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Caindo a ficha

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  Parece que foi no meio de março que a vida mudou. Não lembra direito, faz tanto tempo que não vê ninguém ao vivo. Os contatos são pelos meios digitais, já participou de mais festas e viu mais lives que em todo tempo de antes. Lembra de que sentiu um premonição. Se fez mais ardente no ultimo beijo, se fez mais meiga no último abraço. Depois o medo. As notícias desencontradas. As brigas de poder. As mortes. Antes só especulação. Mesmo assim os cuidados. Quase compulsivos. Lava a mão, se entope de álcool gel. Grita com quem entra de sapatos. Fica quase pelada ao voltar da rua. Vai deixando de ir. Pede tudo pelo telefone. Primeiro lava tudo, alguns deixa de molho uns três ou quatro dias antes de consumir. Nunca gastou tanto. A internet se tornou refúgio. Chorou e brigou com gente que não estava nem aí. Tão trancados como ela, que eram todos do grupo de risco. Duas semanas de medo de andar nas ruas pelo movimento deserto. Só o barulho das ambulâncias cruzando. De...

Antônia e Alice, as outras mulheres de meu avô

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Antes de casar com minha avó Doralice , meu avô Bartholomeu teve duas outras mulheres. Oficiais. Em 1898, depois de passar alguns anos estudando em São Paulo e sendo diretor do colégio distrital de Taquara do Mundo Novo, ele se casa com Maria Antônia Jaeckel ( Iaeckel, Jackel, Jeckel podem ser outras formas de grafia do sobrenome). Era nascida na Bohemia, que  naquela epoca fazia parte do império austro húngaro. Atualmente o reino da Boemia é a república Tcheca. Seus pais Henrique Jaeckel e Helena Weiss provavelmente fizeram o mesmo trajeto que a família do jovem Bartholomeu fez em algum momento depois de 1875, ano do nascimento de Maria Antônia.  Ela tinha 24 anos quando se casaram, no dia 6 de agosto de 1898, na matriz de Santa Catarina da Feliz. Seus pais já tinham morrido na ocasião e como padrinho teve Ricardo Jaeckel, talvez seu irmão.  O casamento foi feito pelo vigário Max Von Lassberg, um padre jesuíta alemão, com uma peculiar predileção ...

andorinhas ausentes

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No meio da quarentena conheci Manoel de Barros. Podem achar graça ou até perguntar quem é.  Há os que vão sorrir gritando: o poeta! Tenho meus dias de poesia. São momentos em que preciso de lírios verdejantes na insolente monotonia. Oscilo entre o mergulho na janela que me fascina ao voo da andorinha que brinca com as nuvens. Delicado meu equilíbrio. É uma tecitura delicada que conforme o ponto, desanda. Ou sublima. Sempre fui dos cá dentro. Ficar reclusa nunca me aborrecia. Até quando. Deixou de ser escolha. Virou prisão. Precisão de cuidados. A vida mata. O amor vira navalha como disse outro poeta que outra peste levou mais cedo. Nem as nuvens se mexem em um céu congelado. Meu sangue frio parece ferver. Algo em mim se fez tristeza. Recomeço o delicado equilíbrio de me reerguer. Cada um de nós oscilantes, procurantes, barrosos de poesia. Carentes de colo e vida na rua. Olho ruas vazias e sinto um aperto. Olho ...

Angústias da CTI que já vivi

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O barulho dos aparelhos que mantém um ser amado à vida em uma UTI são inolvidáveis. Assim como a sirene da ambulância que cruza a cidade em uma corrida de vida e morte. Já passei por isso. A angústia de noites esperando e temendo uma ligação. Esperar boletins médicos com a sofreguidão das decisões. Ver aquela pessoa tão querida, imóvel em uma cama, toda amarrada por fios e aparelhos, com tubos que respiram por ele.  Aprender a conhecer cada bip, cada remédio, cada sinal dos batimentos.  Aguardar nas salas de espera, uma pós graduação de vida de verdade. Compartilhar com gente que não se conhece a mesma esperança sofrida que se renova ou esgota a cada visita. Fazer fila na porta, aguardar o sinal verde e percorrer passo a passo em direção ao leito, sem saber o que esperar. Aprender a viver cada dia. Cada movimento de olho, suspiro, respiro. Cada olhar e fisionomia das equipes médicas.  Segurar na mão da pessoa sedada. Falar com ela, sem saber se nos escuta...

Leveza - memórias da pandemia

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O mundo desmorona e estou fazendo máscara de clara de ovo no rosto para repor o colágeno. Sei lá se funciona, a crença já ajuda bastante. Se cuidar, se sentir bonita, respeitar pequenos rituais de saúde emocional ajudam a tornar as situações mais palatáveis. Mudam? Não. Mas ajudam a enfrentar com mais energia. Se não dá para mudar, contorno. Lições do meu pai solar e da minha mãe pragmática (e poeta) virginiana. Ontem foi dia de poesia, leituras sobre a Idade Média e uma live com sobreviventes do holocausto. Vocês acham que estamos no caos? Nós, em nossas casas, muitos com comida e TV a cabo? Escutem quem perdeu tudo, família, infância, referências e continua de pé. Com suas dores e a vontade de esquecer. Mas não. Continuam falando para que não se repita. Todos os que foram chacinados, os que foram torturados,os que não eram aceitos.  Não pq fossem bandidos, mas pq eram negros, judeus, muçulmanos, ateus, cristãos. Mudam os tempos e os motivos, a maldade e a omissão h...

O dia que a igreja pegou fogo

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Enquanto olhava as labaredas que destruíam a matriz onde há uma semana se casara, Rafael lembrou de dois fatos. Uma que o cônego era uma figura esquisita. Embora bastante atuante na cidade em questões beneméritas, algo em seus olhos miúdos, vistos através de óculos de grandes lentes, brilhava com uma cupidez que não ficava bem em sacerdotes. Parecia muito mais interessado nas questões monetárias que nas de salvar almas. Poderia ser apenas uma impressão, Rafael não saberia dizer. Mas confiava em seus instintos.  Era um dia escaldante de verão na pequena cidade do interior gaúcho. Mal começava a cair a noite, todos se preparavam para mais um casamento na antiga Matriz. Bem verdade que alguns cupins se notavam aqui e ali, mas seus corredores ainda guardavam a velha imponência de antigos tempos. As velas ornamentavam o altar que era ricamente adornado com objetos de puro ouro. A riqueza das peças contrastava com a premente necessidade de reforma do madeirame e do prédio....

Bolinha de ilusão

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"Foi então que eu vi Como era bom brincar Com bolinha de sabão" Bolinhas de sabão cantava um trio da minha infância chamado Esperança.  Bolinhas de sabão fazia minha mãe ao me dar banho quando eu tinha uns três/quatro anos. Banheiro preto e rosa. Boxe banheira. Ela sentada no chão, rindo com seu sorriso gostoso e brincando. Minha mãe brincava. Sempre foi moleca. Conta-se que quando namorava meu pai, tirava os sapatos ( os únicos que tinha) e andava na rua molhada pela chuva com pés descalços.  Tinha 14 anos. Ele 18. O mundo ia iniciar uma Guerra Mundial.  Eles, um amor que durou mais de sete décadas. Minha mãe nos dava sustos com papel de pão. Ela enchia de ar e sorrateira arrebentava quando menos esperávamos. Falava palavrão e ria muito. Tinha sempre uma tirada irônica e certeira. E fazia bolinhas de sabão para que eu gostasse do banho. Eram momentos nossos, cheios de encantamento. Ela me incentivava a ...