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Não vamos deixar o samba morrer

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  “Quando eu não puder pisar mais na avenida Quando as minhas pernas não puderem aguentar Levar meu corpo junto com meu samba O meu anel de bamba Entrego a quem mereça usar “ Meu primo lembrou dessa música de Alcione quando comentava da alegria que sua mãe, minha tia, sentiria no domingo das eleições. Não, não vou falar das vitórias e tristezas da vida na democracia representativa. Faz parte do jogo aprender a ganhar e perder. Assim como na vida, a gente amadurece quando deixa de culpar os outros ou quer mudar as regras do jogo a qualquer contrariedade, fazendo de nossas crenças o centro do universo. Vou falar daquele sentimento que é comum a todos os seres humanos: a certeza da finitude. A morte física diante da qual, todas as mesquinharias tomam seu real tamanho: zero. Todos já perderam alguém que amavam, que admiravam, que um dia, por doença ou fatalidade, foi embora para nunca mais. Nos deixando esse vazio, esse desamparo que toma o peito e invade a alma.  Resta procurar d...

Sobrevivência nossa de cada dia que desperta nossas feras

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Acordo e leio a news da BBC no Telegram. Sim, uso muito o aplicativo e sem medo de vazamentos. Até porque tudo o que falo pode vir à público sem problemas. Entre as notícias internacionais, uma me chama a atenção.   Urso que invadiu casa nos Estados Unidos escapa da polícia derrubando a parede da residência. Muita empatia pelo urso.  Imaginem o poder bélico da polícia americana atrás de um simples urso que invadiu terras que um dia eram de seus antepassados. Ou melhor ainda, não eram propriedade de ninguém que não lembro de ter liso sobre nenhum Deus no cartório delimitando terrenos. Com exceção talvez do povo escolhido por Jeová. Mas isso já é outra história. O coitado do urso pode ter se perdido, ou ficado sem alimentos, já que os humanos invasores não só devastaram florestas, como parecem estar acabando com as abelhas que fazem o mel. Alimento, aprendi nos desenhos animados, que é o preferido dos ursos. Zé Colméia que o diga! Sobrevivência.  Mesmo com milêni...

Vox e o conto da aia - gritos e silêncios

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Se de repente uma onda retrógrada tomasse conta do país e limitasse a fala das mulheres a 100 palavras por dia? O excesso seria punido com dor. Talvez a dor da censura interna fosse até maior que a dor física dos contadores em forma de pulseira. Este o tema do romance distópico Vox que acabei de ler. Muito semelhante ao Conto da Aia , não tão bom quanto. Mas uma leitura rápida, não tão indigesta como o primeiro que me deixou realmente muito angustiada . Talvez já esteja mais calejada. A mensagem é a mesma: o horror acontece aos poucos, as pessoas que nada fazem seja por omissão, medo ou muito trabalho, acabam não apenas coniventes, mas também suas vítimas.  Das leituras necessárias, principalmente para os que perderam aulas de história e filosofia. Ao contrário do Conto da Aia, Vox tem claras referências aos tempos atuais e me pareceu ter sido escrito na esteira do sucesso do outro. Sucesso aliás que veio depois de quase três décadas do livro ter sido escrito. E por...

O homem que coçava a orelha com um grampo

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Entrou no Uber. Pensou consigo mesma que não se faziam mais aplicativos como antes. Não mais os veículos pretos, com gente engravatada e cheia de mesuras. O motorista vestia bermudas. A rádio gritava as fofocas da novela. O carro já tinha visto dias melhores, a limpeza também. Mas a pressa era tamanha e a promoção que a fazia viajar de graça compensava tudo. Até achou graça quando, depois de espirrar pela janela, o motorista pegou um grampo e limpou a orelha... Cara! Nunca tinha visto nem um taxista daqueles táxis bem horrorosos fazer isso. Limpar a orelha com um grampo! Nem grampo se usava mais. Mas nestes tempos de surrealidade aquilo foi apenas um toque a mais. Se armou de bom humor porque nada ia empanar dentro dela a capacidade de ser simpática. Falou do tempo, da vida, do futebol. Deixou de lado os assuntos mais espinhentos porque sua natural diplomacia, aliada à sabedoria de décadas de vida, muitas vividas em uma ditadura, lhe ensinaram que nem tudo se fala abertamen...