Eu, leitora

Elenara Elegante


Me considero uma pessoa privilegiada. Nasci em uma casa de leitores.

Desde pequena, os livros eram nossos companheiros. Primeiro, pelas leituras dos mais velhos. Não cheguei a pegar o saudável hábito da leitura de livro em conjunto, que meu pai fazia nas eras antes da TV. Mas, como a caçula da família, ganhava livros desde cedo. Era aquela guria chatinha que sabia de cor as historinhas e não admitia que fossem resumidas. Nem depois de mil leituras.

Nossa casa tinha o que um amigo definiu como “armadilhas do bem”, estantes de livros baixas, bem ao alcance dos olhos e mãos das crianças. Desde cedo, os clássicos estavam na mira dos olhos. Tanto que se criou uma lenda familiar na qual eu aos dez anos já tinha lido Dante Alighieri. Confesso que deixei que pensassem assim, mas não era verdade não. Só tinha lido um resumo em uma enciclopédia dessas bem completas.

De verdade mesmo, tinha devorado os Contos de Andersen em uma edição primorosa da então Editora do Globo aqui de Porto Alegre, com ilustrações de Nelson Boeira Faedrich. Tão fabulosa que, muito tempo depois, soube que foi considerada das melhores edições lá na terra do autor. Devo a ele e a Monteiro Lobato minha paixão continuada em criança por ler.

A biblioteca do meu pai tinha de tudo: de Machado de Assis a História da Civilização, de Will Durant. De Stendhal e Eça de Queiroz a Cassandra Rios. Esta última mais escondida, que não era leitura de criança. Mas que eu descobria e como todo fruto proibido, ia lá e conferia. E entre clássicos, resumo de clássicos, infantis e até eróticos (ou pornográficos) fui lá consolidando meu hábito de leitura. Tinha vezes, muitas na verdade, que driblava as ordens de dormir cedo, lendo debaixo das cobertas.

Fui crescendo entre a literatura fantástica dos anos 70 e o feminismo de Simone de Beauvoir e O Relatório Hite: um profundo estudo Sobre sexualidade feminina (de Shere Hite) . Gabriel Garcia Marquez e os Cem anos de Solidão, que li, reli e, não contente, li de novo até quase enxergar borboletas nas bananeiras. [Carlos] Castaneda, O Despertar dos Mágicos (de Jacques Bergier e Louis Pauwels) e Fritz Perls me explicando a Gestalt se misturavam à Aprendizagem com Clarice.

Clarice. Antes de se tornar figurinha fácil nas redes sociais, nas quais até o que não escreveu recebe a sua assinatura, a Lispector era minha companheira de descobertas. Ela e o Caio. O Abreu.

A Marta Medeiros e a Lia Luft dos primeiros livros. Não mais depois. Leitura, leitoras e autoras tem dessas coisas. A gente se aproxima e se afasta. E nem sabe muito bem o porquê.

Dos livros que li mais de uma vez, na verdade muitas vezes mais que uma vez: Crônicas Marcianas (de Ray Bradbury) e Mulheres que correm com os Lobos (de Clarissa Pinkola Estés). Sem dúvida esses dois livros me acrescentaram muito. Não sem motivo, falam de histórias que me trazem insights até hoje.

São tantos livros que me fizeram mais eu. Dos exotéricos aos técnicos. Dos para conhecer pessoas, seus anseios à História. Poesia, um pouco menos. Ler poemas é para momentos especiais. E dos poetas tenho Thiago de Mello como referência de uma época em que se esperava que a madrugada campesina chegasse e que um homem confiasse em outro homem, como um menino confia em outro menino. Tempos de acreditar.

Tenho com meus livros uma relação de posse que não tenho com as pessoas. Nos últimos anos tenho me trabalhado para desapegar. Mas não é fácil. E mais ainda porque tenho desapegado de livros muito queridos. Mas escolho também com carinho as pessoas com quem eles seguirão novas rotas. Sempre digo que, se ganhou um livro meu, considere-se uma pessoa muito especial para mim. E sim, dou livros de presente.

O que a leitura me traz? Mais que conhecimento ou mero lazer. Ler é um ato simbólico de envolvimento. É uma abertura de portas e novos mundos. São portais de universos que se abrem na minha cabeça. Sofro quando termino um livro que me envolve muito como se me separasse de grandes amigos. Gosto de cheiro de livro novo. Gosto de ter o livro nas mãos. Gosto da cadência das letras e palavras. Gosto do envolvimento, da descoberta que me exige. Ler é um ato de amor comigo.

(depoimento de 2018 no blog Eu, leitora )

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