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Inquietudes

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Eu tinha olhos de girassol que giravam feito espigas em procura de uma luz que achava fora de mim. Eu tinha sedes de cachoeiras jorrando em desespero de buscas e arrojos nas enseadas da vida. Eu tinha ouvidos de barbatanas suspirando por músicas inaudíveis. Eu tinha vontades enluaradas de uivar em noites solitárias, desgarrada do bando. Eu tinha letargias de dias quentes, desses de mormaça que antecede tempestades. Eu tinha mordaças. Eu tinha em mim tanta coisa que era tesouro e resistência dessas de modos a jorrar combustível. Eu tive fogueiras ardentes de inquietudes Um dia fluí. Um mar sobre os pés um revolta sobre o ar um misto de medo e sobressalto um mundo inteiro a descobrir um mar de portas fechadas a naufragar um ar de visões oníricas de um porvir uma imaginação por fazer uma vida por erigir uma fome a inquietar uma glória por alcançar uma criança a gerar uma luta por conquistar adeus vida velha companheira quem sabe um dia o mistério desvendar

A criança, a rua e a felicidade

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O menininho em sua bicicleta passa por mim. Atrás seu pai que vai cuidando seus caminhos, sem tolher a sua liberdade de ir e vir. Vai dizendo com voz firme e carinhosa o que fazer, onde passar e como usar as calçadas. Paramos no sinal que está vermelho para nós. A moça na frente, vendo que não vinham carros, apressou o passo e atravessou a rua. Eu não. Me lembrei do menino que estava com o pai. “A tia passou no sinal que não era nosso” diz sua vozinha de criança. O pai explica algo como adultos apressados. “Quando eu for grande vou poder também atravessar no sinal vermelho?” pergunta sua voz ingênua. A sinaleira abre e eu sigo no meu passo apressado de gente grande, sem ouvir a dificil resposta do pai. Penso que estamos a dar exemplos a toda hora, mesmo para quem não conhecemos. Eu também já fui a mulher apressada que aproveitou uma rua deserta para passar, sem nem me dar conta da menina na mão do pai que teve que ser contida para não fazer o mesmo. Também já fui a tia que ensinava a n...

Diário de um dia qualquer

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Continuo apesar de. Minto, gosto de estar aqui. Às vezes nem sempre, não de todo, mas na maior parte das vezes, a curiosidade vence o desanimo e a desesperança. O que vem em frente me encanta. Tanto quanto o estudo do passado. Acordo na madrugada. Corro para o banheiro porque hidratar tem disso, o troco. Ainda meio sonolenta, entre a escolha de virar de lado e dormir mais um pouco, escolho espreguiçar (não tanto como devia) e abrir os olhos com mais vigor. Uma olhada nas redes e notícias. Cada vez mais difícil separar o joio do trigo. Mas sempre pode haver um whats de relevância. Tipo o prédio está pegando fogo, do grupo do edifício. Ou algum acontecimento impactante. Nem penso que existe ainda telefone fixo na minha casa, embora duvide que alguém mais tenha meu número. Só os tele anúncios procurando pessoas que nunca vi. Tem os que querem me vender planos de cremação em meio aos pesadelos matinais. Mas tem também os gatinhos fofos, as separações que a gente não espera, as piadas, os m...

Amantes efêmeros

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  Dia sim, dia não sigo em busca da atenção Mariposa cansada borboleta amestrada voo tonta em torno da luz. Tua luz. Minha rota encanecida talhada de desencontros desencantada de histerias morro só. Acordo cansada atenta de minha rota. Descubro encantada um voo solo. A luz interna me guia. Sigo sem rumo;mas com Um dia acordo em Saturno Vou rir como bailarina das proezas do equilíbrio Amantes efêmeros Um dia te busco No outro te afastas Um dia recuo Para nunca mais

Memórias guardadas na nuvem

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Os braços não os sentia como antes. Não que não os soubesse em si, mas pareciam meros apêndices do tempo em reclamavam de dor quando as mãos dedilhavam céleres o teclado. Hoje teclado não mais existe porque os comandos são oferecidos pelas Yinuo, as sucessoras das primitivas Alexas. Era uma sensação estranha ter o corpo físico substituído por sistemas binários que guardavam nas nuvens sua memória, seus feitos, suas narrativas e sagas. Não sabia se era exatamente assim que funcionava já que nunca se interessou por tecnologia digital. Bastava que funcionasse e estava bem. Já nem podia afirmar que tudo o que saia de sua boca era realmente fato acontecido, ou versões geradas por ela mesma, ou por algum sobrinho ou amigo que recordava em sua cabeça e acrescentava ao programa básico. E nem importava porque seus parentes mais próximos também já eram hologramas de um passado que já tinha se ido. Ficaram pendurados em gavetas, à disposição de algum curioso ou historiador que quisesse pesquisar ...

Borboletas salvam

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  Abri o poço, será que posso?  As nuvens no céu me dizem sim.  O buraco ali adiante grita não.  A vida é um imenso quebra-cabeças feito de pecinhas isoladas e sem muitos encaixes.  Os coelhos correm e a mata observa.  O trigo amadurece enquanto a pipoca ferve.  A gente grita mesmo sem carecer.  O amor espreita e nunca chega  porque já está alojado de mala e cuia em nosso bem-querer.  O precipício acena com sua adrenalina escondida  chamamento para o perigo que teimamos em refugar.  Tomamos água cristalina que saí da bica do filtro.  Teimamos em recolher os filtros que nos livram do imediato. Sorrimos de soslaio porque entendemos que alguma ironia nos espera na vereda do jardim.  Somos pele, unha e fome.  Somos atos em nada concretos.  Recolhemos nossos pedaços vazios para que a estrada fique limpa para novos passantes.  O poço se abre.  Nos jogamos.  Borboletas nos levitam.  Voamos.

Da voragem que rola sem seiva

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Momento de vivência tolhendo carências de não viver. Sementes jorradas escolhas perdidas na imensa ausência do bem-querer. Mistura líquida de sorvete e menta quentão. Quente que queima a língua. Feio que traz frio que mata. Angústia do não sair. Da palavra que morre antes de nascer. Da voragem que rola sem seiva. Da mata. Da rata. Do nada. Entre o friozinho de 12 graus que me chega pelas costas, vindo da janela aberta que renova o ar do quarto dormido e o gole do segundo copo d'água da manhã, sinto meus dedos não tão ágeis correrem pelo teclado numa tentativa de retomar um velho hábito de vida: escrever. O prazer de colocar no papel algo meu. Quando despertado? Lembro da minha vó escrevendo as palavras de saudades que ditava para meus pais que tinham viajado a passeio. A fascinação da eu pequena de uns três ou quatro anos de ver que meus sentimentos iam se materializar via correio e iam chegar ao seu destino. As redações do primário, sempre elogiadas pelos professoras. Já fruto de ...