Lendo Valérie Perrin
Este ano comecei a participar do clube do livro da Unapi-UFRGS. A Unapi é a Universidade da Pessoa Idosa e proporciona várias atividades. Algumas presenciais, outras online, como é o caso do clube do livro. Uma das leituras do mês foi o livro Esquecidos de Domingo, da escritora francesa Valérie Perrin.
O tema me pegou por falar de cuidados com pessoas que moram em asilos, as chamadas ILPIs, onde muitas acabam esquecidas pelos familiares que nunca as visitam. Especialmente aos domingos, esses dias em que a vida chama os mais jovens para várias atividades que são mais prazerosas do que compartilhar afetos.
A leitura foi rápida e me pegou de tal maneira que comprei mais dois livros da mesma autora: Querida Tia e o mais famoso dela, Água fresca para as flores.
A escrita de Valérie Perrin me pegou pela leveza com que ela trata temas densos. Ela fala de solidão, abandono, traições, morte e abusos, com suas consequências sobre as pessoas, de uma forma instigante, que vai permeando o modo como isso se reflete nas emoções dos personagens. Gostei também de como ela vai criando uma teia intricada de histórias que se mesclam com o passado, transitando entre tempos com uma sutil harmonia. E fazendo com que o leitor, no caso eu, fosse percebendo que a vida é bem mais que uma linha reta. É feita dos nãos ditos, das dúvidas e das incoerências que fazem a complexidade dos seres humanos. Ao mesmo tempo, acena com uma visão otimista que não é rasa, mas tecida de construções de significados que fazem com que os olhares se iluminem.
Li primeiro Esquecidos de Domingo, que, pelo conjunto, ainda foi o que gostei mais. Mais enxuto. Mais coerente. Mais bem acabado, para o meu gosto, com as surpresas do enredo bem encaixadas.
Querida Tia foi minha segunda leitura. Com maior número de páginas, ainda assim traz uma história instigante, embora com alguns toques meio forçados, ao meu ver, mas que se encaixavam no roteiro. Gostei bastante e estava com muitas expectativas pela cereja do bolo, Água fresca para as flores.
Até a metade da leitura, estava fascinada! Diferente dos outros, não sei explicar, a linguagem continuava leve e poética, mas o livro mergulhava mais nas emoções. Da metade para o final, me pareceu que a velha receita que tinha dado certo nos outros veio a reboque. Não me entendam mal, continua sendo um livro muito bom, mas ficou um certo gosto de final de novela, em que tudo se resolve de maneira a causar surpresa. Funciona. Mas não muito para mim. Sou especialista em descobrir quem fez o quê e dificilmente um livro me surpreende. Não foi o caso deste. Não imaginava o final. Mas não fez diferença, porque o que me prendia no livro não estava ligado aos possíveis rearranjos e desfechos. Me pegou, como nos outros, a trajetória das emoções e como lidamos com elas, o modo como isso vai afinando, ou desafinando, a nossa vida. Como somos, muitas vezes, marionetes de situações. E como podemos plantar e regar nossas hortas e flores para iluminar nosso mundo. E, consequentemente, o dos outros.
Em resumo, seres humanos são essencialmente humanos, complexos e contraditórios. E a poesia de ver a vida ainda nos redime.
Ou não.
Recomendo a leitura, embora tenha ficado um leve gosto de desarmonia no final.

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