Vivendo sem necessariamente amadurecer

Quando vejo a tela em branco, cheia de possibilidades, penso que talvez as palavras já tenham se secado dentro de mim. Como se a necessidade de cuspir para fora o tanto de emoção que me amontoava por dentro, tivesse sido saciada por uma indiferença de costume. Me acostumei a compreender. Não a compreensão do raciocinio, mas a da lerdeza. A luta entre a chama que gritava rubra de indignação, se transformando em uma malemolente preguiça de unir dois mais dois, sabendo que se der quatro trudo bem. Se der cinco também. 


Seria isso sinônimo da tal maturidade?

A aceitação cinzenta e melancolica da harmonia que exige um preço de falta de rebeldia nas ações e pensamentos? 

Não creio. 

Amadurecer tem menos a ver com esmaecer do que se imagina. Frutos maduros são mais saborosos, não menos. Obras maduras são mais completas e menos descartáveis. O maduro é visceral no sentido de vivencia e resultados. Não se amadurece sem custos. Ás vezes é a ingenuidade que dá lugar ao olhar mais arguto. Muitas vezes a sabedoria vem com uma leveza que talvez, muito talvez, se assemelhe ao descaso.

Um riso jogado ao mundo. Um não vale a pena, cheio de satisfação interna. Um acomodar de armas para entender quais batalhas merecem a luta. E quais não.

E se dois e dois afinal são cinco, porque não subverter a matemática da vida e acreditar que os 70 podem ser tão intensos quanto os 20?

Sem meias palavras, sem meias verdades. Sem esconderijos ou subterfúgios.

Talvez telas em branco já não assustem porque são apenas convites que se dispersam nas inúmeras outras possibilidades de vir a ser.

Entre acenos e despedidas, a idade traz um aconchego que nasce lá dentro da alma e carrega uma serenidade no olhar que apenas diz: vivendo sem necessariamente amadurecer. 

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