A surtada nossa de cada dia
Mais de 100 dias presa em casa. Três saídas esporádicas e tensas. Quem não surtou no meio da pandemia não a viveu com intensidade. O emocional da gente é bicho esquisito. O meu é. E como dizia La Lispector eu quero o é da coisa. A coisa me persegue desde sempre e talvez por isso eu tenha sido a guria estranha da casa. Gostava de pensar demais. Ficar sozinha demais. Observar demais. E viver de menos. Que o equilíbrio sempre peca em algo. Impossível dizer que vou passar mais de 100 dias ou 1000 no risco iminente de um bichinho invisível me pegar de vez, me levar dessa vida em meio ao sofrimento da falta de ar e da falta das pessoas amadas a minha volta, sem mudar algo em mim. Penso mais. Observo mais. Fico obviamente mais sozinha. Já se disse que as pessoas se revelam nas emergências. Quais os seus valores. Quais as suas prioridades. Para quem seus pensamentos e seus atos. Muitos dos que morreram no 11 de setembro, os que sabiam que iam morrer, ligaram para seus amados para di...