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Relógio das quimeras

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  "Lembra-te do anônimo da Terra Que meditando a sós com seus botões Gravou no relógio das quimeras: “É mais tarde do que supões” Cantares de perda e predileção (1983) - Hilda Hilst Leio bastante.  Não o suficiente, é verdade.  Mas mais que antes.  O antes do tempo não focado. O antes da mente embotada O antes do medo permanente Se faço um breve passeio no ontem Vejo folhas caídas, amassadas, largadas Vejo folhas jogadas e perdidas Se revisito o hoje e -se o faço, é porque sou eterna viajante mesmo no instante que escrevo Percebo folhas arrumadas Inquietas, é verdade Naquelas arrumações esquisitas Bagunçadas até Mas mesmo assim mais arranjadas Me observo sentada, meus dedos mais ágeis uma breve luz chega de lado Um relógio imaginário com ponteiros enfeitados teima em girar adoidado Ora devagar Ora apressado Nesse rodopio de taques e tiques eu bailarina Júbilo, memórias e mais Hildas Poetam-me na vã tentativa de afogar receios de fomentar coragens de apressar destinos...

Diário de uma (quase) surtada

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Querido diário, digo blog Sim, sou dessas, ainda escrevo em blog. Exatamente como fazia lá no início do século. E antes disso em cadernos, folhas soltas ou qualquer meio que registrasse sentimentos, angústias ou descobertas. Alegrias as vivo no mundo real. Dificilmente escrevo sobre elas. Tipo as novelas: ninguém se presta a ver gente feliz. Queremos ver drama, lágrimas, conflitos. Quando tudo se resolve, vem um enorme FIM e passamos para outra sofrência. Pois bem, um ano e alguns meses de semi isolamento social só acirraram minhas fobias de gente. O mundo lá fora parece cada dia menos convidativo. Não fosse pelo sol, acho que ficaria eternamente na minha biblioteca de babel, lendo livros, vendo séries e documentários. E atualmente ouvindo podcasts. Sério, me rendi. Vídeos sejam no youtube ou vimeo, ou pior ainda no tiktok não me atraem muito. Mas os podcasts são bem mais práticos porque posso fazer outras coisas ao mesmo tempo. Sou multitarefas. Fazer mais de uma coisa ao mesmo tempo ...

Sobreviventes no deserto

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"Apenas tribos unidas por um sentimento de grupo conseguem sobreviver no deserto." Ibn Khaldun  Cinzentamente o domingo se espalha preguiçoso, antevendo tempos ainda mais gélidos que os que passamos. Sim, vivemos em um deserto. Embora urbanos e repletos de prédios, cheios de pessoas, inundados de universos, curiosamente estamos cada vez mais sós. Nossas fortalezas, pequenas ou grandes, abrigam nossos pares, mas não o etos público. Li esses dias uma reflexão sobre empatia e no como é necessário pensar além fronteiras individuals e familiares. Estranhei isso não ser pensamento comum, ensinamento que aprendi desde pequena. Meu lugar no mundo e, consequentemente, minha responsabilidade sobre o outro. Ainda mais curioso que ande na contra maré da conscientização corrente. Preciso ser mais egoísta, mais individualista, mais pensante em mim e menos no outro. Os outros para quem priorizo meu foco de sentimento de existência no mundo.  Vários testes já me deram semelhança com Madre Te...

