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Mostrando postagens com o rótulo mulher

Pequenas concessões

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Uma história nem tão ficcional porque bem comum de acontecer... Marina olhou seu reflexo cansado no espelho e tentou entender em que momento havia chegado ali. A mulher que a encarava parecia uma versão desbotada daquela profissional admirada de poucos anos antes. Os cabelos já não recebiam o mesmo cuidado. As roupas eram escolhidas mais pela praticidade do que pelo prazer. A autoestima parecia ter se recolhido para algum canto da casa, junto das coisas que deixamos para depois. Mas nem sempre fora assim. Durante décadas tinha construído uma carreira sólida, um casamento feliz com o primeiro namorado e uma família que lhe dava orgulho. Os três filhos já seguiam seus próprios caminhos. Os netos começavam a ocupar o lugar das antigas preocupações maternas. Então a vida mudou de direção. O marido adoeceu. A doença foi rápida, mas o sofrimento parecia que nunca ia acabar. Foram meses de hospitais, consultas e noites mal dormidas que consumiram uma energia que Marina jamais recuperou comple...

Em um dia cinzento, pensando sobre ser mulher

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Sou uma mulher de meia idade em uma cidade cinzenta em um país outrora exuberante. É inverno, os dias são curtos e as noites longas e frias. Domingo a noite, estou sentada sozinha em minha casa, olhando para fora da janela, vendo a chuva cair e o vento soprar.  Penso em todas as coisas que já vivi e que me levaram a este momento. Penso nas pessoas que amei e perdi, nas experiências que tive, nas escolhas que fiz. Penso nas coisas que fiz de errado e também nas coisas que fiz certo.  Penso principalmente em todas as mulheres que conheci ao longo da minha vida e em como somos todas diferentes. Penso nas mulheres que lutaram pelos seus direitos e pelos direitos das outras mulheres. Penso nas mulheres que foram fortes e corajosas, nas mulheres que foram fracas e vulneráveis. Penso nas mulheres que me ensinaram e nas que eu ensinei. Penso nas mulheres que me fizeram rir e nas que me fizeram chorar.  Penso em todas as mulheres que conheci e em como somos todas iguais e todas d...

Ajuste de contas

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A fome apertava enquanto a manhã corria. Nem se dera conta das horas passando e já chegava perto do meio dia. O café bebido às pressas ainda na madrugada há muito já tinha sido digerido. Não importava. Logo tudo teria termo. Suava enquanto corria as mãos pelas roupas, imaginando qual a mais adequada para caber em uma mala pequena. Era tudo o que levaria. Toda uma vida se resumiria em duas calças, duas camisetas, um vestido e poucas roupas de baixo. E um livro. Nada mais sobrava da vida. Seus amores que tantas emoções lhe rendera, como na música do Roberto, ficariam na lembrança dos tempos de vida. Os trabalhos amarrotados na vida se juntariam ao cansaço de recomeçar. Ela toda cansaços. Ela toda amassos. Ela toda apenas uma minúscula poeira de alguém que um dia tivera sonhos de quimeras. Adolescera. Adoecera. Agora se ia.   O gato miava solitário em um corredor da madrugada. Alguém gritou reclamando que a cerveja estava quente. Um ambulância cruzou a noite com a ...

Falando em Princesas

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Falei esses dias que não me via como uma criança fantasiada de princesa Disney emponderada. E acabei me lembrando que, apesar disso, o mito da alteza era sim bem forte em minha infância.  Começou, talvez, com minha irmã e prima me vestindo como sua boneca viva quando eu tinha uns três anos. Com um imenso cone de cartolina de onde saía um imenso véu cor de rosa, feito do mosquiteiro do meu berço, eu me sentia como em um conto de fadas real. Ao invés das histórias de hoje, meus dias e ouvidos, eram abastecidos pelas histórias de Andersen. A Princesa e a Ervilh a um de meus prediletos. A princesa que chega a noite em um imenso castelo, encontra a Rainha Mãe que quer se certificar de que o rebento encontrará uma verdadeira Princesa de sangue azul, e esconde a maldita da ervilha embaixo de vinte colchões de pena. Até hoje eu fico a procura dos grãos, mesmo quando tudo parece acontecer às mil maravilhas. Encontro pouso seguro em um castelo de sonhos? Tem que ter alguma pegadinha! J...

Vivo de maravilhosidades

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Nasci com ímpetos de miragens.  Dizem que a sala escura, meio penumbra, as mãos ágeis e carinhosas da parteira se misturavam à música que tocava no quarto do hospital daquela pequena cidade do interior onde meu pai e minha mãe me aguardavam. E me tiveram.  A música que tocava? Tenho uma certa curiosidade. Um bolero, um tango, mais certo que fosse uma ópera da rádio Belgrano de Buenos Aires, a única com potência para chegar ali, nos ouvidos da menina que chorava. O mundo me aguardava. Dele tinha receios. Sempre tive. Há quem diga que caí no banho nos meus primeiros dias e isso me marcou para sempre. Há quem diga que a xucrice era coisa minha desde sempre. Eram medos que nunca soube elucidar. Mas... Nem tudo eram temores. Havia o deslumbramento. Uma certeza interna de que a Vida se fazia de momentos incríveis, mesmo que nunca vividos para fora. Sim, nasci para maravilhosidades .   1. Maravilhosidade  Refere-se à alguma coisa, pessoa...

