém Como se fosse feita de pedra Não vento e ar Num suspiro tudo mudava O cenário abria e fechava Deixava de ser Maria Virava Anabela Outras roupas no mesmo corpo Sangrava Lua uterina todo mês Era sina Era herança Era coisa de tantas outras Joanas, Luizas e Paolas Umas sem nome Rotas perdoadas Em cruzes perdidas Outras mais felizes Viraram livro na memória Barriga crescia Nova cria Novo suspiro Teresas e Helenas Fios em espera Cios labaredas Das vezes que abriu os olhos Ávida vida a vida Lambe margens Entrega voragens Virago Desfiladeiro Moira me habita Nos habita Nos mora Nós moira Nós mulheres

Quando a vida vem de roldão

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Quando a vida vem de roldão  Traz memórias de outras eras Sigo rumos já traçados Sofro angústias tão batidas Quando a vida me vem de roldão Bato cabeça Nas paredes tortas Respiro águas passadas Aperto histórias vencidas Cabelos, cheiros, cores Tudo amalgamado tão igual tão diferente Ainda bem que a roda passa sorrisos voltam tão diferentes tão pungentes tão sem sentido Tão pouco Clarice No rolar das páginas me dizia o velho mestre de obras as histórias se refazem Sabedoria que invejava Simplicidade de ter respostas Eu nunca Eu só perguntas

Aprimorando a escrita

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Seguidamente vejo postagens em listas de arquitetura de pessoas que desenham plantas, seja em desenho manual, seja em programas cad e perguntam todos faceiros o que achamos do seu "projeto". Parece falta de humildade ou até soberba tentar explicar que um projeto arquitetônico não se faz com desenhos, por melhores que sejam. Há muito mais conteúdo, trabalho, respeito à condicionantes legais, simbólicos, estruturais que fazem do afazer arquitetônico algo mais que simples linhas.  Lembrei dessa imagem ao fazer um curso on-line sobre escrita literária. Eu sempre gostei de escrever , e até achei que o fazia bem, até estudar um pouquinho a mais sobre o afazer literário. Santa ignorância!  Ler bastante sempre foi meu maior contato com a literatura. Nunca me aprofundei em técnicas e planejamento sobre o que escrevia. Sou tão indisciplinada que não reviso nada que publico. Abuso de clichês, uso reticências como ênfase com total exagero. Dispenso verbos como estilo próprio...

A pequena e a foto

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O barulho da porta batendo com força contrastava com a calma do dia de verão. Era a pequena fugindo das fotos que pareciam animar o resto da família. Quando o fotógrafo contratado vinha em casa era uma festa, todos de roupas novas e prontos para as poses que os preservariam para a história. A pequena não. Resguardou-se no lugar mais seguro que encontrou, esperando o esquecimento de todos. As janelas altas da casa e o grande armário de madeira serviam de refúgio. A tarde passou, os sorrisos tomaram conta da casa. A pequena parecia ter evaporado. Quando o barulho das vozes cessou, ela falou com voz miúda, perguntando se o homem já tinha ido embora. O homem era o fotógrafo. No corredor largo da casa alugada, o pai respondeu certeiro: vem, está tudo seguro. A porta se abriu, devagar. Passinhos se fizeram ouvir no corredor. Tímidos a princípio, mais firmes quando viu a mão do pai lhe oferecendo apoio. Foi quando ouviu a voz que chamou seu nome. Seu rosto virou de imediato, ...

Cafezinho

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Quando você carrega uma vassoura é como se fosse invisível. Aprendi isso muito cedo. Já lhes contei que escutei segredos que fariam corar gente muito vivida quando trabalhei de faxineira em um convento? Mas isso faz parte do passado desde que vim servir cafezinho nessa empresa. Não que me torne mais presente, mas recebo uns sorrisos mais calorosos. O gerente geral, por exemplo. Bonito que nem galã de telenovela. Bem, talvez um pouco passado, mas gosto de homem mais velho, eles impõem mais respeito. Ele sempre sorri para mim, mesmo quando está em uma reunião mais acalorada. Cada palavrão que vou te contar! Também me sorri quando está no telefone. E sei direitinho, pelo tom de sua voz, quando fala com a matriz e quando sussurra para a filial. Mesmo homens distintos tem dessas coisas, nunca se detém em apenas um amor. -Açúcar ou adoçante? - Ainda me prestava a perguntar. Muito raro quem não posasse de "laite", este jeito moderno de dizer que se acha gordo e quer emagrece...

Retrospectiva do futuro

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Uma folha em branco. Já se disse coisa mais clichê que isso para representar a falta de criatividade? Ou de paciência? Ou de pura exaustão mental e emocional? Uma folha em branco e nada para dizer.  Não pela falta de assunto, mas pelo acúmulo. Suspirou ao se dar conta que não conseguia mais entender o mundo. Era um tal de conceitos embaralhados, onde as certezas pareciam se desfazer como farinhas nas suas mãos. Só apelando para uma estética auto "ajudatória", dessas inspiradas em caminhadas de auto conhecimento, onde a imensidão das pradarias e as bolhas nos pés substituiriam filosofias mais cheias de consistência.  Trocar o analítico pelo sentimento. Parecia uma bela fórmula de sobrevivência no novo milênio. Quanto mais lugares comuns, menos tempo para decifrar e mais leitores curtindo. Já imaginou dialogar sobre filósofos em redes sociais? Explicar conceitos densos em 140 ou 270 caracteres? Quem ia lá se importar quando até mesmo decisões política...