Eu e meus breus

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Nasci perplexidade Cresci curiosidade, busca de sentido dos meus breus conheço o abismo dos picos a luz me guia sobrevivo generosa Bethaniamente sentimento aflorante/ perseguinte/ emergente Nasci em um abril de um ano da década de cinquenta. Em um quarto de hospital de uma cidade do interior do meu estado. A parteira, meio doula, me amparou junto à minha mãe e meu pai, em um ambiente meio breu, com música. Assim emergi ao mundo. Os breus vieram junto de herança. Carências ancestrais que trago coladas nas células e memórias de gente que não conheci. Fruto de mulheres que sofreram e amaram, perfumes de vidas que se fizeram entre dores e amores. Clichês e sonhos. Breus. Cresci entre medos internos e impulsos de saídas. Luz e escuro. Sol e lua me contornam desde sempre. Meus grandes olhos pretos curiosos, observantes. Meus brinquedos, os teatros de enredos criados na minha cabeça. Meus silêncios, o enigma de quem me via e não me reconhecia. Nem eu o fazia. Amadureci entre sorrisos e lágrim...

O vinho e o nada

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O vinho girava lentamente na taça deixando lágrimas que se pareciam as que ela mesma vertia. Já tinha cheirado e não sentia aromas de café ou frutas vermelhas. Nem mesmo amadeirados. Mas o gosto da bochechada ia e vinha como marés de lua cheia. Enchia sua boca de gostos, pareciam todas as misturas de bebidas boas que já tomara na vida.  Mentira. Parecia mesmo com aquele gosto de primeiro beijo daquele namorado que nem lembra direito o rosto porque efêmero. Mas que beijava divinamente. Enchia sua boca com línguas e emoções desconhecidas. Embora já adivinhadas. Vivia tempos esquisitos. Lá fora os sons quase normais de uma vida que se descobria em tudo diferente. Cá dentro um aperto novo e tão conhecido. Vivia, se rasgava e se redescobria. Já esquecera de contar o quanto tentara escrever. Sentava e nada. Sentia uma inspiração, fazia um início de texto. Sentava e nada.  O nada era um sentimento desconhecido. O escrever sempre fora a sua fuga, seu destino, sua lata de lixo e baú de...

Caminhos de Salvador - Jorge Amado me guie!

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Moças, a igreja da Conceição da Praia fica a duas quadras daqui. Mas recomendo que não vão até lá. É zona do baixo meretrício... sorriu ao lembrar o aviso do policial militar naquela manhã. Ele mal podia imaginar que duas estudantes de arquitetura, vindas do distante estado do Rio Grande do Sul, pouco iam se incomodar com aquele detalhe. Queriam mais é conhecer as igrejas da cidade, quantas mesmo? Coisa de uma para cada dia do ano, tinha dito o guia. Imaginaram que, no máximo, podiam encontrar com Vadinho, saindo de alguma vadiagem diurna enquanto sua Flor ficava na cozinha, ensinando a arte de bem comer. Disso sabia ele com mais maestria. Era começo da década de 80. Mais uma vez voltava àquela cidade mágica. Sentada no meio fio, comia um acarajé, se lambuzando de pimenta ( Moça, pimenta para turista ou local? Local, por obvio). Sua mente voltou no tempo. Enquanto o ônibus corria pela BR em direção à uma Salvador ainda desconhecida, a caloura da faculdade de arquitetura misturava duas...

Deus tem dia?

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Acabo de saber que em 14 de junho se comemora o Dia Universal de Deus. Juro que achei que, sendo Deus, todos os dias eram seus. Pelo menos se diz dele que foi o Criador de tudo isso daqui.  Segundo o significado achado no Google Deus é " o ser que está acima de todas as coisas; o criador do universo; ser absoluto, incontestável e perfeito ". Logo deveria também estar acima dessas convenções de dar nome aos tempo. Dias, minutos, anos, séculos, são convenções humanas para o girar do planeta ao redor do sol. Ou ao redor de si mesmo, como acreditam outros. Lembrei que tem alguns que nem acreditam nisso de órbita porque creem que a terra não é esta bola azul no meio do universo como os querem fazer crer. Então saindo de Deus, que é uma ideia de fé muito pessoal, passo às crenças humanas.  "Convicção íntima; opinião que se adota com fé e convicção; certeza." Opinião que se adota pressupõe escolha. Adoto este ponto de vista e não aquele, baseado em convicções internas. Ou ...