Olhos treinados em acender vontades

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e não saberemos dizer qual foi o instante em que cessaram riso, abraço, murmúrio ou o toque das nossas mãos entre as cobertas felpudas, ou os códigos trocados por nossos olhos treinados em acender vontades - Cinthia Kriemler Pode me chamar de demônia. Odeio ser contida. Quem sou? Um pouco de você, um pouco da minha mãe, das avós que me antecederam, das amigas. Um pouco até das inimigas. Um caldo de gemidos, vontades esmagadas, sonhos a posteriori, cuidados com a prole. Tenho olhos treinados em acender vontades como diz a amiga de ginásio. Não apenas de machos fogosos ou que tentam ser. Sou luzeiro de quem perdeu vontade, sou aquela que esquece de si para cuidar dos outros. A que posterga. A que adia. A que se deixa morrer.  E a demônia? Onde vive a bicha ruim que me habita? Espreita sorrateira em qualquer desvio. Um suspiro derramado. Uma risada mais cínica. Um lampejo de desejo solto no ar. Leio. Leio menos que devia, mas ainda assim leio. Leio m...

Das agruras de sentir conforme a Lua

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As vezes se perguntava o que era ser mulher. Era mais que vestir rosa quando pequena ou sangrar todo mês desde criança ainda. Era mais que os não devias e os devias, limiar muito estreito que ouvia e seguia desde que se entendia por gente. Era mais que abotoar uma blusa até em cima ou desabotoar de acordo com as circunstâncias. Era sem dúvida bem mais que ser bela em alguma etapa da vida e ser disponível para ajudar em outra. Lá no fundo do seu ser se sentia mulher. Nem em outra encarnação, se existisse isso, queria voltar sem ser fêmea. Das agruras de sentir conforme a Lua, isso ela entendia. Mesmo que não tivesse parido, mesmo que não tivesse um macho para chamar de seu, ela sabia.  Que isso de nascer mulher não depende apenas de uma conjunção de combinações de óvulos e espermatozoides.  Mulher se criava nas sombrias e luminosas veredas dos universo, sob arranjo de deusas e anjas aladas que ruminavam antigas rezas para que de quando em quando, se gerass...

Abriu a porta

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Abriu a porta. Tudo era novo naquele olhar que amanhecia para a vida. Correu os olhos pelas paredes em que a pintura carecia de novo retoque. Pousou seus dedos pelos móveis que revelavam um passado mais ditoso e onde os cupins marcavam sua fome.  "Para que uns sobrevivessem, outros tinham que fenecer." Riu da sua ideia. Pareceu tolice de adolescente, coisa que ela tinha uma vaga recordação de ter sido um dia. Mas mesmo assim, sorriu. A vida lhe pareceu boa. E fosse lá explicar esse milagre de achar graça onde tudo parecia ruína? Tem coisas que não se explica não. Se deixa sentir e só. Abriu a porta. Sentiu falta de uma violeta que pudesse lembrar ternura. Anotou mentalmente na sua lista de compras. Havia de sobrar uns trocados para um gesto de beleza. De repente entendeu o cara que morava na rua, aquele que trancrava a respiração, envergonhada, pelo cheiro que empesteava suas narinas, dos dias e anos sem uma gota de água a lavar humores e fluídos que de tão natur...

Perseguida

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Puta!  Mil vezes puta!  Puta da cara Puta da vida Puta destemida Puta mulher!  Puta guerreira Puta da vida Sempre perseguida Puta escolha Puta destino Puta da vida Cabeça sempre erguida Puta merda Puta do caralho Puta da vida Lição aprendida Puta amiga Puta ternura Puta da vida Menina tímida  Puta chamada Puta assumida Puta da vida Nunca reprimida Putas todas nós  Putas gritantes Putas da vida Mulheres escolhidas Putas que nos parimos  Lilith

De uma mulher qualquer

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Iluminada. Acordou cheia de luz. Dessa luz que não importa o cinza nublado de fora, ela inunda a alma e se esparrama feito maria mole pela vida. Nem bem sabia o porquê. Nem tinha motivo. Ela que fora parida por Maria/Joana/Clarice/Rosemari. Gerada em uma noite de lua cheia e ardente em que fora seduzida pelo Mario/Miguel/João/Claudenir que a envolveu em seus braços, arrotando palavras de sedução tão novas e delirantes. Mentira. Foi uma foda dessas de fim de noite, entre duas pessoas que nem mais se olhavam de tão conhecidas, dessa convivência que vira fardo, vira vida tão normal que cansa. Cansa até os poros. Nem sabe como tiveram energia para que um ovulo se abrisse a um espermatozóde. Deve ter sido descuido. Só pode. Oito meses depois nasceu aquela guria mirrada. Feinha que dava dó. O Mario/Miguel/João/Claudenir já tinha morrido em um acidente de trabalho. Depois de uma jornada de oito horas, foi fazer bico de segurança. Bala perdida numa briga qualquer de bar. Um número nas...